“Com base na declaração de Bakthin, pode-se afirmar que ler não é unicamente decodificar os símbolos gráficos, é também interpretar o mundo em que vivemos”. (Patrícia F. Bianchini).



sexta-feira, 28 de abril de 2017

A vida e a obra do polêmico escritor Jorge Amado




Publicado originalmente no site Multi Rio, em 16 Março 2012.

A vida e a obra do polêmico escritor Jorge Amado
Por Márcia Pimentel

Popular, populista, agente do stalinismo, utópico, anarquista, roteirista oficioso de Roberto Marinho, sexista, talentoso, competente, desleixado com a Língua Portuguesa, sensível à condição humana, romântico, vítima do preconceito elitista, bem-amado, mal-amado. Estes são alguns dos adjetivos conferidos ao polêmico escritor baiano Jorge Amado, traduzido para 49 idiomas e publicado em 55 países. Por muito tempo, foi considerado como o único autor brasileiro a causar impacto no público e no círculo acadêmico internacional.

Nascido em Itabuna, em 10 de agosto de 1912, filho do fazendeiro de cacau João Amado de Faria e de Eulália Leal Amado, o escritor se insere no boom da literatura latino-americana, ocorrido após a Revolução Cubana, como um de seus expoentes, juntamente com Gabriel García Marques, Julio Cortázar e Mario Vargas Llosa, entre outros. Apesar de uma trajetória bem-sucedida – era o escritor brasileiro com o maior número de livros vendidos até a década de 1990, quando foi superado por Paulo Coelho –, Jorge Amado sempre se deparou com a resistência de boa parte da crítica.

O alinhamento de suas primeiras obras com o realismo socialista, estética oficial do governo soviético de Josef Stalin, e o desapego formal de sua escrita, que dava mais ênfase ao enredo do que à linguagem (segundo o próprio Amado), são alguns dos elementos utilizados contra o escritor. O fato de o sucesso ter sido facilitado pela ampla difusão de seus livros nas revistas e jornais dos partidos comunistas, em vários países do mundo, também integra o quadro de argumentos daqueles que depreciam a obra amadiana e minimizam sua importância para a literatura de Língua Portuguesa.

A presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL), Ana Maria Machado, em seu artigo Jorge Amado: uma releitura, explica que a má vontade com a obra amadiana foi especialmente propagada por vários departamentos de Português nas universidades europeias, nos tempos em que o salazarismo ampliava suas raízes em Portugal. A resistência ao escritor baiano teria aumentado com a tradução de seu primeiro livro para o francês. A folha de rosto dizia se tratar de “uma tradução direto do brasileiro”, o que levou os literatos lusitanos a ironizar o fato de a Língua Portuguesa ter mudado de nome. O uso de palavrões e o registro da oralidade do brasileiro transformaram-se também em mais argumentos contra o escritor por parte dos defensores dos cânones da língua, que o acusavam de legitimar o linguajar chulo.

Acadêmicos e militantes do meio literário discordam, contudo, da visão que tenta rebaixar a obra do escritor baiano. Para o crítico José Castello, Jorge Amado foi o escritor cuja obra mais contribuiu para a construção da imagem do Brasil moderno como um país exuberante, com homens e mulheres que, a despeito da árdua luta pela sobrevivência, vivem para celebrar a vida. “Jorge Amado reinventou o Brasil. A partir dele, não podemos mais pensar em nosso país sem as cores e o sensualismo, a mestiçagem e o sincretismo, a fibra e a alegria que norteiam suas narrativas. (...) Se o Brasil tem um autor, ele se chama Jorge Amado”, diz o crítico em um de seus artigos publicados.

Do ponto de vista pessoal, não são poucos os que relatam que o baiano sempre foi afável, caloroso e sorridente, que não encarava a literatura como um exercício de nobreza intelectual, mas como uma espécie de prazerosa brincadeira de criança. Com seu jeito bonachão, sempre foi cercado de muitos amigos e admiradores dos mais diversos matizes ideológicos, entre eles Jean-Paul Sartre, Pablo Picasso, Pablo Neruda, Roger Bastide, José Sarney e Antônio Carlos Magalhães, entre outros. Sua convivência estreita, amorosa e respeitosa com a cultura popular também lhe garantiu amizades amado menininha_do_gantoiscom figuras memoráveis como Mestre Pastinha, o mais celebrado mestre de capoeira, e a mãe-de-santo Menininha do Gantois. A relação com o candomblé rendeu a Jorge Amado o título honorífico de Obá Arolu (uma espécie de “ministro” de Xangô) no Axé Opô Afonjá. O escritor Moacyr Scliar, que fazia parte de seu círculo de amizades, escreveu certa vez: “Jorge Amado era amável e generoso. Gostava de gente. A todos recebia com uma cordialidade admirável. E autêntica”.

Seja por mérito literário ou por sua rede de influências políticas e de amizades, há um certo consendo de que Jorge Amado foi o autor que mais impactou a formação de imagens sobre o Brasil durante o século XX. Seus livros, além de muito vendidos em dezenas de países, foram adaptados para o cinema, teatro, televisão e até mesmo balé e novelas radiofônicas. Por sua importância em nosso imaginário, o portal da MultiRio apresenta uma série especial de reportagens sobre a obra e a trajetória do polêmico escritor, que ocupou a Cadeira 23 da Academia Brasileira de Letras entre 1961 e 2001, quando faleceu. A militância no Partido Comunista Brasileiro (PCB), pelo qual foi eleito deputado constituinte em 1946, o posterior rompimento com o partido, as referências e as características estéticas, as diferentes visões sobre sua obra são algumas das questões abordadas.

Conheça as obras publicadas de Jorge Amado

O país do carnaval (1931)
Cacau (1933)
Suor (1934)
Jubiabá (1934)
Mar morto (1936)
Capitães da areia (1937)
ABC de Castro Alves (1941)
O cavaleiro da esperança (1942)
Terras do sem fim (1943)
São Jorge dos Ilhéus (1944)
Bahia de Todos os Santos (1944)
O amor do soldado (1944)
Seara vermelha (1946)
O mundo da paz (1951)
Os subterrâneos da liberdade (1954)
Gabriela, cravo e canela (1958)
A morte e a morte de Quincas Berro D’água (1961)
Os velhos marinheiros (1961)
Os pastores da noite (1964)
Dona Flor e seus dois maridos (1966)
Tenda dos milagres (1969)
Teresa Batista cansada de guerra (1972)
O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá (1976)
Tieta do Agreste (1977)
Farda, fardão, camisola de dormir (1979)
O menino grapiúna (1981)
A bola e o goleiro (1984)
Tocaia Grande (1984)
O sumiço da santa: uma história de feitiçaria (1988)
Navegação de cabotagem (1992)
A descoberta da América pelos turcos (1992)
O milagre dos pássaros (1997).

Texto e imagens reproduzidos do site: multirio.rj.gov.br

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