“Com base na declaração de Bakthin, pode-se afirmar que ler não é unicamente decodificar os símbolos gráficos, é também interpretar o mundo em que vivemos”. (Patrícia F. Bianchini)

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Os Corumbas, personagens de três autores.


Publicado originalmente no site Interblogs, em 25 de Dezembro de 2016.

Os Corumbas, personagens de três autores.
Por Homero Fonseca.

A família Corumba é composta dessa espécie muito singular de personagens literários que saltam do livro original para morar em textos de outros autores, como citação ou homenagem.

O romance Os Corumbas, de Amando Fontes[1], foi lançado em 1933, mesmo ano de Cacau, de Jorge Amado. Foram a sensação editorial do ano, esgotando edições rapidamente e merecendo enorme atenção da crítica. No país extremamente polarizado de então, as duas obras foram o foco de um retumbante debate sobre literatura proletária, provocado pelo escritor baiano. É que, na célebre nota introdutória de Cacau, o jovem autor, já então filiado ao Partido Comunista, se coloca como fundador de uma nova vertente, ideológica, da literatura brasileira, disparando: "Tentei contar neste livro, com um mínimo de literatura para um máximo de honestidade, a vida dos trabalhadores das fazendas de cacau do sul da Bahia. Será um romance proletário?” A resposta, com aplausos à esquerda e críticas à direita, foi sim.

Mas vem Amando Fontes, católico, político conservador moderado, e lança, quase simultaneamente a Cacau, a história da família de agricultores pobres do interior sergipano que, tangida pela seca, vai tentar a sobrevivência na capital, Aracaju, no início do século 20. O pai, Geraldo, e os filhos Rosenda, Albertina, Pedro e Bela tornam-se operários; a mãe, Sá Josefa, cuida da casa, e Caçulinha é mandada para a escola pública, para se formar professora, melhorar de condição e ajudar a família. O romance é a narração da degradação econômica, moral e física da família proletária, vitimada por uma engrenagem gigantesca que tritura os corpos e as almas de trabalhadores ferozmente explorados. Todo o drama é uma sucessão de desgraças: três filhas terminam jogadas na prostituição, uma morre tuberculosa, o filho se envolve em agitação sindical, é preso e deportado, e os dois velhos, na última cena do romance, uma das mais tristes da literatura brasileira, estão num trem, derrotados, humilhados e ofendidos, na viagem de volta à terra de onde migraram. Tudo sem adjetivos, sem pieguice, sem idealização, sem proselitismo. Uma narrativa essencialista, onde o narrador não toma partido, não intervém, não dá “avisos ao leitor”.

(Um exemplo emblemático da preocupação de Fontes com a postura essencialmente narrativa, é trazido pelo crítico e historiador literário Luís Bueno: descrevendo a cena em que, numa manhã chuvosa e fria, Sá Josefa deixa-se ficar um pouco mais na cama de tábuas, encolhida, o autor acrescenta “debaixo da sua miserável coberta de retalhos”. Numa revisão posterior, o adjetivo miserável seria substituído por desbotada.)[2]

O livro fez um sucesso retumbante, teve três edições num semestre e venceu o Prêmio Felipe D’Oliveira de Literatura daquele ano. Mas foi engolfado pelo debate um tanto bizantino, atiçado pela provocação de Jorge Amado: seria um romance proletário ou sobre proletários? No auge do sectarismo stalinista e, talvez, cioso de marcar como seu o território, Jorge – que deixara a interrogação estratégica no caso de Cacau – nesse caso responde com um rotundo não. E explica, lançando uma espécie de cartilha programática: “A literatura proletária é uma literatura de luta e revolta. E de movimento de massa. Sem herói nem heróis de primeiro plano. Sem enredo e sem senso de imoralidade. Fixando vidas miseráveis sem piedade, mas com revolta. (...) Ora, acontece que Os Corumbas é o romance de uma família e não o romance de uma fábrica. (...) O romance proletário deve inspirar o sentimento de revolta e de luta. Fazer do leitor um inimigo da outra classe. Comover não basta. É Preciso revoltar.”[3] Saliente-se que, apesar de negar o rótulo de romance proletário a Os Corumbas, Jorge Amado em linhas gerais elogia a obra.

Todo mundo elogiou, de João Ribeiro, que o considerou “um romance comunista” a Otávio de Faria, para quem Fontes pinta um quadro amplamente desfavorável à burguesia, porém imparcial. Alcântara Machado acolheu-a entusiasticamente. Alguns escritores fizeram algumas ressalvas. Estranharam o estilo enxuto, “sem poesia”, como escreveu José Lins do Rego. Houve até quem sentisse falta de palavrões, como o escritor Dias da Costa, salientando a ausência no texto da “linguagem um tanto escabrosa dos miseráveis” (certamente usando como parâmetro Cacau). (Ora, Os Corumbas é um romance de mulheres: são elas, as operárias, as filhas de seu Geraldo, as protagonistas; submetidas, além da exploração fabril, ao severo poder patriarcal e à repressão moralista da igreja católica, aquelas mulheres do início do século 20 não falavam palavrão.) Quem compreendeu perfeitamente a questão estilística — adequação linguagem-conteúdo e proposta estética — foi Manuel Bandeira, já no primeiro momento, quando enaltece o estilo direto e sem firulas de A.F., ao seu ver um escritor “só atento ao que é essencial no romance, ao movimento do romance, às suas exigências de construção e de verossimilhança psicológica”.[4][4]

Embora um tanto esquecido nos últimos anos, o belo romance de A.F. permanece no coração dos leitores (em 2003 foi lançada, pelo José Olympio, sua 25ª edição) e recebe certa atenção da academia, em dissertações e teses várias. E mereceu duas homenagens de outros escritores, que incluíram como personagens em suas obras ficcionais membros ou descendentes da sofrida família Corumba. Esse fato eleva, ao meu ver, a obra de Amando Fontes à categoria dos clássicos, que é quando nós passamos a encarar e a citar os fatos e pessoas narrados como se fossem reais.

MUDANÇA DE DOMICÍLIO LITERÁRIO.

Curiosamente, partiu do próprio Jorge Amado, tão zeloso do título de romance proletário, a primeira citação de uma criatura de Amando Fontes em obra alheia. E foi apenas dois anos após o lançamento de Os Corumbas, no seu romance Jubiabá, de 1935.

Nos dois terços iniciais, o protagonista, o negro Antonio Balduíno, exerce suas atribuições de boxeador, artista de circo, malandro, perseguido da polícia e amante vigoroso. É a parte mais bem realizada do romance, onde predominam a sensualidade, o colorido, os sons e cheiros da Bahia e do seu povo, características que se tornariam a marca do escritor e seria aprofundada e alargada após seu rompimento com o Partido Comunista. Na seção final desse consagrado romance, como um Deus ex machina, Balduíno se torna um dos líderes das massas operárias nas batalhas campais entre capital e trabalho na ensolarada cidade do Salvador. É quando, para surpresa do leitor que já tenha lido o livro de A.F., entra em cena, numa assembleia sindical, um novo personagem:

Um rapaz pede a palavra. Começaram a bater palmas mal ele aparece na mesa.
– Quem é? – pergunta Antonio Balduíno ao negro Henrique.
– É um operário das oficinas. Se chama Pedro Corumba. Um homem escreveu o ABC da família dele que passou o diabo em Sergipe. Eu já li... Ele é um lutador velho. Grevista velho. Já fez greve em Sergipe, no Rio, em São Paulo. Eu conheço ele. Depois lhe apresento.

E Pedro Corumba faz um discurso candente, desmascara o advogado conciliador, incendeia a plateia.

No romance de Amando Fontes, Pedro, jovem operário, é catequizado por um colega mais velho, José Afonso, lê livros que ele lhe passa, participa de uma greve, torna-se um destacado ativista sindical, é preso e deportado para o Rio de Janeiro – em mais um dissabor para os seus que, além do impacto afetivo, sofrem também com a diminuição da renda familiar. Os fatos se dão no primeiro terço da obra e Pedro somente reaparece, já para o final, numa carta aos pais e irmãs enviada do Rio, onde depois de libertado conseguira emprego, vivia em situação precária e continuava participando dos movimentos operários, sem maiores detalhes.

Jorge Amado vai buscá-lo já calejado nas lutas proletárias, para participar e dar uma força na greve dos trabalhadores baianos. “Continuando” a trajetória do personagem, apenas insinuada no romance original. Uma bela homenagem do escritor comunista ao colega católico, inclusive citado indiretamente, pois o “ABC da família dele”, como explica Henrique a Balduíno, se trata exatamente de Os Corumbas, sabendo-se que na literatura de cordel ABC é uma das modalidades dos folhetos ou romances de feira.

