“Com base na declaração de Bakthin, pode-se afirmar que ler não é unicamente decodificar os símbolos gráficos, é também interpretar o mundo em que vivemos”. (Patrícia F. Bianchini).



quarta-feira, 21 de junho de 2017

Joaquim Maria Machado de Assis (1839 - 1908)


Machado de Assis

(...) Assim são as páginas da vida,
como dizia meu filho quando fazia versos,
e acrescentava que as páginas vão
passando umas sobre as outras,
esquecidas apenas lidas.

"Suje-se Gordo!"

Joaquim Maria Machado de Assis, cronista, contista, dramaturgo, jornalista, poeta, novelista, romancista, crítico e ensaísta, nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 21 de junho de 1839. Filho de um operário mestiço de negro e português, Francisco José de Assis, e de D. Maria Leopoldina Machado de Assis, aquele que viria a tornar-se o maior escritor do país e um mestre da língua, perde a mãe muito cedo e é criado pela madrasta, Maria Inês, também mulata, que se dedica ao menino e o matricula na escola pública, única que freqüentará o autodidata Machado de Assis.
  
De saúde frágil, epilético, gago, sabe-se pouco de sua infância e início da juventude. Criado no morro do Livramento, consta que ajudava a missa na igreja da Lampadosa. Com a morte do pai, em 1851, Maria Inês, à época morando em São Cristóvão, emprega-se como doceira num colégio do bairro, e Machadinho, como era chamado, torna-se vendedor de doces. No colégio tem contato com professores e alunos e é até provável que assistisse às aulas nas ocasiões em que não estava trabalhando.
  
Mesmo sem ter acesso a cursos regulares, empenhou-se em aprender.  Consta que, em São Cristóvão, conheceu uma senhora francesa, proprietária de uma padaria, cujo forneiro lhe deu as primeiras lições de Francês. Contava, também, com a proteção da madrinha D. Maria José de Mendonça Barroso, viúva do Brigadeiro e Senador do Império Bento Barroso Pereira, proprietária da Quinta do Livramento, onde foram agregados seus pais.
 
Aos 16 anos, publica em 12-01-1855 seu primeiro trabalho literário, o poema "Ela", na revista Marmota Fluminense, de Francisco de Paula Brito. A Livraria Paula Brito acolhia novos talentos da época, tendo publicado o citado poema e feito de Machado de Assis seu colaborador efetivo.

Com 17 anos, consegue emprego como aprendiz de tipógrafo na Imprensa Nacional, e começa a escrever durante o tempo livre.  Conhece o então diretor do órgão, Manuel Antônio de Almeida, autor de Memórias de um sargento de milícias, que se torna seu protetor.

Em 1858 volta à Livraria Paula Brito, como revisor e colaborador da Marmota, e ali integra-se à sociedade lítero-humorística Petalógica, fundada por Paula Brito. Lá constrói o seu círculo de amigos, do qual faziam parte Joaquim Manoel de Macedo, Manoel Antônio de Almeida, José de Alencar e Gonçalves Dias.

Começa a publicar obras românticas e, em 1859, era revisor e colaborava com o jornal Correio Mercantil. Em 1860, a convite de Quintino Bocaiúva, passa a fazer parte da redação do jornal Diário do Rio de Janeiro. Além desse, escrevia também para a revista O Espelho (como crítico teatral, inicialmente), A Semana Ilustrada(onde, além do nome, usava o pseudônimo de Dr. Semana) e Jornal das Famílias.
 
Seu primeiro livro foi impresso em 1861, com o título Queda que as mulheres têm para os tolos, onde aparece como tradutor.  No ano de 1862 era censor teatral, cargo que não rendia qualquer remuneração, mas o possibilitava a ter acesso livre aos teatros. Nessa época, passa a colaborar em O Futuro, órgão sob a direção do irmão de sua futura esposa, Faustino Xavier de Novais.
 
Publica seu primeiro livro de poesias em 1864, sob o título de Crisálidas.
 
Em 1867, é nomeado ajudante do diretor de publicação do Diário Oficial.

Agosto de 1869 marca a data da morte de seu amigo Faustino Xavier de Novais, e, menos de três meses depois, em 12 de novembro de 1869, casa-se com Carolina Augusta Xavier de Novais.

Nessa época, o escritor era um típico homem de letras brasileiro bem sucedido, confortavelmente amparado por um cargo público e por um  casamento feliz que durou 35 anos. D. Carolina, mulher culta, apresenta Machado aos clássicos portugueses e a vários autores da língua inglesa.

Sua união foi feliz, mas sem filhos. A morte de sua esposa, em 1904, é uma sentida perda, tendo o marido dedicado à falecida o soneto Carolina, que a celebrizou.
 
Seu primeiro romance, Ressurreição, foi publicado em 1872.  Com a nomeação para o cargo de primeiro oficial da Secretaria de Estado do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, estabiliza-se na carreira burocrática que seria o seu principal meio de subsistência durante toda sua vida.
 
No O Globo de então (1874), jornal de Quintino Bocaiúva, começa a publicar em folhetins o romance A mão e a luva. Escreveu crônicas, contos, poesias e romances para as revistas O Cruzeiro, A Estação e Revista Brasileira.

Sua primeira peça teatral é encenada no Imperial Teatro Dom Pedro II em junho de 1880, escrita especialmente para a comemoração do tricentenário de Camões, em festividades programadas pelo Real Gabinete Português de Leitura.

Na Gazeta de Notícias, no período de 1881 a 1897, publica aquelas que foram consideradas suas melhores crônicas.

