“Com base na declaração de Bakthin, pode-se afirmar que ler não é unicamente decodificar os símbolos gráficos, é também interpretar o mundo em que vivemos”. (Patrícia F. Bianchini)

sexta-feira, 28 de abril de 2017

A vida e a obra do polêmico escritor Jorge Amado




Publicado originalmente no site Multi Rio, em 16 Março 2012.

A vida e a obra do polêmico escritor Jorge Amado
Por Márcia Pimentel

Popular, populista, agente do stalinismo, utópico, anarquista, roteirista oficioso de Roberto Marinho, sexista, talentoso, competente, desleixado com a Língua Portuguesa, sensível à condição humana, romântico, vítima do preconceito elitista, bem-amado, mal-amado. Estes são alguns dos adjetivos conferidos ao polêmico escritor baiano Jorge Amado, traduzido para 49 idiomas e publicado em 55 países. Por muito tempo, foi considerado como o único autor brasileiro a causar impacto no público e no círculo acadêmico internacional.

Nascido em Itabuna, em 10 de agosto de 1912, filho do fazendeiro de cacau João Amado de Faria e de Eulália Leal Amado, o escritor se insere no boom da literatura latino-americana, ocorrido após a Revolução Cubana, como um de seus expoentes, juntamente com Gabriel García Marques, Julio Cortázar e Mario Vargas Llosa, entre outros. Apesar de uma trajetória bem-sucedida – era o escritor brasileiro com o maior número de livros vendidos até a década de 1990, quando foi superado por Paulo Coelho –, Jorge Amado sempre se deparou com a resistência de boa parte da crítica.

O alinhamento de suas primeiras obras com o realismo socialista, estética oficial do governo soviético de Josef Stalin, e o desapego formal de sua escrita, que dava mais ênfase ao enredo do que à linguagem (segundo o próprio Amado), são alguns dos elementos utilizados contra o escritor. O fato de o sucesso ter sido facilitado pela ampla difusão de seus livros nas revistas e jornais dos partidos comunistas, em vários países do mundo, também integra o quadro de argumentos daqueles que depreciam a obra amadiana e minimizam sua importância para a literatura de Língua Portuguesa.

A presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL), Ana Maria Machado, em seu artigo Jorge Amado: uma releitura, explica que a má vontade com a obra amadiana foi especialmente propagada por vários departamentos de Português nas universidades europeias, nos tempos em que o salazarismo ampliava suas raízes em Portugal. A resistência ao escritor baiano teria aumentado com a tradução de seu primeiro livro para o francês. A folha de rosto dizia se tratar de “uma tradução direto do brasileiro”, o que levou os literatos lusitanos a ironizar o fato de a Língua Portuguesa ter mudado de nome. O uso de palavrões e o registro da oralidade do brasileiro transformaram-se também em mais argumentos contra o escritor por parte dos defensores dos cânones da língua, que o acusavam de legitimar o linguajar chulo.

Acadêmicos e militantes do meio literário discordam, contudo, da visão que tenta rebaixar a obra do escritor baiano. Para o crítico José Castello, Jorge Amado foi o escritor cuja obra mais contribuiu para a construção da imagem do Brasil moderno como um país exuberante, com homens e mulheres que, a despeito da árdua luta pela sobrevivência, vivem para celebrar a vida. “Jorge Amado reinventou o Brasil. A partir dele, não podemos mais pensar em nosso país sem as cores e o sensualismo, a mestiçagem e o sincretismo, a fibra e a alegria que norteiam suas narrativas. (...) Se o Brasil tem um autor, ele se chama Jorge Amado”, diz o crítico em um de seus artigos publicados.

Do ponto de vista pessoal, não são poucos os que relatam que o baiano sempre foi afável, caloroso e sorridente, que não encarava a literatura como um exercício de nobreza intelectual, mas como uma espécie de prazerosa brincadeira de criança. Com seu jeito bonachão, sempre foi cercado de muitos amigos e admiradores dos mais diversos matizes ideológicos, entre eles Jean-Paul Sartre, Pablo Picasso, Pablo Neruda, Roger Bastide, José Sarney e Antônio Carlos Magalhães, entre outros. Sua convivência estreita, amorosa e respeitosa com a cultura popular também lhe garantiu amizades amado menininha_do_gantoiscom figuras memoráveis como Mestre Pastinha, o mais celebrado mestre de capoeira, e a mãe-de-santo Menininha do Gantois. A relação com o candomblé rendeu a Jorge Amado o título honorífico de Obá Arolu (uma espécie de “ministro” de Xangô) no Axé Opô Afonjá. O escritor Moacyr Scliar, que fazia parte de seu círculo de amizades, escreveu certa vez: “Jorge Amado era amável e generoso. Gostava de gente. A todos recebia com uma cordialidade admirável. E autêntica”.

Seja por mérito literário ou por sua rede de influências políticas e de amizades, há um certo consendo de que Jorge Amado foi o autor que mais impactou a formação de imagens sobre o Brasil durante o século XX. Seus livros, além de muito vendidos em dezenas de países, foram adaptados para o cinema, teatro, televisão e até mesmo balé e novelas radiofônicas. Por sua importância em nosso imaginário, o portal da MultiRio apresenta uma série especial de reportagens sobre a obra e a trajetória do polêmico escritor, que ocupou a Cadeira 23 da Academia Brasileira de Letras entre 1961 e 2001, quando faleceu. A militância no Partido Comunista Brasileiro (PCB), pelo qual foi eleito deputado constituinte em 1946, o posterior rompimento com o partido, as referências e as características estéticas, as diferentes visões sobre sua obra são algumas das questões abordadas.

Conheça as obras publicadas de Jorge Amado

O país do carnaval (1931)
Cacau (1933)
Suor (1934)
Jubiabá (1934)
Mar morto (1936)
Capitães da areia (1937)
ABC de Castro Alves (1941)
O cavaleiro da esperança (1942)
Terras do sem fim (1943)
São Jorge dos Ilhéus (1944)
Bahia de Todos os Santos (1944)
O amor do soldado (1944)
Seara vermelha (1946)
O mundo da paz (1951)
Os subterrâneos da liberdade (1954)
Gabriela, cravo e canela (1958)
A morte e a morte de Quincas Berro D’água (1961)
Os velhos marinheiros (1961)
Os pastores da noite (1964)
Dona Flor e seus dois maridos (1966)
Tenda dos milagres (1969)
Teresa Batista cansada de guerra (1972)
O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá (1976)
Tieta do Agreste (1977)
Farda, fardão, camisola de dormir (1979)
O menino grapiúna (1981)
A bola e o goleiro (1984)
Tocaia Grande (1984)
O sumiço da santa: uma história de feitiçaria (1988)
Navegação de cabotagem (1992)
A descoberta da América pelos turcos (1992)
O milagre dos pássaros (1997).

Texto e imagens reproduzidos do site: multirio.rj.gov.br

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Um livro marcado pelo estigma da incineração pública

 Imagem reproduzida do site: slideshare.net

Imagem reproduzida do blog: asylumtoreaders.wordpress.com
Fotos postadas por Papel da LEITURA, para ilustrar o presente artigo.

Leitura e Cidadania

Eduardo de Assis Duarte

Professor da Faculdade de Letras da UFMG,
doutor em Teoria da Literatura e Literatura Comparada pela USP e
autor de Jorge Amado: romance em tempo de utopia (Record, 2ª ed., 1996).

Colocada na ilegalidade,
resta à leitura aliar-se aos marginais.
Marisa Lajolo & Regina Zilberman.