A segunda “mudança de domicílio” de um personagem vai ocorrer 63 anos depois e, com o decorrer do tempo, envolverá “descendentes” da família original. Será no último romance do escritor Herberto Sales, A prostituta, de 1996. A protagonista chama-se Maria Corumba e, como a Caçulinha de Amando Fontes, é sergipana, operária, deflorada pelo próprio noivo, igualmente um militar e, por isso, jogada “na vida”.

O romance de Herberto tem um tom e um desfecho completamente diferentes do outro, centrando-se na heroína que, ao contrário de suas “parentas” – e apesar da queda – vai parar no bordel por decisão própria e termina redimida por um casamento meio inverossímil.

Conforme Manuela Cunha de Souza, em trabalho acadêmico, “a família retratada em A prostituta, ou o que restou dela, é uma mescla de elementos que Herberto buscou no romance de Fontes e o que ele imaginou que poderia acontecer com os integrantes daquela família. De certo modo, a criação de A prostituta é a continuação da leitura do romance de Amando Fontes pelo autor. Ele resume quem era aquela família na voz de um dos operários que conversavam no início da obra, afirmando que seus primeiros integrantes trabalharam naquela fábrica e que todas as moças acabaram ‘se perdendo’ e entrando na prostituição. A protagonista vinha a ser ‘prima longe’ dessas jovens que foram dispensadas do ambiente fabril e partiram para os bordéis...”

Herberto explicaria assim sua motivação: “Na impressão sensível que me deixou no espírito essa família [Corumba], criei a fantasia romanesca dela, a jovem sergipana que se tornou a heroína deste meu último romance.” [5]
E assim as criaturas de Amando Fontes sobreviveram e abrigaram-se em obras de Jorge Amado e Herberto Sales.
Vale a pena, pois, ler essa obra-prima do romance social brasileiro. Melhor dizendo, obra-prima do romance brasileiro.
[1] Amando Fontes (1899-1967), de família sergipana, nasceu em Santos e voltou ainda criança para Sergipe. Além de Os Corumbas, publicou Rua do Siriri, em 1937. Deixou inacabado o romance O Deputado Santos Lima, no qual eram retratados os últimos anos da República Velha e o começo do novo regime.
[2] BUENO, Luís - Uma história do romance de 30 – São Paulo: Edusp, 2006.
[3]AMADO, Jorge. "P.S.".ln: Boletim de Ariel. Rio de Janeiro, (li, li) 1933. APUD Bueno, obra citada.
[4] APUD BUENO, na obra citada, acrescentando: “A compreensão de Manuel Bandeira é perfeita”.
[5] SOUZA, Manuela Cunha de. “Entre tantas Marias: nuances da identidade feminina no romance A prostituta, de Herberto Sales”. Dissertação para o Programa de pós-graduação em Estudo de Linguagens, UFBA, 2011. http://www.ppgel.uneb.br/…/uploads/2011/09/souza_manuela.pdf

Texto e imagem reprodizidos do site: interblogs.com.br/homerofonseca

Biografia - João Ubaldo (1941 - 2014)

Foto reproduzida do site: diariodocentrodomundo.com.br

João Ubaldo Osório Pimentel Ribeiro nasceu na Ilha de Itaparica, Bahia, em 23 de janeiro de 1941, na casa de seu avô materno, à Rua do Canal, número um, filho primogênito de Maria Felipa Osório Pimentel e Manoel Ribeiro. O casal teria mais dois filhos: Sonia Maria e Manoel. Ao completar dois meses de idade, João muda-se com a família para Aracajú, SE, onde passaria a infância.

Em 1947 inicia seus estudos com um professor particular. Seu pai, professor e político, segundo o biografado, não suportava ter um filho analfabeto em casa. Já alfabetizado, em 1948 ingressa no Instituto Ipiranga. A partir daí permaneceria horas trancado na biblioteca de sua casa devorando livros infantis, sobretudo os de Monteiro Lobato. Forçado por seu austero pai, iria se dedicar com afinco aos estudos, procurando ser sempre o primeiro da classe. Sobre essa fase de sua vida leia mais em "Memória de Livros".

No ano de 1951 ingressa no Colégio Estadual de Sergipe. Sempre dedicado aos estudos, prestava ao pai, diariamente, contas sobre os livros lidos, sendo, algumas vezes, solicitado a resumi-los e a traduzir alguns de seus trechos. João era também solicitado a verter para o português canções francesas que o pai ouvia. Não tinha folga nem nas férias, pois nelas praticava o latim e copiava os sermões do padre Vieira, apesar de afirmar que fazia aquilo com prazer. Manoel Ribeiro, seu pai, era chefe da Polícia Militar e, nessa época, passa a sofrer pressões políticas, o que o faz transferir-se com a família para Salvador. Na capital baiana João Ubaldo é matriculado no Colégio Sofia Costa Pinto. Conta ele que era perseguido pela professora de inglês, em virtude de seu sotaque. "Ela não percebeu que eu falava inglês britânico, já que estudara em Sergipe com um professor educado na Escócia", diz o escritor. Desafiado, dedica empenho extraordinário ao idioma, chegando a decorar 50 palavras por dia. Vizinho de engenheiros americanos, faz amizade com seus filhos para aprimorar ainda mais seus conhecimentos da língua inglesa.

Em 1955 matricula-se no curso clássico do Colégio da Bahia, conhecido como "Colégio Central".
1956 marca o início da amizade com Glauber Rocha, seu colega na escola.

Estréia no jornalismo, começando a trabalhar como repórter no Jornal da Bahia, em 1957, sendo que posteriormente se transferiria para A Tribuna da Bahia, onde chegaria a exercer o posto de editor-chefe.

Em 1958 inicia seu curso de Direito na Universidade Federal da Bahia. Com Glauber Rocha edita revistas e jornais culturais e participa do movimento estudantil. Apesar de nunca ter exercido a profissão de advogado, foi aluno exemplar. Lê (ou relê), então, os grandes clássicos: Rabelais, Shakespeare, Joyce, Faulkner, Swift, Lewis Carroll, Cervantes, Homero, e, entre os brasileiros, Graciliano Ramos e Jorge de Lima. Nessa mesma Universidade, concluído o curso de Direito, faz pós-graduação em Administração Pública.

Participa da antologia Panorama do Conto Bahiano, organizada por Nelson de Araújo e Vasconcelos Maia, em 1959, com "Lugar e Circunstância", e publicada pela Imprensa Oficial da Bahia. Passa a trabalhar na Prefeitura de Salvador como office-boy do Gabinete e, em seguida, como redator no Departamento de Turismo.

Seu primeiro casamento dá-se em 1960 com Maria Beatriz Moreira Caldas, sua colega na Faculdade de Direito. Separaram-se após 9 anos de vida conjugal.

Com "Josefina", "Decalião" e "O Campeão" participa da coletânea de contos Reunião, editada pela Universidade Federal da Bahia no ano de 1961, em companhia de David Salles (organizador do livro), Noêmio Spinola e Sonia Coutinho.

Em 1963 escreve seu primeiro romance, "Setembro não faz sentido", título que substituiu o original (A Semana da Pátria), por sugestão da editora.

Em plena efervescência política do ano de 1964, João Ubaldo parte para os Estados Unidos, através de uma bolsa de estudos conseguida junto à Embaixada norte-americana, para fazer seu mestrado em Administração Pública e Ciência Política na Universidade da Califórnia do Sul. Conta que, na sua ausência, teve até sua fotografia divulgada pela televisão baiana, encimada por um enorme "Procura-se". Segundo João, o movimento revolucionário não sabia que ele, tido e havido como esquerdista, estava nos Estados Unidos às expensas daquele país.

Volta ao Brasil em 1965 e começa a lecionar Ciências Políticas na Universidade Federal da Bahia. Ali permaneceu por 6 anos, mas desistiu da carreira acadêmica e retornou ao jornalismo.

Com o prefácio de Glauber Rocha, que se empenhou junto à José Álvaro Editores pela sua publicação, João Ubaldo tem seu primeiro romance "Setembro não faz sentido" impresso, com o apadrinhamento de Jorge Amado.

Em 1969 casa-se com a historiadora Mônica Maria Roters, que lhe daria duas filhas: Emília (nascida em fevereiro de 1970) e Manuela (cujo nascimento ocorreria em junho de 1972). O casamento acabaria em 1978.

Em 1971 lança, pela Editora Civilização Brasileira, o romance "Sargento Getúlio", merecedor do Prêmio Jabuti concedido pela Câmara Brasileira do Livro, em1972, na categoria "Revelação de Autor". O livro é inspirado principalmente num episódio ocorrido na infância de João Ubaldo, envolvendo um certo sargento Cavalcanti, que recebera 17 tiros num atentado em Paulo Afonso, na Bahia; resgatado pelo pai do autor, então chefe da polícia de Sergipe, chegaria com vida em Aracaju. Segundo a crítica, esse livro filiou seu autor a uma vertente literária que sintetiza o melhor de Graciliano Ramos e o melhor de Guimarães Rosa.