Em 1881, com a posse como ministro interino da Agricultura, Comércio Obras Públicas do poeta Pedro Luís Pereira de Sousa, Machado assume o cargo de oficial de gabinete.

Publica, nesse ano, um livro extremamente original , pouco convencional para o estilo da época: Memórias Póstumas de Brás Cubas -- que foi considerado, juntamente com O Mulato, de Aluísio de Azevedo, o marco do realismo na literatura brasileira.
 
Extraordinário contista, publica Papéis Avulsos em 1882, Histórias sem data (1884), Vária Histórias (1896), Páginas Recolhidas (1889), e Relíquias da casa velha (1906).

Torna-se diretor da Diretoria do Comércio no Ministério em que servia, no ano de 1889.

Grande amigo do escritor paraense José Veríssimo, que dirigia a Revista Brasileira, em sua redação promoviam reuniões os intelectuais que se identificaram com a idéia de Lúcio de Mendonça de criar uma Academia Brasileira de Letras. Machado desde o princípio apoiou a idéia e compareceu às reuniões preparatórias e, no dia 28 de janeiro de 1897, quando se instalou a Academia, foi eleito presidente da instituição, cargo que ocupou até sua morte, ocorrida no Rio de Janeiro em 29 de setembro de 1908. Sua oração fúnebre foi proferida pelo acadêmico Rui Barbosa.

É o fundador da cadeira nº. 23, e escolheu o nome de José de Alencar, seu grande amigo, para ser seu patrono.

Por sua importância, a Academia Brasileira de Letras passou a ser chamada de Casa de Machado de Assis.

Dizem os críticos que Machado era "urbano, aristocrata, cosmopolita, reservado e cínico, ignorou questões sociais como a independência do Brasil e a abolição da escravatura. Passou ao longe do nacionalismo, tendo ambientado suas histórias sempre no Rio, como se não houvesse outro lugar. ... A galeria de tipos e personagens que criou revela o autor como um mestre da observação psicológica.  ...  Sua obra divide-se em duas fases, uma romântica e outra parnasiano-realista, quando desenvolveu inconfundível estilo desiludido, sarcástico e amargo. O domínio da linguagem é sutil e o estilo é preciso, reticente. O humor pessimista e a complexidade do pensamento, além da desconfiança na razão (no seu sentido cartesiano e iluminista), fazem com que se afaste de seus contemporâneos."

BIBLIOGRAFIA:

Comédia

Desencantos, 1861.
Tu, só tu, puro amor, 1881.

Poesia

Crisálidas, 1864.
Falenas, 1870.
Americanas, 1875.
Poesias completas, 1901.

Romance

Ressurreição, 1872.
A mão e a luva, 1874.
Helena, 1876.
Iaiá Garcia, 1878.
Memórias Póstumas de Brás Cubas, 1881.
Quincas Borba, 1891.
Dom Casmurro, 1899.
Esaú Jacó, 1904.
Memorial de Aires, 1908.

Conto:

Contos Fluminenses,1870.
Histórias da meia-noite, 1873.
Papéis avulsos, 1882.
Histórias sem data, 1884.
Várias histórias, 1896.
Páginas recolhidas, 1899.
Relíquias de casa velha, 1906.

Teatro

Queda que as mulheres têm para os tolos, 1861
Desencantos, 1861
Hoje avental, amanhã luva, 1861.
O caminho da porta, 1862.
O protocolo, 1862.
Quase ministro, 1863.
Os deuses de casaca, 1865.
Tu, só tu, puro amor, 1881.

Algumas obras póstumas

Crítica, 1910.
Teatro coligido, 1910.
Outras relíquias, 1921.
Correspondência, 1932.
A semana, 1914/1937.
Páginas escolhidas, 1921.
Novas relíquias, 1932.
Crônicas, 1937.
Contos Fluminenses - 2º. volume, 1937.
Crítica literária, 1937.
Crítica teatral, 1937.
Histórias românticas, 1937.
Páginas esquecidas, 1939.
Casa velha, 1944.
Diálogos e reflexões de um relojoeiro, 1956.
Crônicas de Lélio, 1958.
Conto de escola, 2002.

Antologias

Obras completas (31 volumes), 1936.
Contos e crônicas, 1958.
Contos esparsos, 1966.
Contos: Uma Antologia (02 volumes), 1998

Em 1975, a Comissão Machado de Assis, instituída pelo Ministério da Educação e Cultura, organizou e publicou as Edições críticas de obras de Machado de Assis, em 15 volumes.

Seus trabalhos são constantemente republicados, em diversos idiomas, tendo ocorrido a adaptação de alguns textos para o cinema e a televisão.

Texto e imagem reproduzidos do site: releituras.com


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sexta-feira, 16 de junho de 2017

A última entrevista de Graciliano Ramos


Publicado originalmente no site da revista Bula.

A última entrevista de Graciliano Ramos.

Por Carlos Willian Leite.

Numa manhã de dezembro de 1948, dez anos após a publicação de “Vidas Secas”, Graciliano Ramos se confessa ao jornalista e escritor Homero Senna, em sua última longa entrevista

Principio por pedir a Graciliano Ramos que me diga alguma coisa sobre os começos de sua vida, no interior de Alagoas, na cidade de Quebrangulo (não Quebrângulo, como geralmente se diz), onde nasceu. “Mas isso tudo está contado em ‘Infância’. Valeria a pena repetir?” E como eu dissesse que sim, resumiu: “De minha cidade natal não guardo a menor lembrança, pois saí de lá com um ano. Criei-me em Buíque, zona de indústria pastoril, no interior de Pernambuco, para onde, a conselho de minha avó, meu pai se transferiu com a família. Em Buíque morei alguns anos e muitos fatos desse tempo estão contados no meu livro de memórias”.