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Ata de incineração: 

Aos dezenove dias do mês de novembro de 1937, em frente à Escola de Aprendizes Marinheiros, nesta cidade do Salvador e em presença dos senhores membros da comissão de buscas e apreensões de livros, nomeada por ofício número seis, da então Comissão Executora do Estado de Guerra, composta dos senhores capitão do Exército Luís Liguori Teixeira, segundo-tenente intendente naval Hélcio Auler e Carlos Leal de Sá Pereira, da Polícia do Estado, foram incinerados, por determinação verbal do sr. coronel Antônio Fernandes Dantas, comandante da Sexta Região Militar, os livros apreendidos e julgados como simpatizantes do credo comunista, a saber: 808 exemplares de Capitães da areia, 223 exemplares de Mar morto, 89 exemplares de Cacau, 93 exemplares de Suor, 267 exemplares de Jubiabá, 214 exemplares de País do carnaval, 15 exemplares de Doidinho, 26 exemplares de Pureza, 13 exemplares de Bangüê, 4 exemplares de Moleque Ricardo, 14 exemplares de Menino de Engenho, 23 exemplares de Educação para a democracia, 6 exemplares de Ídolos tombados, 2 exemplares de Idéias, homens e fatos, 25 exemplares de Dr. Geraldo, 4 exemplares de Nacional socialismo germano, 1 exemplar de Miséria através da polícia.

Tendo a referida ordem verbal sido transmitida a esta Comissão pelo sr. Capitão de Corveta Garcia D'Ávila Pires de Carvalho e Albuquerque e a incineração sido assistida pelo referido oficial, assim se declara para os devidos fins.

Os livros incinerados foram apreendidos nas livrarias Editora Baiana, Catilina e Souza e se achavam em perfeito estado.

Por nada mais haver, lavra-se o presente termo, que vai por todos os membros da Comissão assinado, e, por mim segundo tenente intendente naval Hélcio Auler, que, servindo de escrivão, datilografei. (assinados)

Luís Liguori Teixeira, Cap. Presidente
Hélcio Auler, Segundo-Tenente Int. N.
Carlos Leal de Souza Pereira

Transcrito do jornal Estado da Bahia, de 17-12-37

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Há pouco mais de 60 anos, surgia na literatura brasileira um livro marcado pelo estigma da incineração pública. Censurado e perseguido no momento de seu lançamento, Capitães da areia, de Jorge Amado, aparece às vésperas da decretação do Estado Novo, em 10 de novembro de 1937. Antes mesmo do golpe, o Brasil estava oficialmente em "Estado de Guerra", com a suspensão das liberdades, garantias e direitos dos cidadãos, a imprensa censurada e os cárceres abarrotados de presos políticos. Enquanto na Espanha artistas e escritores se solidarizavam com a República e pegavam em armas contra o fascismo, aqui, o integralismo de Plínio Salgado e uma mal disfarçada simpatia pelo nazismo entre as forças armadas forneciam o paradigma ideológico para que militares colocassem no fogo livros tidos por eles como subversivos.O gesto bárbaro perpetrado em Salvador apenas ecoa entre nós o ritual obscurantista que se repetia na Alemanha, na Itália e nos países que, logo depois, sucumbiriam à máquina de guerra comandada por Hitler.

Nunca em nossa história os intelectuais haviam se defrontado com o poder de forma tão cabal. É sintomática a colocação de Walter Benjamin, em texto desta época, referindo-se a uma situação que não era só européia: "a serviço de quem ficará o intelectual?" 1 Banida a neutralidade, restava-lhe o aconchego do poder ou o coro dos contrários. No Brasil, o esforço de cooptação do ministro Capanema e de toda uma rede de instituições que incluía o DIP - Departamento de Imprensa e Propaganda -, levou muitos deles para o projeto getulista de uma arte celebradora da Pátria, de Deus e da Família, além de inclinada à apropriação folclorizante de nossa diferença cultural.

Outros, todavia, vão para a trincheira oposta e buscam o caminho dos compagnons de route da utopia socialista. A literatura brasileira vê surgir a arte de denúncia, o "romance proletário", a "poesia social". Por seu caráter contestador e, mais que isto, por denunciar o conservadorismo da literatura que idealizava as relações de classe no país, tais textos logo experimentam a face truculenta do poder. É lapidar nesse sentido a frase de Graciliano Ramos em Memórias do cárcere: "começamos oprimidos pela gramática e terminamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social". A partir da experiência da ANL, em 1935, escritores, artistas, editores, jornalistas e intelectuais de oposição passam a alvo prioritário dos órgãos de segurança. A militância na Aliança Nacional Libertadora - tentativa de front populaire à brasileira - serviu para igualar a todos como comunistas, logo como ameaças sérias ao Estado.

No caso específico de Jorge Amado, os problemas começaram mais cedo: Cacau já havia experimentado em seu lançamento a mão pesada da censura. Liberado graças à intervenção de amigos, o romance vendeu, em 1933, nada menos que 2.000 exemplares em 40 dias. Estava aberto para o escritor o caminho da permanente empatia popular, em paralelo à contínua vigilância do aparelho repressivo. Autor de uma ficção tida como subversiva, Amado é preso, perseguido, exilado. É na cadeia que assiste à publicação de Mar morto, em 1936. Detido novamente em 6 de novembro de 1937, é informado na prisão da queima pública de seus livros, entre os quais o recém-lançado Capitães da areia, depois de proibidos de circular e meticulosamente recolhidos em escolas, bibliotecas e livrarias.2 Passados mais de 60 anos, choca-nos o fato de que a "Comissão de Busca e Apreensão de Livros", formada por um capitão, um tenente e um agente policial, tenha incinerado publicações "em perfeito estado" a partir de uma ordem passada oralmente pelo oficial superior... E, mesmo depois da fogueira, o romance dos pivetes de Salvador continuou no índex dos textos malditos para o Estado Novo. Alceu de Amoroso Lima dá conta de que, no ano seguinte ao da incineração dos 808 exemplares, a censura a Jorge Amado persistia. Ouçamo-lo:

Em 1938, quando meu saudoso amigo Henrique de Toledo Dodsworth me convidou para Reitor da Universidade do Distrito Federal, deu-me expressamente carta branca. Assim que tive oportunidade, como Reitor, de dar uma lista de livros para nossa biblioteca, incluí entre eles Capitães da areia, de Jorge Amado. Dodsworth me comunicou então que o Secretário de Educação, o nosso caro Paulo Assis Ribeiro, não admitia que comprássemos "livros comunistas".3

A repressão a Amado não era gratuita. Desde o começo da década, o autor vinha se notabilizando pela contestação em livros como Cacau, Suor, Jubiabá e Capitães da areia, em 1937. Os dois primeiros, referências explícitas ao mundo do trabalho; os dois últimos, à marginalide social urbana. Em todos eles temos o avesso da literatura "sorriso da sociedade" - expressão utilizada para definir a produção do tipo "água com açucar" que pontificara entre nós no período da Belle Époque. O romance amadiano volta-se para a base do edifício social e joga luz sobre suas margens e desvãos, para ali descobrir/construir o humano. O centro das narrativas é a representação do outro, seja de uma perspectiva de classe, de gênero ou de etnia. O que nelas se vê tensionado é o drama de seres a princípio incompletos, irrealizados enquanto cidadãos, mas que saem - ousam sair - para enfrentar a adversidade provinda de uma estrutura econômica, política e ideológica herdada do passado colonial. Mais que isto: seres que realizam nesse enfrentamento a sua formação como agentes sociais. Indivíduos como o Sergipano de Cacau, a Linda, de Suor, ou o Balduíno de Jubiabá: personagens cujos gestos e falas não apenas se inserem nas lutas históricas de seu tempo, mas que pretendem, mais que isto, propor uma pedagogia da indignação e do confronto, na linha do "herói positivo" da literatura socialista da época.

Trata-se, pois, de uma ficção entranhada com seu tempo, a configurar uma presença interessada e polêmica na cultura brasileira. O projeto que a sustenta é o de escrever para o leitor humilde, estudante ou trabalhador, e jovem, em sua grande maioria. Tal projeto provém diretamente do manancial utópico socialista que tão fortemente marcou a cultura e a literatura modernas na primeira metade do século. "Escrever para o povo" impunha-se aos intelectuais de esquerda como imperativo absoluto, correlato à necessidade de "falar às massas" que dominava os carbonários e mobilizava os companheiros de viagem da revolução. No caso específico de Amado, a missão de "intelectual orgânico", membro da "vanguarda do proletariado", não irá fechar seus olhos à presença da cultura burguesa, disseminada e hegemônica, por exemplo, no gosto popular pelas narrativas folhetinescas e pelas representações melodramáticas. O escritor percebe, ainda no início de sua carreira, a força dessa herança, sua influência no cinema da época e nas radionovelas da década seguinte. E rapidamente passa a incorporar tais procedimentos na construção do "romance proletário", com o fito de ganhar para a literatura os aficcionados dos novos meios de comunicação de massa.