Publica, em 1974, o livro de contos "Vencecavalo e o outro povo" (cujo título inicial era "A guerra dos Pananaguás"), pela Artenova.

Com tradução feita pelo próprio autor, o romance "Sargento Getúlio" é lançado nos Estados Unidos em 1978, com boa receptividade pela crítica daquele país.

Em 1979 passa nove meses como professor convidado do International Writting Program da Universidade de Iowa e publica no Brasil, pela Nova Fronteira, que a partir de então seria sua principal editora, um "conto militar", na sua definição, intitulado "Vila Real".

1980 marca seu terceiro casamento, com a fisioterapeuta Berenice Batella, que lhe daria dois filhos: Bento e Francisca (nascidos em junho de 1981 e setembro de 1983, respectivamente). Participa, em Cuba, do júri do concurso Casa das Américas, juntamente com o critico literário Antônio Cândido e o ator e diretor de teatro Gianfrancesco Guarnieri. O primeiro prêmio foi concedido à brasileira Ana Maria Machado.

Muda-se, com a família, para Lisboa, Portugal, em 1981, graças a uma bolsa concedida pela Fundação Calouste Gulbenkian. Edita, no período em que ali viveu, com o jornalista Tarso de Castro, a revista Careta. De volta ao Brasil, passa a residir no Rio de Janeiro, cidade que tanto ama, e lança "Política", livro até hoje adotado por inúmeras faculdades. Lança, também, "Livro de Histórias" (depois republicado com o título de "Já podeis da pátria filhos"), coletânea de contos. Inicia colaboração com o jornal "O Globo", que perdura até hoje, com pequenas interrupções, publicando uma crônica por semana. Sua produção dessa época seria reunida em 1988 no livro "Sempre aos domingos".

Em 1982 inicia o romance "Viva o povo brasileiro", que se passa na Ilha de Itaparica e percorre quatro séculos da história do país. Originalmente o livro se chamava "Alto lá, meu general". Segundo João, o livro nasceu de um desafio de seus editores e da lembrança de uma afirmativa de seu pai, que dizia: "Livro que não fica em pé sozinho, não presta." Como seus livros sempre tiveram poucas páginas, diante da provocação, fez um com mais de 700. Nesse ano participou do Festival Internacional de Escritores, em Toronto, Canadá.

No ano seguinte estréia na literatura infanto-juvenil com "Vida e paixão de Pandonar, o cruel". Seu livro "Sargento Getúlio" chega aos cinemas, num filme dirigido por Hermano Penna e protagonizado por Lima Duarte. O longa-metragem receberia os seguintes prêmios no Festival de Gramado: Melhor Ator, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Som Direto, Melhor Filme, Grande Prêmio da Crítica e Grande Prêmio da Imprensa e do Júri Oficial. Volta a residir em Itaparica, na casa onde nascera.

"Viva o povo Brasileiro" é finalmente editado em 1984, e recebe o Prêmio Jabuti na categoria "Romance" e o Golfinho de Ouro, do governo do Rio de Janeiro. Inicia a tradução desse livro para o inglês, tarefa que lhe consumiria dois anos de trabalho e a partir do qual passaria a utilizar o computador para escrever. Ao lado de Jorge Luis Borges e Gabriel Garcia Marques, participa de uma série de nove filmes produzidos pela TV estatal canadense sobre a literatura na América Latina.

João Ubaldo é consagrado na Avenida Marquês de Sapucaí: seu livro "Viva o povo brasileiro" é escolhido como samba-enredo da escola Império da Tijuca para o carnaval do ano de 1987.

Em 1989 lança o romance "O sorriso do lagarto".

Em 1990 publica "A vingança de Charles Tiburone", sua segunda experiência em literatura infanto-juvenil. A convite da Deutsch Akademischer Austauschdienst, muda-se com a família para Berlim, onde viveria por 15 meses. Publica crônicas semanais no jornal Frankfurter Rundschau, além de produzir peças radiofônicas de grande alcance popular, entre elas, uma adaptação de seu conto "O santo que não acreditava em Deus".

Retorna ao Brasil em 1991, e volta a residir no Rio de Janeiro. Seu romance "O sorriso do lagarto" é adaptado para o formato de minissérie por Walter Negrão e Geraldo Carneiro e estréia na Rede Globo, tendo como protagonistas Tony Ramos, Maitê Proença e José Lewgoy. Volta a escrever no jornal O Globo e inicia colaboração no O Estado de São Paulo, passando a publicar em ambos uma crônica aos domingos.

Em 1993 adapta "O santo que não acreditava em Deus" para a série Caso Especial, da Rede Globo, que teve Lima Duarte no papel principal. No dia 7 de outubro é eleito para a cadeira 34 da Academia Brasileira de Letras, na vaga aberta com a morte do jornalista Carlos Castello Branco. Disputavam com ele o piauiense Álvaro Pacheco e o mineiro Olavo Drummond. No terceiro escrutínio João Ubaldo obteve 21 votos contra 13 de Pacheco e um nulo.

Termina, em 1994, a adaptação cinematográfica, feita em parceria com Cacá Diegues e Antônio Calmon, do romance "Tieta do Agreste", de seu amigo e conterrâneo Jorge Amado. O filme teve a atriz Sonia Braga no papel principal e direção de Cacá Diegues. Toma posse na Academia Brasileira de Letras em 8 de junho. Cobre, nos Estados Unidos, a Copa do Mundo de Futebol como enviado dos jornais O Globo e O Estado de São Paulo. De volta ao Brasil é internado numa clínica em Botafogo, com arritmia cardíaca. Participa da Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha, e lá recebe o Prêmio Anna Seghers, concedido somente a escritores alemães e latino-americanos.

Recebe o prêmio Die Blaue Brillenschlange - concedido ao melhor livro infanto-juvenil sobre minorias não-européias - pela edição alemã de "Vida e paixão de Pandonar, o cruel". Lança o livro de crônicas "Um brasileiro em Berlim", sobre sua estada naquela cidade.

Volta a participar da Feira do Livro de Frankfurt, em 1996. Detém a cátedra de Poetik Dozentur na Universidade de Tubigem, Alemanha.

Em 1997 é internado novamente no Rio, desta vez com fortes dores de cabeça provocadas por uma queda. Cacá Diegues compra os direitos de filmagem do livro "Já podeis da pátria filhos". Renova contrato com a Nova Fronteira, depois de receber propostas de outras editoras. Publica o romance "O feitiço da Ilha do Pavão".

Participa em Paris do Salão do Livro da França, em 1998. Vende os direitos de "Viva o povo brasileiro" para o cinema; o filme deve ser dirigido pelo cineasta André Luis Oliveira. Lança o livro "Arte e ciência de roubar galinha", seleção de crônicas publicadas nos jornais O Globo e O Estado de São Paulo.

Durante a IX Bienal do Livro - Rio de Janeiro, em Abril de 1999, lançou o livro " A Casa dos Budas Ditosos", da série Plenos Pecados, um romance sobre a luxúria publicado pela Editora Objetiva Ltda., que obtém enorme sucesso de vendas.

Ainda em 1999, foi um dos escritores escolhidos em todo mundo para dar um depoimento ao jornal francês "Libération", sobre o milênio que se aproxima. Escreveu, juntamente com Carlos (Cacá) Diegues, o roteiro de um filme baseado em seu conto "O santo que não acreditava em Deus", cujo título provisório é "Deus é brasileiro". Seu romance "O feitiço da Ilha do Pavão" foi publicado em Portugal e em tradução alemã, pela editora C.H. Beck. "A Casa dos Budas Ditosos" permanece, no Brasil, há trinta e seis semanas entre os dez livros mais vendidos. Será publicado brevemente na Espanha e já está com edições pré-contratadas em diversos outros países. Seu lançamento em Portugal se transformou em problema nacional face à proibição, por duas redes de supermercados, de sua venda naqueles estabelecimentos. A primeira edição, de 5.000 exemplares, foi vendida em poucos dias e novas edições estão no prelo. João Ubaldo, em janeiro/2000, esteve lá para ser homenageado pelos escritores portugueses com um desagravo a tal procedimento. Nessa oportunidade participou da Semana de Estudos Lusófonos, na Universidade de Coimbra. Foi, também, citado em diversas antologias, nacionais e estrangeiras, inclusive numa sobre futebol, publicada pelo jornal "Le Monde", na França. Saíram várias reedições de seus livros na Alemanha, incluindo uma nova edição de bolso de "Sargento Getúlio". "O sorriso do lagarto" foi publicado na França. "A casa dos Budas ditosos" está sendo traduzido para o inglês, nos Estados Unidos. Seu livro "Viva o povo brasileiro" foi indicado para o exame de Agrégation, um concurso nacional realizado na França para os detentores de diploma de graduação.