Abro o volume, para conferir, e, entre outras coisas, lá encontro este perfil psicológico do velho Ramos, traçado pelo filho: “Tinha imaginação fraca e era bastante incrédulo. Aborrecia os ateus, mas só acreditava nas contas correntes e nas faturas. Desconfiava dos livros, que papel aguenta muita lorota, e negou obstinadamente os aeroplanos. Em 1934 considerava-os duvidosos”.

De quem o romancista teria herdado, então, o gosto pela literatura? Talvez do avô paterno, cujo retrato desbotado costumava admirar no álbum que se guardava no baú, e de quem admite que tenha recebido em legado “a vocação absurda para as coisas inúteis”. De sua mãe, o espírito infantil recolheu esta impressão: “Uma senhora enfezada, agressiva, ranzinza, sempre a mexer-se, várias bossas na cabeça mal protegida por um cabelinho ralo, boca má, olhos maus que em momentos de cólera se inflamavam com um brilho de loucura”, ente difícil que na harmonia conjugal “se amaciava, arredondava as arestas, afrouxava os dedos que batiam no cocuruto, dobrados, e tinham a dureza de martelos”.

De Buíque, onde o romancista frequentou a primeira escola, experimentou os primeiros desânimos diante dos livros didáticos do Barão de Macaúbas e viveu algumas das inesquecíveis aventuras de sua meninice, a família mudou-se para Viçosa, não a de Minas, terra do presidente Bernardes, mas a açucareira do interior de Alagoas. O que foi a extensa caminhada, de dezenas de léguas, desde os campos ralos, povoados de xiquexiques e mandacarus, até uma nova paisagem, de vegetação densa e muito verde, longa viagem feita em lombo de animal, está contada numa das melhores páginas de “Infância”.

De Viçosa, Graciliano passou a Maceió, onde frequentou um colégio mau; voltou e, aos 18 anos, foi morar em Palmeira dos Índios, no interior do Estado. Em Palmeira dos Índios chegaria a prefeito, e foi graças a dois relatórios que escreveu que se tornou conhecido. Mas não precipitemos os acontecimentos.

Estamos ainda em 1914. Nesse ano realiza Graciliano sua primeira viagem ao Rio, tendo trabalhado como foca de revisão. No “Correio da Ma­nhã” e no “O Século”, de Brí­cio Filho, não passou de suplente de revisor, trabalhando apenas quando o revisor efetivo faltava. Em “A Tarde”, porém, um jornal surgido naquela época para defender Pinheiro Ma­chado, chegou a revisor efetivo. Morou em várias pensões, naquele Rio dos princípios do século, que tantos cronistas já têm descrito. Os antigos endereços ficaram-lhe na memória, e sem qualquer esforço o romancista os vai citando: Largo da Lapa 110; Maranguape 11, Riachuelo 19. Todos numa zona então muito pouco recomendável, porque bairros de meretrício, de desordeiros e boêmios.

Nessa sua primeira viagem à Corte procurou aproximar-se de algum escritor, fez camaradagem literária?

Graciliano Ramos — Nenhuma. Os escritores daquele tempo eram cidadãos que, nas livrarias e nos cafés, discutiam colocação de pronomes e discorriam sobre Taine. Machado e Euclides já haviam morrido, e os anos de 1914 e 1915, em que estive no Rio, assinalam, na literatura brasileira, uma época cinzenta e anódina, de que é bem representativo um tipo como Osório Duque Estrada, que então pontificava.
Ficou aqui até quando?

Graciliano Ramos — Até 1915. Depois de curta e nada sedutora permanência na capital, achei melhor voltar para Palmeira dos Índios, onde já havia deixado um caso sentimental e onde minha família estava toda sendo dizimada pela peste bubônica. Num só dia perdi dois irmãos. Alarmado, e também desgostoso com a vida que levava, tratei de voltar para Alagoas. Em outubro de 1915 casei-me e estabeleci-me com loja de fazendas em Palmeira dos Índios. A mesma loja que fora de meu pai.
Nessa ocasião já tinha preocupações literárias?

Graciliano Ramos — Lia muito e escrevia coisas que inutilizava ou publicava com pseudônimos.
Quer revelar alguns desses pseudônimos?

Graciliano Ramos — Você é besta.
Fazia versos?

Graciliano Ramos — Aprendi isso, para chegar à prosa, que sempre achei muito difícil. Tendo vivido quinze anos completamente isolado sem visitar ninguém, pois nem as visitas recebidas por ocasião da morte de minha mulher eu paguei, tive tempo bastante para leituras. Depois da Re­volução Russa, passei a assinar vários jornais do Rio. Desse modo me mantinha mais ou menos informado, e os livros, pedidos pelos catálogos, iam-me do Alves e do Garnier, e principalmente de Paris, por intermédio do Mercure de France.
Então, se procurava manter-se tão bem informado a respeito do que se passava no Rio e no resto do mundo, deve ter acompanhado, lá de Palmeira dos Índios, o movimento modernista?

Graciliano Ramos — Claro que acompanhei. Já não lhe disse que assinava jornais?
E que impressão lhe ficou do modernismo?

Graciliano Ramos — Muito ruim. Sempre achei aquilo uma tapeação desonesta. Salvo raríssimas exceções, os modernistas brasileiros eram uns cabotinos. Enquanto outros procuravam estudar alguma coisa, ver, sentir, eles importavam Marinetti.
Não exclui ninguém dessa condenação?