Ao lado disso, o romance amadiano busca falar a história dos oprimidos: parte firme para a denúncia das mazelas do nascente capitalismo brasileiro, ao mesmo tempo que pratica a elevação dignificadora dos seres subalternizados pela exploração econômica e reduzidos a pouco mais do que bichos (selvagens ou domésticos), pelos preconceitos de classe ou de cor. Pela primeira vez em nossa literatura temos um negro - Antônio Balduíno, de Jubiabá - tratado como herói em todas as etapas de sua formação, da infância lúmpem de órfão e moleque de morro e de rua, à maturidade do cidadão que adquire a duras penas a consciência do antagonismo entre as classes.

A mesma postura é retomada em Capitães da areia. O romance dos meninos de rua recupera o ímpeto romanesco e heroificador dos humildes adotado desde Cacau. Os pequenos bandidos chefiados por Pedro Bala surgem acima de tudo como vítimas de uma sociedade opressora e hipócrita. A violência que praticam é inscrita no texto quase sempre como justa e, mesmo, necessária - uma resposta à violência econômica sofrida pelos de baixo e transformada em agressão sádica quando praticada pelo aparelho repressivo. O romance toma o partido dos, já àquela altura, considerados menores, mas para fazê-los maiores. Eles se engrandecem no drama do Sem Pernas, que prefere o suicídio ao reformatório; no arrependimento culpado de Pedro Bala, quando se coloca no lugar de sua vítima; e, como não poderia deixar de ser, no momento em que o grupo retifica sua prática e avança rumo às lutas sindicais e políticas.

A idealização romanesca compõe o retrato modelar do oprimido, o "romance proletário" empresta-lhe uma consciência para impulsioná-lo em sua afirmação como indivíduo. O vôo da morte de Sem Pernas, que pula das alturas da cidade rica rumo à cidade baixa, marca o momento agônico do pathos na trajetória do grupo, romanesca descida aos infernos, preparatória à elevação e reconhecimento definitivos dos personagens. Algo semelhante ocorre com Pedro Bala em sua fuga da prisão e no mergulho no oceano acompanhando o cadáver da amada. Com isto, transforma-se também a ação do romance. A recorrência ao substrato mítico - morte e renascimento do herói - emoldura a leitura amadiana da utopia socialista. Mais tarde, a delinqüência infantil cede lugar ao engajamento proletário. Os garotos crescem. Mais que isto, são impulsionados do mundo da sobrevivência individual para a rebeldia de uma classe que se levanta. Não será ainda a revolução, mas o salto sonhado por Jorge Amado naqueles idos de 37.

Voltando à ata da fogueira, vê-se que ela revela uma verdade estatística e impõe a pergunta: por que Jorge Amado? Por não os também comunistas Graciliano Ramos e Rachel de Queiroz? A resposta está na simples constatação dos números: para 4 volumes de Moleque Ricardo foram queimados 267 exemplares de Jubiabá, publicado no mesmo ano; ou ainda, para 26 de Pureza, incineraram-se 808 de Capitães da areia ou 223 de Mar morto. A propósito deste último, cabe a indagação: o que pode haver de subversivo ou de comunista na história de Guma e Lívia? A ata deixa visível o reconhecimento do poder de sedução e da força comunicadora da narrativa amadiana, da mesma forma que atesta o volume de sua receptividade junto ao público.

Essa força vem justamente do aludido projeto de construir uma literatura política no sentido mais imediato que a expressão pode ter. Por seu caráter didático e insurrecional, esse projeto só vislumbrava a própria viabilidade à medida que pudesse congregar uma massa ledora cada vez maior. É então que propicia a junção entre a leitura da utopia - ou seja, a compreensão brasileira e amadiana do processo histórico e, mais especificamente, da "revolução mundial" - e o que podemos chamar de utopia da leitura - a crença de que para haver cidadãos conscientes nas camadas subalternas, era necessário, em primeiro lugar, haver leitores. Assim, a ficção do companheiro de viagem da aventura socialista deixava-se penetrar pelas imagens da miséria e da injustiça, movida pela crença de que, ao representá-las, dava um passo decisivo para a sua superação. A utopia da leitura faz com que Amado traga o povo para o centro do romance como forma de ganhá-lo como leitor. O passo seguinte consiste em fazer do texto um paradigma de inconformismo, uma espécie de escola de cidadania, tal como entendida pelo autor e por seus companheiros de partido.

É nessa perspectiva que se pode apreender o personagem João José. O papel de edificar consciências faz do menino alfabetizado o guardião e senhor do momento mágico de escutar e aprender. Mais que isto, faz do pequeno "professor" alguém que quer construir um mundo novo a partir do gesto de ler e narrar:

João José, o Professor, desde o dia em que furtara um livro de histórias numa estante de uma casa da barra, se tornara perito nesses furtos. Nunca, porém, vendia os livros, que ia empilhando no fundo do trapiche, sob tijolos, para que os ratos não os roessem. Lia-os todos numa ânsia que era quase febre. Gostava de saber coisas e era ele quem, muitas noites, contava aos outros histórias de aventureiros, de homens do mar, de personagens heróicos e lendários. (...) João José era o único que lia corretamente entre eles e, no entanto, só estivera na escola um ano e meio. Mas o treino diário da leitura despertara completamente sua imaginação e talvez fosse ele o único que tivesse uma certa consciência do heróico de suas vidas. 4

O pivete-professor figura como síntese da utopia da leitura. Com ele, ler e narrar tornam-se atitudes políticas. Os volumes roubados e empilhados entre tijolos metaforizam a construção da consciência e do edifício da cidadania entre os pobres. O livro é retratado como portador da verdade e peça principal dessa construção, que, ao contrário da simples pregação retórica - de que são exemplo as falas do padre José Pedro - surge aprimorada pelo encanto do texto ficcional, a despertar o olhar crítico pela via do imaginário. Nesse momento, o menino alfabetizado torna-se "O Professor". Ele abre o livro e lê histórias para os companheiros ainda analfabetos, repetindo, aliás, o gesto presente em Suor e, mais tarde, retomado outra vez em Subterrâneos da liberdade. Da leitura da utopia à utopia da leitura, prevaleceram o encanto da escrita e o empenho político de dar ao personagem que lê o poder formador e demiúrgico dos narradores:

Apelidaram-no de Professor porque num livro furtado ele aprendera a fazer mágicas com lenços e níqueis e também porque, contando aquelas histórias que lia e muitas que inventava, fazia a grande e misteriosa mágica de os transportar para mundos diversos, fazia com que os olhos vivos dos Capitães da Areia brilhassem como só brilham as estrelas da noite da Bahia. (p. 37-8)

Amado confere aos menores aquela dignidade que os faz maiores: lêem, ouvem, aprendem. No enlevo se elevam, tornam-se crianças e jovens como quaisquer outros melhor dispostos na escala social. O trecho citado, além da declaração de amor ao poder e à magia da palavra, aponta para a crença quase mítica na força revolucionária que esta possui, capaz de transformar menores abandonados em cidadãos conscientes. Essa crença fundamenta o projeto do "romance proletário" e explica toda a literatura social de Jorge Amado.

Nesse momento de revisão crítica das utopias da modernidade, pode-se afirmar que o projeto amadiano, se não operou o milagre da "conscientização das massas", impulsionou vivamente a formação de um público para a literatura brasileira. A utopia da leitura direcionou seus escritos para o universo do receptor humilde, estudante ou trabalhador. Se é certo que não falou todo o tempo "para as massas", é certo também que, ao contribuir para a formação do hábito de leitura, o encanto singelo de suas narrativas foi alargando sempre mais o horizonte de recepção de seus textos e de tantos outros escritores brasileiros. Diante da história contada, brilham os olhos dos meninos de rua. Brilham também os de Amado, no canto romanesco - misto de crença e hino - de louvor à narrativa e ao dom de narrar. Essa voz que narra, muitas vezes longínqua e ancestral, transforma o leitor em autor, vai da escuta ao ato demiúrgico, sementeira de novos narradores.