Fonte site Releituras - Colaborou Antonio Teles Jr.

Texto reproduzido do site: casadobruxo.com.br

Memória de Livros

Imagem postada por MD, a fim de ilustrar o presente artigo.
Foto reproduzida do site: recantodasletras.com.br

Memória de Livros.
Por João Ubaldo.

Aracaju, a cidade onde nós morávamos no fim da década de 40, começo da de 50, era a orgulhosa capital de Sergipe, o menor Estado brasileiro (mais ou menos do tamanho da Suíça). Essa distinção, contudo, não lhe tirava o caráter de cidade pequena, provinciana e calma, à boca de um rio e a pouca distância de praias muito bonitas. Sabíamos do mundo pelo rádio, pelos cinejornais que acompanhavam todos os filmes e pelas revistas nacionais. A televisão era tida por muitos como mentira de viajantes, só alguns loucos andavam de avião, comprávamos galinhas vivas e verduras trazidas à nossa porta nas costas de mulas, tínhamos grandes quintais e jardins, meninos não discutiam com adultos, mulheres não usavam calças compridas nem dirigiam automóveis e vivívamos tão longe de tudo que se dizia que, quando o mundo acabasse, só íamos saber uns cinco dias depois.

Mas vivíamos bem. Morávamos sempre em casarões enormes, de grandes portas, varandas e tetos altíssimos, e meu pai, que sempre gostou das últimas novidades tecnológicas, trazia para casa tudo quanto era tipo de geringonça moderna que aparecia. Fomos a primeira família da vizinhança a ter uma geladeira e recebemos visitas para examinar o impressionante armário branco que esfriava tudo. Quando surgiram os primeiros discos long play, já tínhamos a vitrola apropriada e meu pai comprava montanhas de gravações dos clássicos, que ele próprio se recusava a ouvir, mas nos obrigava a escutar e comentar.

Nada, porém, era como os livros. Toda a família sempre foi obsedada por livros e às vezes ainda arma brigas ferozes por causa de livros, entre acusações mútuas de furto ou apropriação indébita. Meu avô furtava livros de meu pai, meu pai furtava livros de meu avô, eu furtava livros de meu pai e minha irmã até hoje furta livros de todos nós. A maior casa onde moramos, mais ou menos a partir da época em que aprendi a ler, tinha uma sala reservada para a biblioteca e gabinete de meu pai, mas os livros não cabiam nela - na verdade, mal cabiam na casa. E, embora os interesses básicos dele fossem Direito e História, os livros eram sobre todos os assuntos e de todos os tipos. Até mesmo ciências ocultas, assunto que fascinava meu pai e fazia com que ele às vezes se trancasse na companhia de uns desenhos esotéricos, para depois sair e dirigir olhares magnéticos aos circunstantes, só que ninguém ligava e ele desistia temporariamente. Havia uns livros sobre hipnotismo e, depois de ler um deles, hipnotizei um peru que nos tinha sido dado para um Natal e, que, como jamais ninguém lembrou de assá-lo, passou a residir no quintal e, não sei por queê, era conhecido como Lúcio. Minha mãe se impressionou, porque, assim que comecei meus passes hipnóticos, Lúcio estacou, pareceu engolir em seco e ficou paralisado, mas meu pai - talvez porque ele próprio nunca tenha conseguido hipnotizar nada, apesar de inúmeras tentativas - declarou que aquilo não tinha nada com hipnotismo, era porque Lúcio era na verdade uma perua e tinha pensado que eu era o peru.

Não sei bem dizer como aprendi a ler. A circulação entre os livros era livre (tinha que ser, pensando bem, porque eles estavam pela casa toda, inclusive na cozinha e no banheiro), de maneira que eu convivia com eles todas as horas do dia, a ponto de passar tempos enormes com um deles aberto no colo, fingindo que estava lendo e, na verdade, se não me trai a vã memória, de certa forma lendo, porque quando havia figuras, eu inventava as histórias que elas ilustravam e, ao olhar para as letras, tinha a sensação de que entendia nelas o que inventara. Segundo a crônica familiar, meu pai interpretava aquilo como uma grande sede de saber cruelmente insatisfeita e queria que eu aprendesse a ler já aos quatro anos, sendo demovido a muito custo, por uma pedagoga amiga nossa. Mas, depois que completei seis anos, ele não agüentou, fez um discurso dizendo que eu já conhecia todas as letras e agora era só uma questão de juntá-las e, além de tudo, ele não suportava mais ter um filho analfabeto. Em seguida, mandou que eu vestisse uma roupa de sair, foi comigo a uma livraria, comprou uma cartilha, uma tabuada e um caderno e me levou à casa de D. Gilete.

- D. Gilete - disse ele, apresentando-me a senhora de cabelos presos na nuca, óculos redondos e ar severo -, este rapaz já está um homem e ainda não sabe ler. Aplique as regras.

"Aplicar as regras", soube eu muito depois com um susto retardado, significava, entre outras coisas, usar a palmatória para vencer qualquer manifestação de falta de empenho ou burrice por parte do aluno. Felizmente D. Gilete nunca precisou me aplicar as regras, mesmo porque eu de fato já conhecia a maior parte das letras e juntá-las me pareceu facílimo, de maneira que, quando voltei para casa nesse mesmo dia, já estava começando a poder ler. Fui a uma das estantes do corredor para selecionar um daqueles livrões com retratos de homens carrancudos e cenas de batalhas, mas meu pai apareceu subitamente à porta do gabinete, carregando uma pilha de mais de vinte livros infantis.

- Esses daí agora não - disse ele. - Primeiro estes, para treinar. Estas livrarias daqui são uma porcaria, só achei estes. Mas já encomendei mais, esses daí devem durar uns dias.

Duraram bem pouco, sim, porque de repente o mundo mudou e aquelas paredes cobertas de livros começaram a se tornar vivas, freqüentadas por um número estonteante de maravilhas, escritas de todos os jeitos e capazes de me transportar a todos os cantos do mundo e a todos os tipos de vida possíveis. Um pouco febril às vezes, chegava a ler dois ou três livros num só dia, sem querer dormir e sem querer comer porque não me deixavam ler à mesa - e, pela primeira vez em muitas, minha mãe disse a meu pai que eu estava maluco, preocupação que até hoje volta e meia ela manifesta.

- Seu filho está doido - disse ela, de noite, na varanda, sem saber que eu estava escutando. - Ele não larga os livros. Hoje ele estava abrindo os livros daquela estante que vai cair para cheirar.

- Que é que tem isso? É normal, eu também cheiro muito os livros daquela estante. São livros velhos, alguns têm um cheiro ótimo.

- Ontem ele passou a tarde inteira lendo um dicionário.

- Normalíssimo. Eu também leio dicionários, distrai muito. Que dicionário ele estava lendo?

- O Lello.

- Ah, isso é que não pode. Ele tem que ler o Laudelino Freire, que é muito melhor. Eu vou ter uma conversa com esse rapaz, ele não entende nada de dicionários. Ele está cheirando os livros certos, mas lendo o dicionário errado, precisa de orientação.

Sim, tínhamos muitas conversas sobre livros. Durante toda a minha infância, havia dois tipos básicos de leitura lá em casa: a compulsória e a livre, esta última dividida em dois subtipos - a livre propriamente dita e a incerta. A compulsória variava conforme a disposição de meu pai. Havia a leitura em voz alta de poemas, trechos de peças de teatro e discursos clássicos, em que nossa dicção e entonação eram invariavelmente descritas como o pior desgosto que ele tinha na vida. Líamos Homero, Camões, Horácio, Jorge de Lima, Sófocles, Shakespeare, Euclides da Cunha, dezenas de outros. Muitas vezes não entendíamos nada do que líamos, mas gostávamos daquelas palavras sonoras, daqueles conflitos estranhos entre gente de nomes exóticos, e da expressão comovida de minha mãe, com pena de Antígona e torcendo por Heitor na Ilíada. Depois de cada leitura, meu pai fazia sua palestra de rotina sobre nossa ignorância e, andando para cima e para baixo de pijama na varanda, dava uma aula grandiloqüente sobre o assunto da leitura, ou sobre o autor do texto, aula esta a que os vizinhos muitas vezes vinham assistir. Também tínhamos os resumos - escritos ou orais - das leituras, as cópias (começadas quando ele, com grande escândalo, descobriu que eu não entendia direito o ponto-e-vírgula e me obrigou a copiar sermões do Padre Antônio Vieira, para aprender a usar o ponto-e-vírgula) e os trechos a decorar. No que certamente é um mistério para os psicanalistas, até hoje não só os sermões de Vieira como muitos desses autores forçados pela goela abaixo estão entre minhas leituras favoritas. (Em compensação, continuo ruim de ponto-e-vírgula).