Graciliano Ramos — Já disse: salvo raríssimas exceções. Está visto que excluo Ban­deira, por exemplo, que aliás não é propriamente modernista. Fez sonetos, foi parnasiano. E o “Solau do Desamado” é como as “Sex­tilhas de Frei Antão”. Por dever de ofício, pois estou organizando uma antologia de contos brasileiros, antologia que rola há mais de três anos, tive de reler toda a obra de um dos próceres do modernismo. Achei dois contos de cinco ou seis páginas cada um. E pergunto: isso justifica uma glória literária?
(Franze a testa, detém-se um instante, mas logo prossegue.)

Graciliano Ramos — Os modernistas brasileiros, confundindo o ambiente literário do país com a Academia, traçaram linhas divisórias rígidas (mas arbitrárias) entre o bom e o mau. E querendo destruir tudo que ficara para trás, condenaram, por ignorância ou safadeza, muita coisa que merecia ser salva. Vendo em Coelho Neto a encarnação da literatura brasileira — o que era um erro — fingiram esquecer tudo quanto havia antes, e nessa condenação maciça cometeram injustiças tremendas. Nas leituras que tenho feito, para a organização da antologia a que me referi, encontrei vários contos, de autores propositadamente esquecidos pelos modernistas e que seriam grandes em qualquer literatura. Lembro-me de alguns: “O Ratinho Tique-Taque”, de Medeiros e Albu­quer­que; “Tílburi de Praça”, de Raul Pompéia; “Só”, de Domício da Gama; “Coração de Velho”, de Mário de Alencar; “Os Brincos de Sara”, de Alberto de Oliveira. Nas antologias que andam por aí essas produções geralmente não aparecem, e de alguns dos autores citados são transcritos contos que não dão a ideia exata do seu talento e do domínio que tinham do gênero. Só posso atribuir isso, como já disse, à desonestidade. Porque se os compararmos aos produtos dos líderes modernistas, estes se achatam completamente.
Quer dizer que não se considera modernista?

Graciliano Ramos — Que ideia! Enquanto os rapazes de 22 promoviam seu movimentozinho, achava-me em Palmeira dos Índios, em pleno sertão alagoano, vendendo chita no balcão.
E como foi que chegou a prefeito da cidade?

Graciliano Ramos — Assassinaram o meu antecessor. Escolheram-me por acaso. Fui eleito, naquele velho sistema das atas falsas, os defuntos votando (o sistema no Brasil anterior a 1930), e fiquei vinte e sete meses na prefeitura.
Consta que, como prefeito, soltava os presos para que fossem abrir estradas…

Graciliano Ramos — Não era bem isso. Prendia os vagabundos, obrigava-os a trabalhar. E consegui fazer, no município de Palmeira dos Índios, um pedaço de estrada e uma terraplenagem difícil.
Em que ano foi isso?

Graciliano Ramos — Em 1930.
O ano do relatório…

Graciliano Ramos — Os relatórios são dois: há o de 1929 e o de 30.
Relatórios do prefeito ao governador do Estado, dando contas de sua administração, não é?

Graciliano Ramos — Justo. Apenas, como a linguagem não era a habitualmente usada em trabalhos dessa natureza, e porque neles eu dava às coisas seus verdadeiros nomes, causaram um escarcéu medonho. O primeiro teve repercussão que me surpreendeu. Foi comentado no Brasil inteiro. Houve jornais que o transcreveram integralmente.
E assim nasceu o escritor…

Graciliano Ramos — Não. Nasceu antes. Mas tinha o bom senso de queimar os romances que escrevia. Queimaram-se diversos. “Caetés”, infelizmente, escapou e veio à publicidade.
Numa edição Schmidt…

Graciliano Ramos — Exato. Por intermédio de Rômulo de Castro, Schmidt, que aqui no Rio lera os meus relatórios, pediu-me que lhe enviasse artigos para a imprensa. Como não me interessasse fazer carreira no jornalismo, nem construir nome literário, recusei-me. Aliás, nessa ocasião já estava de mudança para Maceió, pois fora nomeado diretor da Imprensa Oficial. Com a revolução, quis demitir-me, mas não pude. E lá fiquei até dezembro de 1931. Não suportando os interventores militares que por lá andaram, larguei o cargo e voltei para Palmeira dos Índios, onde, numa sacristia, fiz “São Ber­nardo”. Estava no capítulo 19, capítulo que escrevi já com febre, quando adoeci gravemente com uma psoíte e tive de ir para o hospital. Do hospital ficaram-me impressões que tentei fixar em dois contos: “Paulo” e “O Relógio do Hospital” — e no último capítulo de “An­gús­tia”. No delírio, julgava-me dois, ou um corpo com duas partes: uma boa, outra ruim. E queria que salvassem a primeira e mandassem a segunda para o necrotério. Estava convalescendo, em janeiro de 1933, quando tive notícia da minha nomeação para diretor da Instrução Pú­blica. Não acreditei.
Qual o interventor que o nomeou?

Graciliano Ramos — O capitão Afonso de Car­valho, hoje coronel. Foi disparate. Permaneci no cargo até 3 de março de 1936. Em 1933 Sch­midt lançara “Caetés”, que eu trazia na gaveta desde muito tempo. Naquele dia do mês de março de 1936, porém, sem qualquer explicação, fui preso e remetido para o Recife. onde passei dez dias incomunicável. Depois fui metido no porão do “Manaus” e vim para cá. Tive dez ou doze transferências de cadeia.
Qual o motivo da prisão?

Graciliano Ramos — Sei lá! Talvez ligações com a Aliança Nacional Libertadora, ligações que, no entanto, não existiam. De qualquer maneira, acho desnecessário rememorar estas coisas, porque tudo aparecerá nas “Memórias da Prisão”, que estou compondo.
Foi assim, então, que veio para o Rio?