Lembro-me de ter tomado contato com a história dos Capitães nos anos 60, logo após o golpe militar. E nunca pude esquecer essa mão estendida aos de baixo, como quem diz: "venham, aqui vocês são gente de verdade!" Leitura e cidadania: na juventude vigiada daqueles tempos não podia vislumbrar todo o sentido dessa aproximação, embora encantado com a ousadia de um escritor que colocava os filhos das margens como centro da história.

Apesar da elevação e, mesmo, da heroificação - próprias ao modo romanesco - com que trabalha a representação dos pequenos bandidos, o texto amadiano não deixa de tratá-los como problema. Os meninos crescem, mas o problema do qual fazem parte persiste. A desigualdade que gera os menores infratores é a mesma que produz o cangaceiro (Volta Seca) e o marginal urbano (Gato); é a mesma que propicia o surgimento do artista engajado (Professor) e do ativista político (Pedro Bala). Ao final, os meninos tomam corpo de adultos, mas continua a tensão que os opõe ao mundo e que exige deles novas armas. Amado faz da desigualdade não apenas o núcleo, a enervação central do romance. Ao mimetizá-la, quer falar a história do outro, a história a contrapelo, centrada nas vozes subalternizadas. E, ao trazer essas vozes para o centro do projeto socialista que embala seus primeiros escritos, quer construir, pela via literária, a solução. Apontando aos marginais o caminho da luta de classes, em pleno alvorecer do Estado Novo, Jorge Amado ostentava, provocativamente, o lado subversivo da utopia.

A repressão não conseguiu interromper o caminho dessa história de marginais. Sessenta anos depois, a ousadia de Capitães da areia permanece jovem e viva nesse país de Candelárias e Carandirus. O livro dos pivetes baianos é, atualmente, um dos romances mais lidos da literatura brasileira e a ficção amadiana está presente na leitura de amplos segmentos sociais, sobretudo entre os jovens, que abraçam seus livros com a avidez de quem procura no prazer do texto o conhecimento do país.

Quanto a fogueiras e menores abandonados, a triste conclusão é que continuam a fazer parte da história-pátria. Os meninos passaram de "dominados" a "excluídos", apesar de freqüentarem cada vez mais espaços públicos. Já as fogueiras, também elas persistem. No alvorecer do milênio, desinteressaram-se aparentemente dos livros. Voltam-se agora para índios, mendigos e homossexuais.

Texto reproduzido do site: unicamp.br

domingo, 23 de abril de 2017

Quem não tem uma história para contar?


Publicado originalmente no site do Portal Infonet, em 14/04/2017.

Quem não tem uma história para contar?

“Só faz quem faz”

Por Domingos Pascoal*

Todos nós as temos. Escrever, produzir literariamente, deixar gravado no tempo e na história as ideias, as marcas, as ações, contar as aventuras – suas e de outros –, assinalar, anotar as situações variadas, boas ou ruins, de alegrias ou tristezas... Registrar os sentimentos, os sofrimentos, as exultações, através dos versos, da poesia, do cordel, da prosa... Todos nós queremos, e de alguma forma, todos gostaríamos muito de poder fazer isso. Sobretudo, gostaríamos, mais ainda, de ver nossas produções publicadas, multiplicadas, lidas e comentadas. Ah! Como seria bom vermos nossas obras literárias nas prateleiras das livrarias, nas mãos dos leitores, sendo usadas como temas de palestras, de aulas, para a elaboração de trabalhos escolares, discutidas em roda de amigos ou nos embates acadêmicos... Seria a “apoteose” de cada um de nós. Mas, quase sempre, isso fica só no sonho. Às vezes guardadas nas gavetas empoeiradas do tempo. Poucos, muito poucos mesmo, aventuram-se e lançam suas fantasias no intangível mundo da dúvida e do entendimento. Publicam, sem nenhuma garantia de sucesso de suas ideias. São corajosos que acreditam no que fazem e, sobretudo, acreditam que podem melhorar sempre. E, ainda, sabem que só se melhora fazendo, acertando, errando, estudando, corrigindo e continuando.

Outros, no entanto – a maioria, eu afirmo –, não têm coragem de enfrentar os caprichosos e temerários caminhos da exposição. E, aí, encastelam-se nos seus pequenos mundos do “eu não posso”, pois temem as críticas, as admoestações, as chacotas, as censuras... Vão deixando para lá, ou seja, que somente os outros façam... E aí o tempo passa, não produzem e a humanidade, por vezes, perde maravilhosas histórias, e o “indolente e medroso” perde o momento e a oportunidade de ser e realizar. Realizar: única remuneração que, de fato, vale a pena. Não é somente o dinheiro que vale como paga na vida. A realização é, sem duvidas, a forma de recompensa pelo esforço, quiçá mais importante que o dinheiro. 

Escrever e publicar são atos de coragem. Quero aqui convidar a todos para que coloquem suas ideias no papel, arranjem um bom revisor e comecem, hoje mesmo, a publicar. Não há mais justificativas para a demora. Com tanto espaço nas mídias sociais para isso, não há explicação para a desídia com algo tão significante na vida de uma pessoa. Venham, vamos produzir literatura, coloquem suas inquietações no papel, publiquem e, com o tempo e o fazer constante, vamos corrigindo as imperfeições até chegarmos o mais próximo do que sonhamos. Não esqueçamos nunca: “só faz quem faz”. Da mesma forma, “quem não faz não faz”.

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* Professor, Escritor e Advogado. Graduado em Filosofia e Ciências Jurídicas, Pós-graduado em Gestão Estratégica de Pessoas. Membro da Academia Sergipana de Letras Autor dos Livros: “Experimente Mudar” e “A Mudança Começa em Você”. Organizador do Concurso Literário de Conto, Crônica e Poesia da Loja Maçônica Cotinguiba I e II, das Antologias: Seleta do Encontro I, II, III e Antologia da Loja Maçônica Cotinguiba I e II.

Texto e imagem reproduzidos do site: infonet.com.br/blogs/domingospascoal

segunda-feira, 17 de abril de 2017

10 dicas de leitura essenciais para amar os livros


Publicado originalmente no site Huffpostbrasil, em 22/05/2015.

10 dicas de leitura essenciais para amar os livros

Por Aina Cruz Redatora (tradutora, roteirista e blogueira).

Quem gosta de ler sabe que não há melhor companhia nessa vida que um bom livro. Sempre que leio grandes autores fico emocionada e me corrói uma pontinha de inveja da destreza que eles apresentam para transformar tudo que em nós, humanos, é latente em tanta arte, essa força motriz que tudo move e transforma. A literatura nos edifica a cada linha.

Certa vez, quando empreendi com meus alunos do ensino fundamental a tarefa de ler uma adaptação do romance Notre Dame de Paris decidi, antes de iniciar a leitura, executar uma enquete a respeito da leitura. Perguntei a eles se gostavam de ler.

Para minha surpresa, a maior parte deles disse que sim, mas alguns não gostavam muito das leituras propostas pela escola. Atribuí esse dado à questão da obrigatoriedade, que termina por encher as coisas mesmo de uma certa chateação.

Então, quis saber deles o porquê do gosto pela leitura. As respostas foram variadas e, de maneira geral, bastante interessantes. Porém, uma entre elas me chamou mais a atenção: "porque existem histórias, professora, que mudam a nossa vida".

Ainda lembro-me do impacto que a frase me causou, pois, de maneira simples e efetiva, aquela aluna acabava de me contar a razão pela qual também eu era tão apaixonada pelos livros.

Na época, eu era professora de francês em uma escola de ensino fundamental que tinha essa língua como obrigatória, assim, tínhamos semanalmente aulas de gramática e de literatura.

Recordo-me que essa resposta me fez rever toda a metodologia que eu utilizava para trabalhar a literatura francesa com meus alunos, pois, naquele momento resolvi dizer adeus a todas as regras e obrigatoriedades chatas de aquisição de vocabulário e estruturas linguísticas, para dedicar-me completamente ao deleite daquela linda história com a qual Victor Hugo nos havia presenteado.

Cada dia mais ciente do poder transformador da literatura, decidi fazer uma lista de dez livros que considero essenciais. Não os elenquei aqui do melhor para o menos bom. Isso seria impossível.