Mas o bom mesmo era a leitura livre, inclusive porque oferecia seus perigos. Meu pai usava uma técnica maquiavélica para me convencer a me interessar por certas leituras. A circulação entre os livros permanecia absolutamente livre, mas, de vez em quando, ele brandia um volume no ar e anunciava com veemência:

- Este não pode! Este está proibido! Arranco as orelhas do primeiro que chegar perto deste daqui!

O problema era que não só ele deixava o livro proibido bem à vista, no mesmo lugar de onde o tirara subitamente, como às vezes a proibição era para valer. A incerteza era inevitável e então tínhamos momentos de suspense arrasador (meu pai nunca arrancou as orelhas de ninguém, mas todo mundo achava que, se fosse por uma questão de princípios, ele arrancaria), nos quais lemos Nossa vida sexual do Dr. Fritz Kahn, Romeu e Julieta; O Livro de San Michele, Crônica Escandalosa dos Doze Césares, Salambô, O Crime do Padre Amaro - enfim, dezenas de títulos de uma coleção estapafúrdia, cujo único ponto em comum era o medo de passarmos o resto da vida sem orelhas - e hoje penso que li tudo o que ele queria disfarçadamente que eu lesse, embora à custa de sobressaltos e suores frios.

Na área proibida, não pode deixar de ser feita uma menção aos pais de meu pai, meus avós João e Amália. João era português, leitor anticlerical de Guerra Junqueiro e não levava o filho muito a sério intelectualmente, porque os livros que meu pai escrevia eram finos e não ficavam em pé sozinhos. "Isto é uma merda", dizia ele, sopesando com desdém uma das monografias jurídicas de meu pai. "Estas tripinhas que não se sustentam em pé não são livros, são uns folhetos". Já minha avó tinha mais respeito pela produção de meu pai, mas achava que, de tanto estudar altas ciências, ele havia ficado um pouco abobalhado, não entendia nada da vida. Isto foi muito bom para a expansão dos meus horizontes culturais, porque ela não só lia como deixava que eu lesse tudo o que ele não deixava, inclusive revistas policiais oficialmente proibidas para menores. Nas férias escolares, ela ia me buscar para que eu as passasse com ela, e meu pai ficava preocupado.

- D. Amália - dizia ele, tratando-a com cerimônia na esperança de que ela se imbuísse da necessidade de atendê-lo -, o menino vai com a senhora, mas sob uma condição. A senhora não vai deixar que ele fique o dia inteiro deitado , cercado de bolachinhas e docinhos e lendo essas coisas que a senhora lê.

- Senhor doutor - respondia minha avó -, sou avó deste menino e tua mãe. Se te criei mal, Deus me perdoe, foi a inexperiência da juventude. Mas este cá ainda pode ser salvo e não vou deixar que tuas maluquices o infelicitem. Levo o menino sem condição nenhuma e, se insistes, digo-te muito bem o que podes fazer com tuas condições e vê lá se não me respondes, que hoje acordei com a ciática e não vejo a hora de deitar a sombrinha ao lombo de um que se atreva a chatear-me. Passar bem, Senhor doutor.

E assim eu ia para a casa de minha avó Amália, onde ela comentava mais uma vez com meu avô como o filho estudara demais e ficara abastalhado para a vida, e meu avô, que queria que ela saísse para poder beber em paz a cerveja que o médico proibira, tirava um bolo de dinheiro do bolso e nos mandava comprar umas coisitas de ler - Amália tinha razão, se o menino queria ler que lesse, não havia mal nas leituras, havia em certos leitores. E então saíamos gloriosamente, minha avó e eu, para a maior banca de revistas da cidade, que ficava num parque perto da casa dela e cujo dono já estava acostumado àquela dupla excêntrica. Nós íamos chegando e ele perguntava:

- Uma de cada?

- Uma de cada - confirmava minha avó, passando a superintender, com os olhos brilhando, a colheita de um exemplar de cada revista, proibida ou não-proibida, que ia formar uma montanha colorida deslumbrante, num carrinho de mão que talvez o homem tivesse comprado para atender a fregueses como nós. - Mande levar. E agora aos livros!

Depois da banca, naturalmente, vinham os livros. Ela acompanhava certas coleções, histórias de "Raffles, Arsène Lupin", Ponson du Terrail, Sir Walter Scott, Edgar Wallace, Michel Zevaco, Emilio Salgari, os Dumas e mais uma porção de outros, em edições de sobrecapas extravagantemente coloridas que me deixavam quase sem fôlego. Na livraria, ela não só se servia dos últimos lançamentos de seus favoritos, como se dirigia imperiosamente à seção de literatura para jovens e escolhia livros para mim, geralmente sem ouvir minha opinião - e foi assim que li Karl May, Edgar Rice Burroughs, Robert Louis Stevenson, Swift e tantos mais, num sofá enorme, soterrado por revistas, livros e latas de docinhos e bolachinhas, sem querer fazer mais nada, absolutamente nada, neste mundo encantado. De vez em quando, minha avó e eu mantínhamos tertúlias literárias na sala, comentando nossos vilões favoritos e nosso herói predileto, o Conde de Monte Cristo - Edmond Dantès! - como dizia ela, fremindo num gesto dramático. E meu avô, bebendo a cerveja escondido lá dentro, dizia "ai, ai, esses dois se acham letrados, mas nunca leram o Guerra Junqueiro".

De volta à casa de meus pais, depois das férias, o problema das leituras compulsórias às vezes se agravava, porque meu pai, na certeza (embora nunca desse ousadia de me perguntar), de que minha avó me tinha dado para ler tudo o que ele proibia, entrava numa programação delirante, destinada a limpar os efeitos deletérios das revistas policiais. Sei que parece mentira e não me aborreço com quem não acreditar (quem conheceu meu pai acredita), mas a verdade é que, aos doze anos, eu já tinha lido, com efeitos às vezes surpreendentes, a maior parte da obra traduzida de Shakespeare, O elogio da loucura, As décadas de Tito Lívio, D. Quixote (uma das ilustrações de Gustave Doré, mostrando monstros e personagens saindo dos livros de cavalaria do fidalgo me fez mal, porque eu pasei a ver as mesmas coisas saindo dos livros da casa), adaptações especiais do Fausto e da Divina Comédia, a Ilíada, a Odisséia, vários ensaios de Montaigne, Poe, Alexandre Herculano, José de Alencar, Machado de Assis, Monteiro Lobato, Dickens, Dostoievski, Suetônio, os Exercícios espirituais de Santo Inácio de Loyola e mais não sei quantos outros clássicos, muitos deles resumidos, discutidos ou simplesmente lembrados em conversas inflamadas, dos quais nunca me esqueço e a maior parte dos quais faz parte íntima de minha vida.

Fico pensando nisso e me pergunto: não estou imaginando coisas, tudo isso poderia ter realmente acontecido? Acho que sim, também joguei bola, tomei banho nu no rio, subi em árvores e acreditei em Papai Noel. Os livros eram uma brincadeira como outra qualquer, embora certamente a melhor de todas. Quando tenho saudades da infância, as saudades são daquele universo que nunca volta, dos meus olhos de criança vendo tanto que entonteciam, dos cheiros dos livros velhos, da navegação infinita pela palavra, de meu pai, de meus avós, do velho casarão mágico de Aracaju.

Texto reproduzido do site: casadobruxo.com.br

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

A escola e o gosto pela leitura


Publicado originalmente no blog Sergipe Cultura, em 25/11/2011.

A escola e o gosto pela leitura*
Por Antônio Wanderley de Melo Corrêa**

A escrita alfabética teve sua origem há aproximadamente 5500 anos. Entretanto, ainda hoje, na maioria dos países do hemisfério sul, incluso o Brasil, muitas centenas de milhões de pessoas não dominam a leitura e a escrita.

De acordo com o Artigo XIX da Declaração Universal dos Direitos Humanos promulgada pela ONU em 10 de dezembro de 1948: “Todo homem tem o direito [...] de receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios e independentes de fronteiras”.

A Constituição do Estado de Sergipe afirma que é dever do Estado “garantir a todos o pleno exercício dos direitos culturais e o acesso às fontes de cultura” (Art. 225, Pa. IV).

Assim, é concedido ao cidadão, seja local ou planetário, o direito de dominar a codificação da palavra escrita como “ferramenta para compreender o mundo”. Portanto, trabalhar e lutar contra o analfabetismo constitui-se em práticas cidadãs.

Os avanços implementados pelo Estado e pela sociedade brasileira, no que se refere à diminuição das taxas de analfabetismo, são inegáveis. Mesmo assim, os números das estatísticas ainda são motivos de vergonha nacional. Números que não levam em conta os chamados analfabetos funcionais, aqueles que lêem e escrevem, mas não conseguem entender o texto lido e não transformam o que pensam em escrita.