Graciliano Ramos — Foi. Arrastado, preso.
Mas valeu a pena, não?

Graciliano Ramos — Sinceramente, não sei. Nun­ca tive planos na vida, muito menos planos de sucesso. De­pois daquela experiência da mocidade, o Rio não me atraía. No entanto vim, no porão do Manaus, e aqui vivo.
(Estávamos, portanto, diante de um antipará. Os “parás”, na saborosa classificação de Jaime Ovale, são “esses homenzinhos terríveis que vêm do Norte para vencer na capital da República; são habilíssimos, audaciosos, dinâmicos e visam primeiro que tudo o sucesso material, ou a glória literária, ou o domínio político”. Que pensaria Graciliano dessa fauna? Lanço a pergunta e a resposta não tarda.)

Graciliano Ramos — Está claro que existe um “exército do Pará”. Na maioria dos casos, porém, os seus milicianos já chegam feitos do Norte. Aqui vêm apenas colher os louros, ou, mais positivamente, as vantagens. E no Rio em geral definham, tornam-se mofinos. Ignoro se também sou “Pará”. Nunca fiz coisa que prestasse, mas ainda assim o pouco que fiz foi lá e não aqui, onde a vida não nos deixa tempo para nada. Hoje leio apenas jornais, um ou outro ro­mance. De manhã escrevo; à tarde saio para as minhas ocupações (inclusive para o “papo” na livraria); à noite trabalho. Onde iria achar tempo para leituras? E se não tivesse lido um pouco no interior, onde os dias são intermináveis, seria inteiramente analfabeto.
Quer dizer que acha preferível, para o escritor, a vida na província?

Graciliano Ramos — No Nordeste não podemos falar em “provincianismo”, luxo dos Estados grandes: São Paulo, Minas, Rio Grande do Sul. Nós, do Nordeste, temos de ser “municipais” ou “nacionais”. E, a ter de morar em qualquer dos Estados daquela região, acho preferível o interior às capitais, porque estas, seus mexericos, seus grupinhos literários, suas academiazinhas, seus institutos históricos, são sempre muito ruins. Já no interior poderá um homem entrar em contato íntimo com a terra e o povo. É, por exemplo, de onde vem a força de um José Lins do Rego, de uma Raquel de Queirós, de um Jorge Amado.
Sabe que é apontado como um dos nossos escritores modernos que melhor manejam o idioma?

Graciliano Ramos — Conversa. Talvez, se houvesse alguma verdade nisso, eu devesse muito aos caboclos do Nordeste, que falam bem. É lá que a língua se conserva mais pura. Num caso de sintaxe de regência, por exemplo, entre a linguagem de um doutor e a do caboclo — não tenha dúvida, vá pelo caboclo, e não erra. Note que me refiro ao caboclo do sertão. O do litoral vai-se estrangeirando.
Mas não me venha dizer que seu aprendizado da língua se fez apenas com os caboclos de Buíque e Palmeira dos Índios.

Graciliano Ramos — Claro que não. Muitas coisas não poderiam eles ensinar-me. Está visto que tive de chatear-me lendo gramáticas. E arrepiei-me com a leitura dos frades.
Consta que você, como Euclides da Cunha e Monteiro Lobato, é grande leitor de dicionários.

Graciliano Ramos — Consta e é verdade. Dicio­nário, para mim, nunca foi apenas obra de consulta. Costumo ler e estudar dicionários. Como escritor, sou obrigado a jogar com palavras. Logo, preciso conhecer o seu valor exato.
Acha isso uma qualidade?

Graciliano Ramos — Não sei. O que sei é que não há talento que resista à ignorância da língua.
Poderia, hoje, deixar de escrever?

Graciliano Ramos — Quem me dera poder deixar.
Sua obra de ficção é autobiográfica?

Graciliano Ramos — Não se lembra do que lhe disse a respeito do delírio no hospital? Nunca pude sair de mim mesmo. Só posso escrever o que sou. E se os personagens se comportarem de modos diferente, é porque não sou um só. Em determinadas condições, procederia como esta ou aquela das mi­nhas personagens.
Já se pode viver, no Brasil, da profissão de escritor?

Graciliano Ramos — Não creio. A última edição de minhas obras rendeu-me 50 contos. Da edição americana de “Angústia”, recebi 10 contos apenas. Tenho também três livros traduzidos para o espanhol. Mas os negócios na Argentina e no Uruguai andaram mal. Como não tenho o hábito de frequentar os suplementos e as revistas ilustradas, a literatura me rende pouco.
Que outras atividades exerce?

Graciliano Ramos — Trabalho no “Correio da Manhã” e sou inspetor de ensino secundário no ginásio São Bento.
Gosta do emprego que tem?

Graciliano Ramos — É-me indiferente. Trata-se de uma sinecura como outra qualquer. Em todo caso, nunca tive uma falta nem tirei licença.
E no “Correio da Manhã”, qual o seu serviço?

Graciliano Ramos — Corrijo a gramática dos repórteres e noticiaristas.
Gosta de jornalismo?

Graciliano Ramos — Não. Nem me considero jornalista.
Com essa vida de jornal, naturalmente dorme tarde.

Graciliano Ramos — À uma hora. E me levanto às sete.
Nos seus livros trabalha, portanto, apenas de manhã.

Graciliano Ramos — Exato. Até às onze, mais ou menos.
E para trabalhar, exige um bom ambiente ou não liga a isso?