A ordem é aleatória e só o que posso dizer é que lamento não ter mais mulheres presentes nesse post, fato que reflete, mais uma vez, a nossa estrutura patriarcal que impede as grandes autoras de figurarem na mesma proporção que os homens no cânone literário.

Com as devidas e necessárias observações já pontuadas, passemos às obras:

1.            Os Dragões Não Conhecem o Paraíso, de Caio Fernando Abreu - Um conto mais intenso e inenarrável que o outro. Caio mergulha no âmago da nossa alma e o conto que dá título ao livro é uma das coisas mais lindas que já foram escritas, certamente. A transitoriedade, a vulnerabilidade humana, está tudo ali, nas linhas e em suas entrelinhas. Desde que o li, todos os dias, quando acordo, entoa feito mantra: "que seja doce".

2.            Primeiras Estórias, de Guimarães Rosa - Não são histórias, são estórias e, sim, isso faz toda a diferença. Guimarães nos coloca defronte ao imponderável do humano, mas com toda a condição de redenção. Os personagens vão do terreno ao céu, eles ascendem e transcendem suas dificuldades e apequenamentos. Desse tipo de beleza que salva, assim é Substância e A Menina de Lá.

3.            Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão, de Hilda Hilst - Esse livro, mais do que qualquer outra coisa que eu possa ter lido em minha vida, ensinou-me o que é estar apaixonada, o que é ser amante de alguém. O eu-lírico descreve suas dúvidas, anseios, incertezas de uma forma tão entregue, exatamente como sempre fui, sou e serei diante de meus enamoramentos seja por algo ou alguém. Certa feita, recitei o poema de abertura do livro para um paquera na balada. Tínhamos 17 anos. Ele não entendeu. Correu de mim. Graças a Deus, pois de brutos assim o inferno anda cheio.

4.            A Teus pés, de Ana Cristina César - A poesia de A.C.C me diz tanto que não consigo discorrer sobre, sinceramente. Acho que me movimenta em lugares que eu sequer compreendo, mas amo como ela é livre, como ela dói e como ela nos deixa espaços e vazios que devemos decifrar e tentar preencher com nós mesmos.

5.            O Estrangeiro, de Albert Camus - O protagonista desse romance, o Sr. Meurseault, primeiro nos revolta com sua falta de habilidade social e depois nos comove. Sua existência é uma catarse coletiva, é o mundo afirmando que seremos julgados, é a teoria do absurdo na veia. É entender-se humano, limitado dentro de lógicas ilógicas.

6.            América ou O Desaparecido, de Kafka - Cheio de situações kafkianas. Não há como definir sem essa redundância. Até onde escolhas feitas ao acaso podem nos levar? O livro ficou interminado pelo autor, que faleceu antes de concluí-lo.

7.            O Capitão Saiu Para o Almoço e Os Marujos Tomaram Conta do Navio, de Charles Bukowiski - Trata-se do diário dos últimos anos de vida do autor. Mas não espere melancolia de quem está saudoso da existência. Não. Você só vai encontrar a verdade nua e crua sobre a vida, o mundo e as pessoas que nele vivem. Vai aprender que passar por aqui é bom, se tiver um hobby e uma garrafa de uísque por noite.

8.            A Legião Estrangeira, de Clarice Lispector - E dos escombros, nasce o humano. Seus desejos, suas paixões. Ciúme, inveja, raiva, medo. Está tudo lá, daquele jeito que a gente passa o tempo tentando negar que sente, mas toda pessoa existente sobre a face da Terra se reconhece em cada um desse contos.

9.            Paris É Uma Festa, de Ernest Hemingway - Indico sobretudo para quem sonha de viver de literatura. Para os amigos cheios de talento e ainda sem nenhum reconhecimento. Trata-se do relato do autor da época que decidiu tornar-se escritor, mudando-se para Paris e de sua batalha para escrever algo que o torna-se renomado. Contudo, ele conta com a ajuda de autores célebres como Ezra Pound, com quem discute longamente sobre o "fazer literário". A obra inspirou o filme Meia Noite em Paris e, acredito, apenas isso já valha alguma atenção.

10.          Anna Karenina, de Liev Tolstói - Mais do que uma bela história de adultério e amor, a narrativa russa nos confronta com a construção patriarcal, com o lugar delegado às mulheres no século XIX e nos faz refletir o quão pouco isso tudo foi modificado e o quanto mulheres ousadas são, desde sempre, ridicularizadas e excluídas da "ordem" social.

E você, quais livros indicaria? Quais estórias ou histórias são fundadoras do seu eu.

Texto e imagem reproduzidos do site: huffpostbrasil.com/aina-cruz

sábado, 25 de março de 2017

José Calasans Brandão da Silva

Foto reproduzida do Jornal da Mídia.
Postado por MD, para ilustrar artigo.

Publicado originalmente no site do jornal Folha de S. Paulo, em 10/06/2001.

Em 28 de maio morreu, aos 85 anos, o historiador José Calasans,
o mais importante estudioso de Canudos.

Um sertão não-euclidiano.
Roberto Ventura (especial para a Folha).

Eu gosto muito de conversar." Assim falava de si o historiador sergipano José Calasans, o mais importante conhecedor da história de Canudos ou Belo Monte, a comunidade religiosa criada por Antônio Conselheiro em 1893 no sertão da Bahia. O povoado foi destruído pelas tropas do Exército em 1897, depois de quase um ano de guerra. Canudos foi incorporada à memória do país com o livro de Euclides da Cunha, "Os Sertões", publicado em 1902.

O grande conversador José Calasans Brandão da Silva morreu em 28 de maio, aos 85 anos, em sua residência na Ladeira da Barra, em Salvador. Dotado de prodigiosa memória e vasta erudição, Calasans era consultado pelos interessados em Canudos ou Euclides. Recebia todos com entusiasmo e não escondia dos interlocutores a simpatia que tinha pelo Conselheiro. Chegava a dizer, com humor, que era conselheirista.

Sua paixão por contar e ouvir histórias fez dele a memória viva de Canudos. Tornou-se o elo de ligação entre os pesquisadores mais jovens e os sobreviventes e descendentes de Belo Monte, cujos depoimentos começou a recolher no final da década de 40. Seu último livro, "Cartografia de Canudos", foi publicado em 1997, no centenário do fim da guerra. Sua vontade de compartilhar o que sabia o levou a doar em 1983 toda a documentação que reuniu sobre Canudos à Universidade Federal da Bahia, da qual foi professor de história moderna e contemporânea e vice-reitor. Sua biblioteca contém, entre outras preciosidades, um dos dois cadernos manuscritos, com rezas e pregações, que o Conselheiro deixou como testamento religioso.

Calasans se interessou pela história da comunidade a partir das reportagens que Odorico Tavares fez, com belas fotos de Pierre Verger, para a revista "O Cruzeiro" em 1947, nos 50 anos de sua destruição. Contou ao historiador Marco Villa, em "Calasans, um Depoimento para a História" (1998), que as reportagens lhe revelaram a existência de muitos sobreviventes da guerra e o fizeram dar início à coleta de depoimentos e poemas populares.

Conversou com seguidores do Conselheiro, como Manoel Ciriaco, nascido em Canudos; Honório Vilanova, irmão do mais importante comerciante da região; Francisca Macambira, filha de outro comerciante; Pedrão de Várzea da Ema, um dos chefes armados, depois contratado para combater o bando de Lampião na década de 30. Seu esforço em resgatar a versão dos habitantes do sertão, vencidos na guerra, foi acompanhado por Nertan Macedo, que entrevistou Honório em "Memorial de Vilanova" (1964), e por José Aras, que registrou alguns testemunhos em "Sangue de Irmãos".

Calasans aliou, de forma inovadora, a história oral à pesquisa rigorosa dos manuscritos e documentos. Fez de Canudos não apenas uma história a ser resgatada, mas antes um "mar de histórias", contadas segundo diversas perspectivas. Deu aos relatos orais e populares a mesma importância que atribuía às interpretações impressas ou eruditas. Inspirou-se no destaque dado por Gilberto Freyre à oralidade em "Casa-Grande & Senzala" (1933), ensaio sobre a formação patriarcal da sociedade brasileira.