Em nosso país é voz corrente que o brasileiro não gosta de ler. Paradoxalmente aqui se encontra o segundo maior parque gráfico da América. Guardando a relatividade da primeira afirmativa, a mesma possui fundo de verdade.

Observando o passado colonial, imperial e das primeiras décadas da república, a Terra Brasilis constituía-se em verdadeiras sociedades de analfabetos, em proporções equivalentes às sociedades européias medievais.

Mas o que teria gerado o contragosto, a ojeriza do nosso povo pela palavra impressa, além de fatores históricos? As telinhas eletrônicas com suas mensagens e informações superficiais, apresentadas no ritmo de 300 km por hora, estimulando a preguiça mental coletiva? Os preços das publicações, incompatíveis com o nível de renda da maioria da população? A falta de tempo gerada pelo ritmo alucinante da vida urbana contemporânea? A escola, que não estimula o suficiente ou corretamente as nossas crianças e jovens ao hábito saudável da busca do entretenimento, da informação e do conhecimento através do texto impresso? A falta de incentivo e de exemplo no ambiente familiar?

Perguntas para a reflexão.

Por motivos óbvios, a escola é um espaço por excelência para o desenvolvimento do gosto pela leitura e pela escrita, embora não seja a única responsável por tão grandiosa tarefa.

Neste sentido, muitos educadores vêm realizando experiências com resultados excelentes. Conseguiram romper com o exclusivismo do livro didático e do romance, enquanto leituras do processo de ensino\aprendizagem. O princípio básico dessas experiências é o respeito aos múltiplos gostos e interesses dos estudantes, sejam crianças e adolescentes ou jovens e adultos.

Crianças na fase da alfabetização são apresentadas aos livros infantis; jovens de famílias com acentuada cultura religiosa são estimulados a lerem obras compatíveis com suas crenças; adolescentes românticos/as são induzidos/as a apreciarem poesias e contos do gênero; jovens extrovertidos se identificam com o cordel ou com livretos de anedotas; os aventureiros folheiam revistas em quadrinhos e livros de ficção científica; os desportistas são induzidos a mergulharem os narizes nas revistas e cadernos de jornais especializados em esportes; garotas que realizam atividades domésticas consultam livros de receitas de culinária; alunos que participam de cursos profissionalizantes buscam utilidade em fascículos técnicos. E assim por diante.

Utilizando como base os diversos gêneros e temas de textos impressos, os educadores incentivam seus alunos a produzirem seus próprios textos baseados nas experiências das leituras, como meio de fixarem na mente e democratizarem as experiências pessoais para os demais colegas, além de ampliarem a capacidade de escrever.

As redações podem ser lidas na sala de aula, motivando a desinibição no falar em público e a prática da leitura fluente.

Outro recurso que ajuda a instigar estudantes ao gosto pela leitura é a criação de murais que se constituirão em espaços democráticos, contemplando os seus diversos interesses e motivações, contendo as mais diversas temáticas, levando em conta o contexto social e cultural da comunidade na qual a escola se insere. A garotada expõe, em secções específicas, seus trabalhos escolares; recortes de matérias de jornais e revistas, seguidos de comentários próprios; poemas e recadinhos; protestos e sugestões, entre tantas outras contribuições. O mural é um espaço interativo, de estímulo constante na busca do conhecimento através das práticas da leitura e da escrita.

A promoção de feiras de leitura na escola é outra atividade recomendável, quando ocorrem trocas de livros e impressos das mais variadas formas e gêneros. São ainda organizados concursos de redações, contos, poesias e outros escritos. Eventos como esses movimentam positivamente a escola, eletrizando a estudantada e animando os professores.

O maior volume e aprofundamento do conhecimento encontram-se no texto impresso, nos livros. Quem possui o hábito da leitura, raciocina mais rápido, tem mais conhecimentos, idéias e criatividade, adquire riqueza vocabular e fala com mais elegância, escreve com mais fluência, enfim, se torna mais inteligente. Portanto, os educadores não devem medir esforços no sentido de estimular as novas gerações a irem adquirindo o gosto pela leitura e pela escrita.

Ler é descobrir universos, desvendar segredos da existência, aprender a história que a vida não para de escrever.

*Artigo publicado no Jornal da Cidade de 01 ago. 2002. Cad. B, pg. 06. Revisado em 10 out. 2010.
** Licenciado em História pela UFS e professor das redes públicas estadual (SEED) e municipal (SEMED/PMA).

Texto e imagem reproduzidos do blog: sergipecultura.blogspot.com.br

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Ferreira Gullar dentro da vida veloz

Gullar, sem dúvida, deixou uma obra poética que 
terá como legado a imortalidade.
Foto: Divulgação.

Publicado originalmente pelo Portal Dom Total, em  05/12/2016.

Ferreira Gullar dentro da vida veloz.

O país fica menos poético com a partida do poeta maranhense autor de "Poema Sujo".


Por Ricardo Soares*

A ceifadeira da morte, que esse ano trabalhou inclemente, acaba de nos levar o poeta Ferreira Gullar e, piegas ou não, é mister dizer que o país fica menos poético com a partida do poeta maranhense autor do seminal "Poema Sujo" entre outras maravilhas que concebeu em quase 70 anos de poesia desde "Um pouco acima do chão" de 1949.

Nos últimos anos parte da esquerda e o Fla-Flu político generalizado colocou Gullar na vala comum dos imbecis, dos atrasados, dos equivocados como se fosse bom negócio julgar o mérito de um artista por suas convicções políticas. Mas isso não causa estranheza na medida em que parte dessa mesma esquerda, completamente equivocada, considera o pusilânime Ciro Gomes como alternativa presidencial.

O debate que se travou nas redes sociais a partir da morte de Gullar é constrangedor, principalmente porque tanto seus detratores quanto os defensores dão claras mostras de jamais terem lido um único verso dele, reduzindo-o a uma espécie de porta-voz de conveniências. A que ponto chegamos quando o vigor poético de um país se mede com essa régua.

Profissionalmente estive com Ferreira Gullar uma meia dúzia de vezes durante a vida. A última creio que no dia 13 de março de 2004, no seu apartamento de Copacabana, rodeado de gatos, livros de arte e, lógico, poesia. Me autografou a 11º edição do seu " Toda Poesia", editado pela José Olympio e me concedeu uma bela entrevista para o programa televisivo "Mundo da Literatura" que eu então dirigia e apresentava.

A essa altura da pobreza e estreiteza educacional e intelectual brasileira é muito triste ver a que ponto reduzimos Ferreira Gullar. É de se lamentar o pouco conhecimento que se tem dele nas escolas e universidades como lembrou ontem em entrevista à rádio Bandnews o escritor e professor Deonísio da Silva, que bem recorda que quando muito se ensina – e ainda à base de resumos - a poesia modernista pós semana de 1922. Se não chegamos ainda nem a Gullar que dirá aos poetas que hoje estão vivos e bem dispostos, produzindo.

Fosse ser refém do desalento nacional, do pouco apreço às palavras e aos versos  talvez Gullar tivesse durado menos que os 86 anos que viveu.  Não tenho aqui a menor pretensão de escrever algo muito original a seu respeito. Há gente mais capacitada para isso. Mas faço questão de pedir respeito ao morto não porque morto está. Mas porque, sem dúvida, deixou uma obra poética que terá como legado a imortalidade.

*Ricardo Soares é escritor, diretor de TV, roteirista e jornalista. 

Texto e imagem reproduzidos do site: domtotal.com

Morre o poeta Ferreira Gullar, aos 86 anos


Publicado originalmente no site Metrópoles, em 04/12/2016.

Morre o poeta Ferreira Gullar, aos 86 anos.

Escritor, poeta, dramaturgo e crítico, Ferreira Gullar morreu aos 86 anos,
no Rio de Janeiro

Ferreira Gullar, reconhecido poeta, crítico de arte e dramaturgo, morreu neste domingo (4/12), aos 86 anos. As causas do falecimento ainda não foram divulgadas. O escritor estava internado no hospital Copa D’Or, no Rio de Janeiro. Em 2014, o autor foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. Ao longo da carreira, acumulou vários prêmios, como Jabuti e Camões.

Um dos fundadores do neoconcretismo, Ferreira Gullar foi um personagem intensamente ativo na cultura brasileira. Nascido em São Luís (Maranhão), mudou-se para o Rio nos anos 1950 e ajudou a formar os pilares iniciais da chamada poesia concreta ao lado dos artistas Lígia Clark e Hélio Oiticica.

Exílio e “Poema Sujo”.

Nos anos 1970, teve que se exilar durante a ditadura militar por sua filiação ao Partido Comunista. Ao retornar ao Brasil, em 1977, chegou a ser preso, mas depois conseguiu retomar a carreira. Foi durante o refúgio na Argentina que ele publicou um de seus livros mais importantes.