Graciliano Ramos — Trabalho em qualquer parte. “Angústia” foi escrito em palácio, quando eu era diretor da Instrução Pública de Alagoas. “São Ber­nardo”, em péssimas condições, numa igreja. Qualquer canto me serve. Mas disponho, hoje, em casa, de uma confortável sala de trabalho: isso que os burgueses costumam chamar “escritório”.
Gosta da casa onde mora?

Graciliano Ramos — Em qualquer lugar estou bem. Dei-me bem na cadeia. Tenho até saudades da Colônia Correcional. Deixei lá bons amigos.
(Casado duas vezes, Graciliano tem seis filhos e duas netas. Pergunto-lhe se costuma ajudar a mulher em casa, e ele se espanta.)

Graciliano Ramos — Já faço muito em pagar as despesas. Aliás, tenho horror a compras. E quando ouço o telefone, tranco-me.
Aos domingos, o que costuma fazer?

Graciliano Ramos — Em geral escrevo pela manhã e à tarde durmo.
(O autor de “Vidas Secas” não faz visitas, não vai a concertos nem a conferências e não gosta de música. Tem, entretanto, um velho hábito: vai diariamente à Livraria José Olympio, na Rua do Ouvidor, e fica lá várias horas, num banco que já é quase propriedade sua, localizado no fundo da loja.)

Graciliano Ramos — Muitas vezes vou lá dormir. Mas aparecem amigos, conhecidos, e toca-se a conversar.
(Em virtude desse hábito, muita gente pensa que Graciliano dá a vida por um “papo”. Ele, porém, desfaz-me essa impressão.)

Graciliano Ramos — Quase sempre converso forçado, porque chegam pessoas. Mas na verdade muitos dias preferiria ficar quieto, sem trocar palavra. Também é fato que lá aparecem bons amigos, desses que a gente revê com prazer.
(Como Manuel Bandeira, Graciliano recebe inúmeros originais, para ler e dar opinião. A Bandeira dirigem-se sobretudo os jovens poetas ainda incertos quanto à própria vocação. E os que se iniciam na prosa, geralmente procuram mestre Graciliano. Este, assim, tem sempre uma quantidade enorme de originais para ler.)

Graciliano Ramos — É maçada. Recebo dezenas de originais. São principiantes, geralmente dos Estados, que desejam, é claro, alguns elogios. Já me aconteceu receber, na mesma semana, originais do Piauí e de Goiás. Eu devia fazer como José Lins: afirmar, sem leitura, que tudo é magnífico.
(Os escritores jovens do Brasil, que dos mais distantes Estados remetem originais para Graciliano Ramos, em busca de uma opinião, e nem sempre recebem resposta, ou a resposta que esperavam, podem, entretanto, considerar-se vingados: na própria casa do romancista surgem originais, e originais que ele tem, forçosamente, de ler, e talvez percorra com olhos mais benignos: os contos de seu filho Ricardo, de 19 anos, e de sua filha Clara, quatro anos mais moça que o irmão. Ambos têm vocação para as letras. Ricardo, jornalista, já tem publicado alguma coisa, naturalmente com a chancela paterna. E, ainda que Graciliano nos afirme o contrário, nos diga que nenhum deles lhe pede opinião, é divertido imaginar o romancista, cansado de emendar o português dos noticiaristas do “Correio da Manhã”, e de ler originais que lhe chegam, às dezenas, de todo o país, ter, em casa, de dar opinião sobre os trabalhos dos filhos.)

(Pergunto qual a sua impressão dos contos de Ricardo Ramos, e ele não se nega a opinar.)

Graciliano Ramos — Regulares. Tem jeito e poderá fazer coisa que preste.
E Clara?

Graciliano Ramos — É ainda criança. Tem 15 anos apenas e está concluindo o curso secundário.
(Despedindo-me de Graciliano, depois da longa conversa que aqui tentei reproduzir, faço-lhe uma última pergunta: Acredita na permanência de sua obra? E sem qualquer pose, sem nada que deixasse transparecer falsa modéstia, antes dando a impressão de que falava com absoluta sinceridade, esse pessimista seco e amargo respondeu-me.)

Graciliano Ramos — Não vale nada; a rigor, até, já desapareceu.
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Entrevista publicada na “Revista do Globo”, edição nº 473, em 18 de dezembro de 1956. E posteriormente no livro “República das Letras”, de Homero Senna, editora Civilização Brasileira.

Texto e imagem reproduzidos do site: revistabula.com

terça-feira, 13 de junho de 2017

Biografia de Nelson Rodrigues

O dramaturgo Nelson Rodrigues em 1949. 
Foto Carlos. Cedoc/Funarte.

Biografia de Nelson Rodrigues.

Dramaturgo, nascido no Recife e criado no Rio de Janeiro, deixou legado de 17 peças, além de romances, contos e crônicas.

Por André Gomes.

Nelson Falcão Rodrigues nasceu no Recife, em 1912. Aos 5 anos, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, indo morar na Rua Alegre, em Aldeia Campista, bairro que depois seria absorvido pelos vizinhos Andaraí, Maracanã, Tijuca e Vila Isabel. Em contato com a imaginação fértil do futuro escritor, a realidade da Zona Norte carioca, com suas tensões morais e sociais, serviu como fonte de inspiração para Nelson construir personagens memoráveis e histórias carregadas de lirismo trágico.

Aos 13 anos, ingressa na carreira de jornalista, trabalhando como repórter policial em A Manhã, um dos jornais fundados por seu pai, Mário Rodrigues, que marcaram época – o segundo foi Crítica, palco de uma tragédia que abalaria o dramaturgo profundamente: o assassinato de seu irmão, o ilustrador e pintor Roberto Rodrigues, em 1929.