A história de Belo Monte, tal como contada por Calasans, é diferente daquela apresentada por Euclides da Cunha, que criou, em "Os Sertões", um retrato sombrio do Conselheiro como fanático místico e louco. Segundo Calasans, surgiu a partir dos anos 50 um Canudos "não-euclidiano" com base nos testemunhos dos sobreviventes e na revisão dos documentos sobre a guerra.

Sem julgamentos depreciativos, Calasans recriou a vida de Antônio Vicente Mendes Maciel, filho de um comerciante de Quixeramobim, no interior do Ceará, que se tornou o Conselheiro. Investigou sua formação escolar, o fracasso no comércio e no casamento, a atuação junto ao padre Ibiapina no Ceará. Abordou os escritos de Antônio Maciel, que mostram um sertanejo letrado, capaz de exprimir concepções políticas e religiosas ligadas a um catolicismo tradicional, comum na Igreja do século 19.

Lendas do Conselheiro Em "O Ciclo Folclórico do Bom Jesus Conselheiro", sua tese de livre-docência de 1950, Calasans se voltou para os aspectos lendários e fabulosos do guia espiritual do Belo Monte, que a tradição popular identificava a Santo Antônio. Recolheu, em "No Tempo de Antônio Conselheiro" (1959) e em "Canudos na Literatura de Cordel" (Ática, 1984), o cancioneiro sobre Canudos, com algumas versões favoráveis e outras contrárias ao Conselheiro, que ora aparece como enviado de Cristo, encarregado de salvar as almas antes do Juízo Final, ora como bandido cruel, capaz de matar a mãe e a mulher, segundo lenda propagada nos sertões que provocou sua prisão em 1876.

José Calasans se debruçou, em "Quase Biografias de Jagunços" (1986), sobre figuras quase esquecidas do passado e recriou o cotidiano de Canudos a partir das histórias de vida de seus habitantes, vindos de diversas regiões da Bahia, Sergipe e Ceará.

Fez reviver os beatos de Belo Monte, seus negociantes e proprietários, os chefes militares e combatentes, os agricultores, artesãos e professores e até o jaguncinho de Euclides, menino de Canudos, entregue aos cuidados do escritor.

Canudos foi destruída duas vezes, uma pelo fogo, em 1897, outra pela água, em 1968. Com o término da guerra, o povoado foi queimado com tochas de querosene e bombas de dinamite, sendo reduzido a cinzas. Sobre tais escombros ergueu-se outra Canudos, que iria depois submergir sob as águas com a construção do açude de Cocorobó nos anos 60. Nos períodos de seca, suas ruínas ressurgem do imenso lago como fantasmas de um passado já meio distante.

Mas Belo Monte continua viva na obra e na biblioteca do historiador José Calasans Brandão da Silva. Conversador e conselheirista, assinava seus artigos e livros como José Calasans, nome de guerra, com o qual se integrou às tropas do Conselheiro e à história de Canudos.

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Roberto Ventura é professor de teoria literária na Universidade de São Paulo e autor de "Estilo Tropical" (Companhia das Letras) e "Folha Explica Casa-Grande & Senzala" (Publifolha).

Texto reproduzido do site: folha.uol.com.br

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Livro: Fonte de Disseminação Cultural

Imagem simplesmente ilustrativa, postada pelo blog Papel da LEITURA.
Publicado originalmente no site Livros de Sergipe, em 09/12/2016.

Livro: Fonte de Disseminação Cultural.
Por Claudia Stocker*
O ato de ler desperta para um processo de descobertas, dirigida pelos olhos do escritor, levando o leitor a perceber o mundo. De forma geral a leitura gera conhecimentos, propõe atitudes e analisa valores, estimulando os modos de perceber e sentir a vida por parte do leitor.

Os livros são meios fundamentais de comunicação e de preservação da memória cultural antiga e recente. São fontes de recreação, passaporte para todos os destinos, culturas e formas possíveis de imaginação. Permitem que adolescentes e jovens de todo o mundo se divirtam com a variedade de formas de pensamento e os façam participar ativamente de suas próprias histórias, como também compartilhar as histórias das outras pessoas.

Em um país como o Brasil, que está em desenvolvimento econômico, a leitura é uma ferramenta importante para disseminar a cultura entre a sociedade, pois a sociedade atual caracteriza-se pela busca da informação, do conhecimento. A educação dos indivíduos precisa enfatizar a leitura como via de inclusão social e de melhoria para a sua formação.

É por isso que o prazer pela leitura deve ser passado de pai para filho, de geração em geração. Pois o exercício da leitura preserva a nossa história e pode modificar nosso presente. Ler é adentrar em um universo paralelo, em um mundo imaginário. Também é encontra-se consigo mesmo, encarar a realidade. Conhecer a sociedade e o mundo em que vivemos.

A leitura é um dos meios mais importantes para a consecução de novas aprendizagens; possibilita a construção e o fortalecimento de ideias e ações. Cabe a nós exercer de forma inovadora, prática e direta, o nosso papel como agentes sociais e culturais incentivadores e mediadores da leitura, cobrando do Estado uma postura mais comprometida com o desenvolvimento da leitura no país.

É verdade que hoje se torna mais difícil conquistar os cidadãos para os incomparáveis benefícios da prática da leitura, devido ao ritmo frenético que torna nossos dias cada vez mais curtos diante das atividades do dia-a-dia. Mas apesar da presença de fatores negativos, a experiência demonstra ser possível transformar alguns deles, como por exemplo, as novas tecnologias, em potenciais aliados. E também que a intervenção consistente e adequada pode ampliar o efeito dos fatores positivos, como se tem verificado em tantos países que desenvolvem projetos de leitura e avaliam os respectivos efeitos.

Sabemos que o Brasil ainda tem muito a trilhar em termos de desenvolvimento social, e que esse caminho pode ficar mais curto através da cultura da população.

A leitura é fundamental para a elaboração de uma sociedade mais justa, mais crítica, culta e principalmente para a concretização do progresso e da verdadeira democracia. É a janela que se abre diante de nós para nos tornar conhecedores do mundo, e ao retermos este conhecimento, ele passa a fazer parte do nosso pensar, a fazer parte do nosso EU.

Enfim, ler é bom desde que se leve em conta o contexto de uma escola e de uma sociedade comprometida com a leitura, com a formação de leitores para a vida toda e não somente leitores de momentos, leitores de um livro só.

Leia! Experimente! Um mundo de imaginação espera por você!

*Bibliotecária, escritora e Diretora da Biblioteca
Pública Infantil Aglaé Fontes.

Texto reproduzido do site: livrosdesergipe.com/claudia-stocker

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Biblioteca, o coração da escola

Imagem para simples ilustração.
Reproduzida do blog: loucura-por-leituras.blogspot.com.br

Publicada: 24/08/2010 no Jornal da Cidade.

Biblioteca, o coração da escola.
Por Hunald de Alencar*

Vários teóricos discutem, há décadas, os critérios da Avaliação, mas uma coisa é certa: não adianta haver notas altas na caderneta, e não existirem habilidades, e, podemos dizer que a Leitura é a mais abrangente.

Quando falamos que a Biblioteca é o coração da Escola, estamos a ratificar porque no uso correto do seu acervo, fazem-se aplicações pedagógicas a permitirem que surja o Leitor cidadão. Não se pense em Biblioteca como local de castigo, da mesma forma que não se manda para as quadras esportivas o aluno “indisciplinado”; muito menos como uma sala “arrumadinha” para impressionar visitantes. Ao contrário, deve ser viva e articuladora. O aluno deve ter acesso a seu acervo e aprender também a ser responsável por ele. E o professor deve atuar como um multiplicador de salas-de-leitura, estendendo a biblioteca às salas de aula.

Dizer que a juventude “não gosta de ler” é mentira. Antes, é preciso que se saiba “do quê” a juventude gosta e, para tanto, é preciso seguir o conceito de “pedagogo”, que é: conduzir. Outra bela mentira é culpar o computador pelo desinteresse da leitura: o computador também é um livro, o que muda é o veículo condutor do texto, como, aliás, vem ocorrendo desde os tijolos da Mesopotâmia, o papiro, a prensa e hoje a página digital. Além do mais, o texto, antes de ser escrito, é oral. Neruda já disse que escreve para o povo ainda que ele não possa entendê-lo com os seus olhos rurais. Cabe a nós, educadores, fazer com que o povo entenda, porque a Cultura pertence ao Povo e sonegação cultural é crime.