“Poema Sujo” (1976) mistura autobiografia com um balanço dos tempos sombrios vividos pelo Brasil e pela América Latina. O livro ganhou reedição caprichada em 2016 pela editora Companhia das Letras, com apresentação do próprio poeta e introdução de Antônio Cícero.

Prêmios.

Entre os vários prêmios e láureas obtidos, Ferreira Gullar foi indicado ao Prêmio Nobel de Literatura em 2002. Venceu o prêmio Jabuti de melhor ficção em 2007 pelo livro “Resmungos”, em que reúne crônicas publicadas no jornal “Folha de S. Paulo”. Em 2011, tornou a conquistar a honra pelo livro de poesia “Em Alguma Parte Alguma”.

Em 2010, ganhou o importante Prêmio Camões, destinado a escritores de língua portuguesa. Gullar também recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), por meio da Faculdade de Letras da instituição.

Texto e imagem reproduzidos do site: metropoles.com

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Morre o escritor italiano Umberto Eco


Morre o escritor italiano Umberto Eco.

O escritor italiano Umberto Eco, autor de O Nome da Rosa, entre outros, morreu ontem (19), aos 84 anos. A informação foi confirmada pela família do escritor ao jornal italiano La Repubblica.

Semiólogo, filósofo, escritor e professor universitário, Umberto Eco nasceu em 5 de janeiro de 1932 na cidade de Alexandria, na região italiana do Piemonte.

Contrariando o desejo do pai de que se tornasse advogado, Eco estudou filosofia e literatura na Universidade de Turim, de onde se tornou professor. Também foi editor de cultura da RAI, emissora estatal italiana. Em 1956, lançou seu primeiro livro Il Problema Estetico di San Tommaso (não editado no Brasil).

Em 1988 fundou o Departamento de Comunicação da Universidade de San Marino.

Sua obra de maior sucesso, O Nome da Rosa, foi publicada em 1980 e adaptada para o cinema em 1986 por Jean-Jacques Annaud, com Sean Connery no papel principal. O livro lhe rendeu o Prémio Strega, em 1981, e foi sua estreia na ficção. Entre outras obras de destaque de Eco estão títulos como O Pêndulo de Foucault, A Ilha do Dia Antes, Baudolino, A Misteriosa Chama da Rainha Loana e O Cemitério de Praga.

Umberto Eco também é autor de importantes obras e ensaios acadêmicos, como Apocalípticos e Integrados (1964), que se tornou referência na literatura de cursos de comunicação. Seu último livro, Número Zero, foi lançado em 2015. Eco, que lecionou entre outras, nas universidades norte-americanas de Yale e Harvard, assim como no Collège de France, é autor de uma vasta bibliografia teórico e é autor, entre outros, de O Signo, Os Limites da Interpretação, Kant e o Ornitorrinco, Seis Passeios no Bosque da Ficção e Como se Faz uma Tese em Ciências Humanas.

Desde 2008, Eco era professor emérito e presidente da Escola Superior de Estudos Humanísticos da Universidade de Bolonha. Em 2014, Umberto Eco Eco recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A universidade brasileira foi a 40ª a conceder o título ao intelectual italiano e a primeira instituição do país.

Texto e imagem reproduzidos do site: ajn1.com.br

Da Agência Brasil

Foto: Corriere della Sera

Umberto Eco: "Informação demais faz mal".

O pensador e romancista italiano Umberto Eco. Ele desconfia da internet.
Foto: Eric Fougere/VIP Images/Corbis.

Publicado originalmente no site da Revista Época, em 19/02/2016.

Ideias. 

Umberto Eco: "Informação demais faz mal".

O escritor italiano diz que a internet é perigosa para o ignorante e útil para o sábio – ela não filtra o conhecimento e congestiona a memória do usuário.

Luís Antônio Giron, de Milão. 

(Entrevista originalmente publicada na revista Época em 2011).

O escritor Umberto Eco vive com a mulher num apartamento duplo nos 2° e 3°andares de um prédio antigo, de frente para o Palácio Sforzesco, o mais vistoso ponto turístico de Milão. É como se Alice Munro morasse defronte à Canadian Tower em Toronto, Haruki Murakami instalasse sua casa no sopé do Monte Fuji ou então Paulo Coelho mantivesse uma mansão na Urca, à sombra do Pão de Açúcar. “Acordo todo dia com a Renascença”, diz Eco. A enorme fortificação diante de suas janelas foi inaugurada pelo duque Francisco Sforza no século XV e está sempre lotada de turistas. O castelo deve também abrir seus portões pela manhã com uma sensação parecida. Diante dele, vive o intelectual e romancista mais famoso da Itália.

Um dos andares da casa de Eco é dedicado ao escritório e à biblioteca. São quatro salas repletas de livros, divididas por temas e por autores em ordem alfabética. A sala em que trabalha é pequena. Abriga aquilo que ele chama de “ala das ciências banidas”, como ocultismo, sociedades secretas, mesmerismo, esoterismo e bruxaria. Ali estão as fontes principais dos romances de sucesso de Eco: O nome da rosa (1980), O pêndulo de Foucault (1988), A ilha do dia anterior (1994), Baudolino (2000), A misteriosa chama da rainha Loana (2004) e O cemitério de Praga. Publicado em 2010 e lançado com sucesso no Brasil em 2011, o livro provocou polêmica por tratar de forma humorística um assunto sério: o surgimento do antissemitismo na Europa. Por motivos diversos, protestaram a Igreja Católica e o rabino de Roma. A primeira porque Eco satirizava os jesuítas (“São maçons de saia”, diz o personagem principal, o odioso tabelião Simone Simonini). O segundo porque as teorias conspiratórias forjadas no século XIX – como a fraude que ficou conhecida como Os Protocolos dos Sábios do Sião – poderiam gerar uma onda de ódio aos judeus. Desde o início da carreira, em 1962, com o ensaio estético Obra aberta, Eco gosta de provocar esse tipo de reação. Parece não perder o gosto pelo barulho. De muito bom humor, ele conversou com ÉPOCA durante duas horas sobre a idade, o gênero que inventou – o suspense erudito –, a decadência europeia e seu assunto mais constante nos últimos anos: a morte do livro. É difícil de acreditar, mas aquele que era visto como o maior inimigo da leitura pelo computador está revendo suas posições. Ele diz agora que está até gostando de ler livros pelo iPad, que comprou durante sua última turnê pelos Estados Unidos, em dezembro.

ÉPOCA – Como o senhor se sentiu após completar 80 anos?
Umberto Eco – Bem mais velho! (risos) Vamos nos tornando importantes com a idade, mas não me sinto importante nem velho. Não posso reclamar de rotina. Minha vida é agitada. Ainda mantenho uma cátedra no Departamento de Semiótica e Comunicação da Universidade de Bolonha e continuo orientando doutorandos e pós-doutorandos. Dou muita palestra pelo mundo afora.

ÉPOCA – O senhor tem sido um dos mais ferrenhos defensores do livro em papel. Sua tese é que o livro não acabará. Mesmo assim, estamos assistindo à popularização dos leitores digitais e tablets. O livro em papel ainda tem sentido?
Eco – Sou colecionador de livros. Defendi a sobrevivência do livro ao lado de Jean-Claude Carrière no volume Não contem com o fim do livro. Fizemos isso por motivos estéticos e gnoseológicos (relativo ao conhecimento). O livro ainda é o meio ideal para aprender. Não precisa de eletricidade, e você pode riscar à vontade. Achávamos impossível ler textos no monitor do computador. Mas isso faz dois anos. Em minha viagem pelos Estados Unidos, precisava carregar 20 livros comigo, e meu braço não me ajudava. Por isso, resolvi comprar um iPad. Foi útil na questão do transporte dos volumes. Comecei a ler no aparelho e não achei tão mau. Aliás, achei ótimo. E passei a ler no iPad, você acredita? Pois é. Mesmo assim, acho que os tablets e e-books servem como auxiliares de leitura. São mais para entretenimento que para estudo. Gosto de riscar, anotar e interferir nas páginas de um livro. Isso ainda não é possível fazer num tablet.

ÉPOCA – Apesar da evolução, o senhor vê a internet como um perigo para o saber?
Eco – A internet não seleciona a informação. Há de tudo por lá. A Wikipédia presta um desserviço ao internauta. Outro dia publicaram fofocas a meu respeito, e tive de intervir e corrigir os erros e absurdos. A internet ainda é um mundo selvagem e perigoso. Tudo surge lá sem hierarquia. A imensa quantidade de coisas que circula é pior que a falta de informação. O excesso de informação provoca a amnésia. Informação demais faz mal. Quando não lembramos o que aprendemos, ficamos parecidos com animais. Conhecer é cortar, é selecionar. Vamos tomar como exemplo o ditador e líder romano Júlio César e como os historiadores antigos trataram dele. Todos dizem que foi importante porque alterou a história. Os cronistas romanos só citam sua mulher, Calpúrnia, porque esteve ao lado de César. Nada se sabe sobre a viuvez de Calpúrnia. Se costurou, dedicou-se à educação ou seja lá o que for. Hoje, na internet, Júlio César e Calpúrnia têm a mesma importância. Ora, isso não é conhecimento.