Lado a lado com o teatro, o jornalismo foi para ele um ambiente privilegiado de expressão. Dentre seus textos propriamente jornalísticos, destacam-se aqueles dedicados ao futebol, em que empregou toda sua veia dramática, transformando partidas em batalhas épicas e jogadores em heróis. Trabalhou nos mais diversos jornais e revistas, assinando artigos e crônicas, como a popular e discutida coluna “A Vida Como Ela É…”.

Em 1943, a consagração no Teatro Municipal do Rio de Janeiro: sua segunda peça, Vestido de Noiva, montada por um grupo amador, Os Comediantes, dirigida pelo polonês recém-imigrado Ziembinski e com cenários de Tomás Santa Rosa, revolucionava a maneira de se fazer teatro no Brasil. Sua peça seguinte, Álbum de Família, de 1946, que trata de incesto, foi censurada, sendo liberada apenas duas décadas depois. Dali em diante, sua obra despertaria as mais variadas reações, nunca a indiferença.

O prestígio alcançado pelo reconhecimento de seu talento não livrou-o de contestações ou perseguições. Classificado pelo próprio Nelson Rodrigues como “desagradável”, seu teatro chocou plateias, provocando não apenas admiração, mas também repugnância e ódio, sentimentos muitas vezes alimentados por seu temperamento inclinado à polêmica e à autopromoção.

Nelson Rodrigues morreu no Rio de Janeiro, em 1980, aos 68 anos. Além dos romances, contos e crônicas, deixou como legado 17 peças que, vistas em conjunto, colocam-no entre os grandes nomes do teatro brasileiro e universal.

Texto reproduzido do site: funarte.gov.br

sábado, 3 de junho de 2017

Erico Verissimo - entrevistado por Clarice Lispector





Foto: Sérgio Arnaud.

Mafalda Verissimo, Paulo Gurgel Valente,
Erico Verissimo, Clarice Lispector
e Pedro Gurgel Valente, 1955.
Foto: arquivo Clarice Lispector/acervo IMS.

Publicado originalmente no site elfikurten

Erico Verissimo - entrevistado por Clarice Lispector.

“Não sou profundo. Espero que me desculpem.”

Erico é escritor que não preciso apresentar ao público: trata-se, com Jorge Amado, do único escritor no Brasil que pode viver da vendagem de seus livros. Vendem como pão quente. Recebido de braços abertos pelos leitores, no entanto a crítica muitas vezes o condena.

Clarice Lispector – Erico, por que você acha que não agrada aos críticos e aos intelectuais?
Erico Verissimo – Para começo de conversa, devo confessar que não me considero um escritor importante. Não sou um inovador. Nem mesmo um homem inteligente. Acho que tenho alguns talentos que uso bem... mas que acontece serem os talentos menos apreciados pela chamada “crítica séria”, como, por exemplo, o de contador de histórias. Os livros que me deram popularidade, como Olhai os lírios do campo, são romances medíocres. Nessa altura me pespegaram no lombo literário vários rótulos: escritor para mocinhas, superficial etc... O que vem depois dessa primeira fase é bastante melhor mas, que diabo! pouca gente (refiro-me aos críticos apressados) se dá ao trabalho de revisar opiniões antigas e alheias. Por outro lado, existem os “grupos”. Os esquerdistas sempre me acharam “acomodado”. Os direitistas me consideram comunista. Os moralistas e reacionários me acusam de imoral e subversivo. Havia ainda essa história cretina de “norte contra sul”. E ainda essa natural má vontade que cerca todo o escritor que vende livro, a ideia de que best-seller tem de ser necessariamente um livro inferior. Some tudo isto, Clarice, e você não terá ainda uma resposta satisfatória à sua pergunta. Mas devo acrescentar que há no Brasil vários críticos que agora me levam a sério, principalmente depois que publiquei O tempo e o vento. (Bons sujeitos!)

Clarice Lispector – Você se sente realizado como escritor, Erico? Eu, por exemplo, ainda não me sinto, e tenho a impressão de que será assim até eu morrer.
Erico Verissimo – Realizado, não. Mas confesso que não me sinto frustrado. Agora, acho que você tem todo o direito de considerar-se realizada. (É pena que isso não seja, no escritor, uma questão de direito.) Você, na minha opinião, trouxe algo de novo e importante para a nossa literatura.

Clarice Lispector – E como homem, você se sente realizado? Você, Erico, é uma das pessoas mais gostáveis que conheci. Você é uma pessoa humana de uma largueza extraordinária. Que é que você me diz disso?
Erico Verissimo – A resposta é quase idêntica à pergunta anterior. Reduzi ao mínimo as minhas frustrações. Sempre fui um sujeito tímido e moderado, até no sonho, nos projetos. Tenho tudo ou quase tudo quanto desejei, e muito mais do que ousei esperar. A ideia de ser querido, digamos a palavra exata – amado, me agrada, me alegra mais do que a ideia de ser admirado. Se você me perguntasse se sou um homem natural, para ser bem sincero, eu lhe confessaria que de certo modo moldei a minha própria imagem, a face do homem que eu desejo que os outros vejam.

Clarice Lispector – Você trocaria seu público, que adora você, por uma crítica que lhe fosse mais favorável?
Erico Verissimo – Não.