O nosso Castro Alves já falou que “Bendito é o que semeia livros à mão cheia e manda o povo pensar” E adianta: ”O livro caindo na alma é chuva que faz o mar” e é a semente das grandes revoluções. A Biblioteca deve ser aberta à comunidade, pesquisada, usada, espaço que prática a aferição das habilidades, inclusa aí a sua midiateca.

No Colégio Estadual Vitória de Santa Maria, sua pequena biblioteca (ainda) alcança um movimento diário de cento e quarenta e sete obras consultadas e com filas de espera. Não precisou de altas verbas para ser iniciada, pois bastou o gesto cidadão de três pessoas para começar o seu acervo: as doações de D. Eliana Aquino, do Professor Alencar Filho e Dr. Orlando Rochadel, e raro é o mês que os próprios professores não acrescentam exemplares, como Maria de Fátima Neves e Ana Cristina Oliveira, cuja doação da coleção de revistas de geografia mal foi registrada no acervo, multiplicou-se sala em sala, por exemplo, sem falar do acervo de edições especiais do próprio MEC.

O Professor Luís Fernando Ribeiro Soutelo é autor de um projeto que cria a Rede Estadual de Bibliotecas e agora com a Internet, mais do que nunca deve ser posto em prática para que permita que o aluno lá de Carira acesse o acervo do Colégio Atheneu, por exemplo.

Iniciada a Estante do Autor Sergipano, a procura, principalmente por poesia, é outra prova que existe um potencial e promissor crescimento do seu público leitor, ao tempo em que urgem edições de obras sergipanas esgotadas, novos títulos, inclusive didáticos, mas aí é assunto para o próximo domingo.

*Professor.

Texto reproduzido do blog: clodoaldoalencar.blogspot.com.br

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Mais leitura e menos jogos eletrônicos


Publicado originalmente no site Alô Sergipe, em 10/01/2017.

Mais leitura e menos jogos eletrônicos
Por Alexandra Vieira de Almeida*

No universo infanto-juvenil, a leitura deixou de ser uma necessidade dando lugar assustadoramente aos jogos eletrônicos. As famílias modernas permitiram que a rotina tecnológica na vida dos pequenos ganhasse força e, hoje, enfrentam dificuldades no combate de tal.

As crianças e adolescentes não podem deixar suas vidas sendo guiadas por pequenos aparelhos, como meio de divertimento e prazer. Esse elemento deveria ser secundário e não o fundamental. Com isso, temos uma geração mais cansada e preguiçosa para pensar, pesquisar e refletir.

Por outro lado, a leitura é o eixo que leva os jovens para o espaço do imaginário mais fecundo, revelando uma criatividade muito mais rica e plena do que os videogames. Estes jogos desconcentram as crianças e jovens do hábito da leitura e estudos, pois muitas horas são gastas nesta distração.

Não que eles sejam desnecessários. Com equilíbrio, é possível encaixar tudo na rotina deles. Mas quando eles acabam sendo vitais, fazem com que os mais jovens deixem de lado algo grandioso em suas vidas, a experiência que é ler um livro. Objeto que tem o poder de levá-los para o reino da riqueza imaginativa.

Não podemos negar que os jogos eletrônicos trabalham com o lúdico, brincando também com a imaginação. Porém, a literatura é capaz de ir onde os videogames nunca alcançam. A leitura, por exemplo, permite que cada um crie uma imagem mental da história de maneira diferente. Os jogos já apresentam o que eles querem mostrar, já nos dá algo pronto.

Na hora da escolha, as crianças e adolescentes optam pelo caminho mais fácil, os videogames. Os pais e professores devem ser uma luz, os orientadores que levem os pequenos a trilharem um caminho mais rico em significados, em que a leitura e o que ela pode proporcionar, ou seja, o universo mágico da invenção, da criação, tornando estes seres inventores e desbravadores de mundos possíveis e impossíveis.

Cabe a eles, escolherem uma via mais engrandecedora para suas vidas, o mundo mágico da literatura, que os jogos eletrônicos não comportam em sua inteireza. Somente a literatura revela, mostrando o outro lado do lúdico, que é o questionamento. Ela é capaz de nos fazer pessoas melhores, pensadores melhores e cidadãos melhores.

Portanto, vivamos mais a leitura e menos os videogames. Isso não é um movimento contra a tecnologia e os jogos. Não. Mas um alerta para que esses elementos se tornem secundários e não o principal das vidas de nossos filhos. Que os pais saibam ter equilíbrio com as crianças em relação aos jogos, utilizando-os pela própria arte do jogo e do prazer, algo que descontraia estes pequenos. Portanto, que as nossas crianças possam valorizar mais os momentos de estudos e de leitura.

*Escritora e Doutora em Literatura Comparada (UERJ).

Texto e imagem reproduzidos do site: alosergipe.com.br

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Os Corumbas, personagens de três autores.


Publicado originalmente no site Interblogs, em 25 de Dezembro de 2016.

Os Corumbas, personagens de três autores.
Por Homero Fonseca.

A família Corumba é composta dessa espécie muito singular de personagens literários que saltam do livro original para morar em textos de outros autores, como citação ou homenagem.

O romance Os Corumbas, de Amando Fontes[1], foi lançado em 1933, mesmo ano de Cacau, de Jorge Amado. Foram a sensação editorial do ano, esgotando edições rapidamente e merecendo enorme atenção da crítica. No país extremamente polarizado de então, as duas obras foram o foco de um retumbante debate sobre literatura proletária, provocado pelo escritor baiano. É que, na célebre nota introdutória de Cacau, o jovem autor, já então filiado ao Partido Comunista, se coloca como fundador de uma nova vertente, ideológica, da literatura brasileira, disparando: "Tentei contar neste livro, com um mínimo de literatura para um máximo de honestidade, a vida dos trabalhadores das fazendas de cacau do sul da Bahia. Será um romance proletário?” A resposta, com aplausos à esquerda e críticas à direita, foi sim.

Mas vem Amando Fontes, católico, político conservador moderado, e lança, quase simultaneamente a Cacau, a história da família de agricultores pobres do interior sergipano que, tangida pela seca, vai tentar a sobrevivência na capital, Aracaju, no início do século 20. O pai, Geraldo, e os filhos Rosenda, Albertina, Pedro e Bela tornam-se operários; a mãe, Sá Josefa, cuida da casa, e Caçulinha é mandada para a escola pública, para se formar professora, melhorar de condição e ajudar a família. O romance é a narração da degradação econômica, moral e física da família proletária, vitimada por uma engrenagem gigantesca que tritura os corpos e as almas de trabalhadores ferozmente explorados. Todo o drama é uma sucessão de desgraças: três filhas terminam jogadas na prostituição, uma morre tuberculosa, o filho se envolve em agitação sindical, é preso e deportado, e os dois velhos, na última cena do romance, uma das mais tristes da literatura brasileira, estão num trem, derrotados, humilhados e ofendidos, na viagem de volta à terra de onde migraram. Tudo sem adjetivos, sem pieguice, sem idealização, sem proselitismo. Uma narrativa essencialista, onde o narrador não toma partido, não intervém, não dá “avisos ao leitor”.

(Um exemplo emblemático da preocupação de Fontes com a postura essencialmente narrativa, é trazido pelo crítico e historiador literário Luís Bueno: descrevendo a cena em que, numa manhã chuvosa e fria, Sá Josefa deixa-se ficar um pouco mais na cama de tábuas, encolhida, o autor acrescenta “debaixo da sua miserável coberta de retalhos”. Numa revisão posterior, o adjetivo miserável seria substituído por desbotada.)[2]

O livro fez um sucesso retumbante, teve três edições num semestre e venceu o Prêmio Felipe D’Oliveira de Literatura daquele ano. Mas foi engolfado pelo debate um tanto bizantino, atiçado pela provocação de Jorge Amado: seria um romance proletário ou sobre proletários? No auge do sectarismo stalinista e, talvez, cioso de marcar como seu o território, Jorge – que deixara a interrogação estratégica no caso de Cacau – nesse caso responde com um rotundo não. E explica, lançando uma espécie de cartilha programática: “A literatura proletária é uma literatura de luta e revolta. E de movimento de massa. Sem herói nem heróis de primeiro plano. Sem enredo e sem senso de imoralidade. Fixando vidas miseráveis sem piedade, mas com revolta. (...) Ora, acontece que Os Corumbas é o romance de uma família e não o romance de uma fábrica. (...) O romance proletário deve inspirar o sentimento de revolta e de luta. Fazer do leitor um inimigo da outra classe. Comover não basta. É Preciso revoltar.”[3] Saliente-se que, apesar de negar o rótulo de romance proletário a Os Corumbas, Jorge Amado em linhas gerais elogia a obra.