ÉPOCA – Mas o conhecimento está se tornando mais acessível com a internet. O senhor não acha que o acesso a bancos de dados de instituições confiáveis altera nossa noção de cultura?
Eco – Sim, é verdade. Se você sabe quais os sites e bancos de dados são confiáveis, você tem acesso ao conhecimento. Mas veja bem: você e eu somos ricos de conhecimento. Podemos aproveitar melhor a internet do que aquele pobre senhor que está comprando salame na feira aí em frente. Nesse sentido, a televisão era útil para o ignorante, porque selecionava a informação de que ele poderia precisar, ainda que informação idiota. A internet é perigosa para o ignorante porque não filtra nada para ele. Ela só é boa para quem já conhece – e sabe onde está o conhecimento. A longo prazo, o resultado pedagógico será dramático. Veremos multidões de ignorantes usando a internet para as mais variadas bobagens: jogos, bate-papos e busca de notícias irrelevantes.
ÉPOCA – Há uma solução para o excesso de informação?
Eco – Seria preciso criar uma teoria da filtragem. Uma disciplina prática, baseada na experimentação cotidiana com a internet. Fica aí uma sugestão para as universidades: elaborar uma teoria e uma ferramenta de filtragem que funcionem para o bem do conhecimento. Conhecer é filtrar.

ÉPOCA – O senhor já está pensando num novo romance?
Eco – Vamos com calma. Mal publiquei um e você já quer outro... Estou sem tempo para ficção no momento. Na verdade, vou me ocupar agora de minha autobiografia intelectual. Fui convidado por uma instituição americana, a Library of Living Philosophers, para elaborar meu percurso filosófico. Fiquei contente com o convite porque passo a fazer parte de um projeto que inclui John Dewey, Jean-Paul Sartre e Richard Rorty – embora eu não seja filósofo. Desde 1939, o instituto convida um pensador vivo para narrar seu percurso intelectual num livro. O volume traz então ensaios de vários especialistas sobre os diversos aspectos da obra do convidado. No final, o convidado responde às dúvidas e às críticas levantadas. O desafio é sistematizar de uma forma lógica tudo o que já fiz...

ÉPOCA – Como lidar com tamanha variedade de caminhos?
Eco – Estou começando com meu interesse constante, desde o começo da carreira, pela Idade Média e pelos romances de Alessandro Manzoni. Depois vieram a semiótica, a teoria da comunicação, a filosofia da linguagem. E há o lado banido, da teoria ocultista, que sempre me fascinou. Tanto que tenho uma biblioteca só do assunto. Adoro a questão do falso. E foi recolhendo montes de teorias esquisitas que cheguei à ideia de escrever O cemitério de Praga.

ÉPOCA – Entre essas teorias, destaca-se a mais célebre das falsificações, Os Protocolos dos Sábios do Sião. Por que o senhor se debruçou sobre um documento tão revoltante para fazer ficção?
Eco – Eu queria investigar como os europeus civilizados se esforçaram em construir inimigos invisíveis no século XIX. E o inimigo sempre figura como uma espécie de monstro: tem de ser repugnante, feio e malcheiroso. De alguma forma, o que causa repulsa no inimigo é algo que faz parte de nós. Foi essa ambivalência que persegui em O cemitério de Praga. Nada mais exemplar que a elaboração das teorias antissemitas, que viriam a desembocar no nazismo do século XX. Em pesquisas, em arquivos e na internet, constatei que o antissemitismo tem origem religiosa, deriva para o discurso de esquerda e, finalmente, dá uma guinada à direita para se tornar a prioridade da ideologia nacional-socialista. Começou na Idade Média a partir de uma visão cristã e religiosa. Os judeus eram estigmatizados como os assassinos de Jesus. Essa visão chegou ao ápice com Lutero. Ele pregava que os judeus fossem banidos. Os jesuítas também tiveram seu papel. No século XIX, os judeus, aparentemente integrados à Europa, começaram a ser satanizados por sua riqueza. A família de banqueiros Rothschild, estabelecida em Paris, virou um alvo do rancor social e dos pregadores socialistas. Descobri os textos de Léo Taxil, discípulo do socialista utópico Fourier. Ele inaugurou uma série de teorias sobre a conspiração judaica e capitalista internacional que resultaria em Os Protocolos dos Sábios do Sião, texto forjado em 1897 pela polícia secreta do czar Nicolau II.

ÉPOCA – O anti-herói de O cemitério de Praga, Simone Simonini, é antissemita, anticlerical, anticapitalista e anticomunista. Como surgiu em sua mente alguém tão abominável?
Eco – Os críticos disseram que Simonini é o personagem mais horroroso da literatura de todos os tempos, e devo concordar com eles. Ele também é muito divertido. Seus excessos estão ali para provocar riso e revolta. No romance, Simonini é a única figura fictícia. Guarda todos os preconceitos e fantasias sobre um inimigo que jamais conhece. E se desdobra em várias personalidades: durante o dia, atua como tabelião falsificador de documentos; à noite, traveste-se em falso padre jesuíta e sai atrás de aventuras sinistras. Acaba virando joguete dos monarquistas, que se opõem à unificação da Itália, e, por fim, dos russos. Imaginei Simonini como um dos autores de Os Protocolos dos Sábios do Sião.

ÉPOCA – A falsificação sobre falsificações permitida pela ficção tornou o livro controverso. O senhor gosta de lidar com polêmicas?
Eco – A recepção tem sido positiva. O livro tem feito sucesso sem precisar de polêmicas. Quando foi lançado na Itália, gerou alguma discussão. O L’Osservatore Romano, do Vaticano, publicou um artigo condenando os ataques do livro aos jesuítas. O rabino de Roma leu O cemitério de Praga e afirmou que as teorias contidas no livro poderiam se popularizar de novo a partir da obra. Disse a ele que não havia tal perigo. Ao contrário, se Simonini serve para algo, é para provocar nossa indignação.

ÉPOCA – Além de falsário, Simonini é gourmet. Ele enumera com volúpia listas de receitas. O senhor gosta de gastronomia?
Eco – Sou McDonald’s! Nunca me incomodei com comida. Pesquisei receitas antigas para causar repugnância no leitor. A gastronomia é um dado negativo na composição do personagem. Quando Simonini discorre sobre pratos esquisitos, o leitor deve sentir o estômago revirado.

ÉPOCA – Apesar da evolução, o senhor vê a internet como um perigo para o saber?
Eco – Faz todo sentido escrever ficção. Não vejo como fazer hoje narrativa experimental, como James Joyce fez com Finnegans wake, para mim a fronteira final da experimentação. Houve um recuo para a narrativa linear e clássica. Comecei a escrever ficção nesse contexto de restauração da “narratividade”, chamado pós-modernismo. Sou considerado um autor pós-moderno – e concordo com isso. Vasculho as formas e os artifícios do romance tradicional. O romance é a realização maior da “narratividade”. Ela abriga o mito, base de nossa cultura. Contar uma história que emocione e transforme quem a absorve é algo que se passa com a mãe e seu filho, o romancista e seu leitor, o cineasta e seu espectador. A força da narrativa é mais eficaz que qualquer tecnologia.

ÉPOCA – Philip Roth disse que a literatura morreu. Qual é sua opinião?
Eco – Roth é um grande escritor. A contar com ele, a literatura não morrerá tão cedo. Publica um bom romance por ano. Não me parece que nem o romance nem ele pretendam interromper a carreira. (risos)

ÉPOCA – O senhor criou o suspense erudito. O modelo é ainda válido?
Eco – Em O nome da rosa, juntei erudição a romance de suspense. O livro ajudou a criar um tipo de literatura que vejo com bons olhos. Há muita coisa boa. Gosto de (Arturo) Pérez-Reverte, com suas fantasias que lembram as aventuras de Dumas, e Emilio Salgari, que eu lia quando menino.

ÉPOCA – Lendo seus seguidores, como Dan Brown, o senhor às vezes não se arrepende de ter criado o suspense erudito?
Eco – Às vezes, sim! (risos) Dan Brown me irrita porque parece um personagem inventado por mim. Em vez de compreender que as teorias conspiratórias são falsas, Brown as assume como verdadeiras, ficando ao lado do personagem, sem questionar nada. É o que faz em O código Da Vinci. É o mesmo contexto de O pêndulo de Foucault. Mas ele parece ter adotado a história para simplificá-la. Isso provoca ondas de mistificação. Há leitores que acreditam em tudo o que Dan Brown escreve – e não posso condená-los.

Texto e imagem reproduzidos do site: epoca.globo.com/ideias