Todo mundo elogiou, de João Ribeiro, que o considerou “um romance comunista” a Otávio de Faria, para quem Fontes pinta um quadro amplamente desfavorável à burguesia, porém imparcial. Alcântara Machado acolheu-a entusiasticamente. Alguns escritores fizeram algumas ressalvas. Estranharam o estilo enxuto, “sem poesia”, como escreveu José Lins do Rego. Houve até quem sentisse falta de palavrões, como o escritor Dias da Costa, salientando a ausência no texto da “linguagem um tanto escabrosa dos miseráveis” (certamente usando como parâmetro Cacau). (Ora, Os Corumbas é um romance de mulheres: são elas, as operárias, as filhas de seu Geraldo, as protagonistas; submetidas, além da exploração fabril, ao severo poder patriarcal e à repressão moralista da igreja católica, aquelas mulheres do início do século 20 não falavam palavrão.) Quem compreendeu perfeitamente a questão estilística — adequação linguagem-conteúdo e proposta estética — foi Manuel Bandeira, já no primeiro momento, quando enaltece o estilo direto e sem firulas de A.F., ao seu ver um escritor “só atento ao que é essencial no romance, ao movimento do romance, às suas exigências de construção e de verossimilhança psicológica”.[4][4]

Embora um tanto esquecido nos últimos anos, o belo romance de A.F. permanece no coração dos leitores (em 2003 foi lançada, pelo José Olympio, sua 25ª edição) e recebe certa atenção da academia, em dissertações e teses várias. E mereceu duas homenagens de outros escritores, que incluíram como personagens em suas obras ficcionais membros ou descendentes da sofrida família Corumba. Esse fato eleva, ao meu ver, a obra de Amando Fontes à categoria dos clássicos, que é quando nós passamos a encarar e a citar os fatos e pessoas narrados como se fossem reais.

MUDANÇA DE DOMICÍLIO LITERÁRIO.

Curiosamente, partiu do próprio Jorge Amado, tão zeloso do título de romance proletário, a primeira citação de uma criatura de Amando Fontes em obra alheia. E foi apenas dois anos após o lançamento de Os Corumbas, no seu romance Jubiabá, de 1935.

Nos dois terços iniciais, o protagonista, o negro Antonio Balduíno, exerce suas atribuições de boxeador, artista de circo, malandro, perseguido da polícia e amante vigoroso. É a parte mais bem realizada do romance, onde predominam a sensualidade, o colorido, os sons e cheiros da Bahia e do seu povo, características que se tornariam a marca do escritor e seria aprofundada e alargada após seu rompimento com o Partido Comunista. Na seção final desse consagrado romance, como um Deus ex machina, Balduíno se torna um dos líderes das massas operárias nas batalhas campais entre capital e trabalho na ensolarada cidade do Salvador. É quando, para surpresa do leitor que já tenha lido o livro de A.F., entra em cena, numa assembleia sindical, um novo personagem:

Um rapaz pede a palavra. Começaram a bater palmas mal ele aparece na mesa.
– Quem é? – pergunta Antonio Balduíno ao negro Henrique.
– É um operário das oficinas. Se chama Pedro Corumba. Um homem escreveu o ABC da família dele que passou o diabo em Sergipe. Eu já li... Ele é um lutador velho. Grevista velho. Já fez greve em Sergipe, no Rio, em São Paulo. Eu conheço ele. Depois lhe apresento.

E Pedro Corumba faz um discurso candente, desmascara o advogado conciliador, incendeia a plateia.

No romance de Amando Fontes, Pedro, jovem operário, é catequizado por um colega mais velho, José Afonso, lê livros que ele lhe passa, participa de uma greve, torna-se um destacado ativista sindical, é preso e deportado para o Rio de Janeiro – em mais um dissabor para os seus que, além do impacto afetivo, sofrem também com a diminuição da renda familiar. Os fatos se dão no primeiro terço da obra e Pedro somente reaparece, já para o final, numa carta aos pais e irmãs enviada do Rio, onde depois de libertado conseguira emprego, vivia em situação precária e continuava participando dos movimentos operários, sem maiores detalhes.

Jorge Amado vai buscá-lo já calejado nas lutas proletárias, para participar e dar uma força na greve dos trabalhadores baianos. “Continuando” a trajetória do personagem, apenas insinuada no romance original. Uma bela homenagem do escritor comunista ao colega católico, inclusive citado indiretamente, pois o “ABC da família dele”, como explica Henrique a Balduíno, se trata exatamente de Os Corumbas, sabendo-se que na literatura de cordel ABC é uma das modalidades dos folhetos ou romances de feira.

A segunda “mudança de domicílio” de um personagem vai ocorrer 63 anos depois e, com o decorrer do tempo, envolverá “descendentes” da família original. Será no último romance do escritor Herberto Sales, A prostituta, de 1996. A protagonista chama-se Maria Corumba e, como a Caçulinha de Amando Fontes, é sergipana, operária, deflorada pelo próprio noivo, igualmente um militar e, por isso, jogada “na vida”.

O romance de Herberto tem um tom e um desfecho completamente diferentes do outro, centrando-se na heroína que, ao contrário de suas “parentas” – e apesar da queda – vai parar no bordel por decisão própria e termina redimida por um casamento meio inverossímil.

Conforme Manuela Cunha de Souza, em trabalho acadêmico, “a família retratada em A prostituta, ou o que restou dela, é uma mescla de elementos que Herberto buscou no romance de Fontes e o que ele imaginou que poderia acontecer com os integrantes daquela família. De certo modo, a criação de A prostituta é a continuação da leitura do romance de Amando Fontes pelo autor. Ele resume quem era aquela família na voz de um dos operários que conversavam no início da obra, afirmando que seus primeiros integrantes trabalharam naquela fábrica e que todas as moças acabaram ‘se perdendo’ e entrando na prostituição. A protagonista vinha a ser ‘prima longe’ dessas jovens que foram dispensadas do ambiente fabril e partiram para os bordéis...”

Herberto explicaria assim sua motivação: “Na impressão sensível que me deixou no espírito essa família [Corumba], criei a fantasia romanesca dela, a jovem sergipana que se tornou a heroína deste meu último romance.” [5]
E assim as criaturas de Amando Fontes sobreviveram e abrigaram-se em obras de Jorge Amado e Herberto Sales.
Vale a pena, pois, ler essa obra-prima do romance social brasileiro. Melhor dizendo, obra-prima do romance brasileiro.
[1] Amando Fontes (1899-1967), de família sergipana, nasceu em Santos e voltou ainda criança para Sergipe. Além de Os Corumbas, publicou Rua do Siriri, em 1937. Deixou inacabado o romance O Deputado Santos Lima, no qual eram retratados os últimos anos da República Velha e o começo do novo regime.
[2] BUENO, Luís - Uma história do romance de 30 – São Paulo: Edusp, 2006.
[3]AMADO, Jorge. "P.S.".ln: Boletim de Ariel. Rio de Janeiro, (li, li) 1933. APUD Bueno, obra citada.
[4] APUD BUENO, na obra citada, acrescentando: “A compreensão de Manuel Bandeira é perfeita”.
[5] SOUZA, Manuela Cunha de. “Entre tantas Marias: nuances da identidade feminina no romance A prostituta, de Herberto Sales”. Dissertação para o Programa de pós-graduação em Estudo de Linguagens, UFBA, 2011. http://www.ppgel.uneb.br/…/uploads/2011/09/souza_manuela.pdf

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