Clarice Lispector – Erico, sem interromper o assunto, estou me lembrando com saudade de Washington, eu como mulher de diplomata, e você trabalhando na OEA. Você se lembra de como eu fazia ninho na vida e na casa de vocês? Que é que você estava escrevendo naquela ocasião? Eu, por exemplo, estava escrevendo A maçã no escuro. Foi um período muito produtivo, no sentido de trabalho e no sentido de uma amizade que se formou para sempre entre você, Mafalda e eu.
Erico Verissimo – Quero que você saiba (e aqui falo também em nome de minha mulher) que as melhores recordações que guardo de nossa estada em Washington D.C. são as das horas que passamos em sua casa, com você e sua gente. Detestava o meu posto da União Pan-Americana. Não consegui escrever uma linha durante esses três anos burocráticos. O que sobrou de melhor desse tempo foi a nossa amizade. Você saiu daquela chatice federal com um romance denso de substância humana e poética.

Clarice Lispector – Qual é o seu personagem mais importante? O meu é sempre do livro que eu esteja escrevendo no momento.
Erico Verissimo – O primeiro vulto que me vem à mente é o do Capitão Rodrigo. Depois penso em Floriano, meu sósia espiritual. Mas não me decido a escolher. Prefiro dizer que os meus personagens mais importantes são as mulheres de O tempo e o vento, como Bibiana e Maria Valéria.

Clarice Lispector – Os críticos, ao que ouvi dizer, acham você pouco profundo. Que me diz disso?
Erico Verissimo – Lembro-me de um escritor francês que costumava dizer que un pot de chambre est aussi profond. Mas, falando sério, concordo com os críticos: não sou profundo. Espero que me desculpem.

Clarice Lispector – Quando foi, Erico, que você começou a escrever? E motivado pelo quê?
Erico Verissimo – Em menino, na escola, eu fazia “primorosas” redações. Grau dez. Foi ainda em Cruz Alta, atrás dum balcão de farmácia, que escrevi o primeiro conto. Por quê? Não sei. Aí me lembro que naquele tempo eu ainda pensava que podia ser pintor (acabo de comprar uma caixa de tintas. Pintores do Brasil, alerta!). Meu primeiro livro de histórias – Fantoches – ainda leva a marca de minhas leituras da época: Oscar Wilde, Bernard Shaw e o infalível Anatole France.

Clarice Lispector – Surpreendo-me de nenhum cineasta ter feito um filme baseado em algum de seus livros. Você gostaria de se ver no cinema?
Erico Verissimo – Uma companhia argentina filmou Olhai os lírios do campo em 1946. O retrato foi também transformado num filme, com gente de São Paulo. Nos Estados Unidos, Noite foi “deformado” num teleplay, com Jason Robbards, Franchot Tone e E. G. Marshall. Medonho! Todos os anos recebo propostas de cineastas que querem filmar O Continente. Fica tudo em vagas conversas. Sou péssimo homem de negócios. Detesto discutir contratos e quando discuto saio perdendo.

Clarice Lispector – Sua fama é enorme, Erico. Se eu fosse famosa assim, teria minha vida particular invadida, e não poderia mais escrever. Como é que você se dá com a fama? Eu soube que o ônibus de turistas em Porto Alegre tem como parte do programa mostrar sua casa.
Erico Verissimo – É claro que a “fama” tem um lado positivo – a sensação de que a gente se comunica com os outros passa a existir para milhares de leitores. Não só como autor, através dos personagens, como também como uma espécie de figura mitológica. É engraçado. Essa história do ônibus me encabula muito. Mas eu cultivo a virtude da paciência. E detesto decepcionar os que me procuram, os que me querem conhecer em carne e osso. Minha casa vive de portas abertas. Há noites em que temos de dez a vinte visitantes inesperados. Todas as semanas recebo dezenas de estudantes que querem entrevistar-me, e a gama vai do curso primário ao universitário. Pessoas com casos sentimentais me procuram para desabafar. Empresto-lhes o ouvido, o olho, e não raro uma afetuosa atenção. Frequentemente consigo ajudar realmente um ou outro “paciente”. E isso me alegra. Mas pelo amor de Deus, Clarice, não pense nem deixe que seus leitores imaginem que eu me levo a sério.

Clarice Lispector – Erico, qual foi a sua maior alegria como escritor?
Erico Verissimo – O primeiro livro publicado? O primeiro traduzido? Não sei. Tive e continuo tendo muitas alegrias. Como escritor.

Clarice Lispector – E como homem, qual foi a sua maior alegria?
Erico Verissimo – Os filhos. Os netos.

Clarice Lispector – De onde lhe vem a inspiração para o seu trabalho?
Erico Verissimo – Tenho pensado muito nisso. Não sei de onde vem isso a que chamamos inspiração por falta de melhor palavra.

Clarice Lispector – Você entraria na Academia Brasileira de Letras? Muita gente boa termina lá.
Erico Verissimo – Não. Respeito a Academia, onde vejo muito boa gente. Mas não tenho, nunca tive, a menor vontade de fazer parte da ilustre companhia. Questão de temperamento.

Clarice Lispector – Você planeja de início a história ou ela vai se fazendo aos poucos? Eu, por exemplo, acho que tenho um vago plano inconsciente que vai desabrochando à medida que trabalho.
Erico Verissimo – Planejo, mas nunca obedeço rigorosamente ao plano traçado. Os romances (você sabe disso melhor que eu) são artes do inconsciente. Por outro lado, estou quase a dizer que me considero mais um artesão do que um artista. E com isto você compreenderá melhor por que a crítica não me considera profundo.

Clarice Lispector – Você agora percorreu meio mundo com Mafalda. O que foi que mais impressionou você?
Erico Verissimo – A Mafalda. A capacidade que ela tem de me compreender, ajudar, acompanhar e – de vez em quando – dirigir, sem que este teimoso gaúcho serrano dê pela coisa... Herdei de meu avô tropeiro o gosto pelas andanças.
Quero sempre ver o que está pela frente. Mafalda tem alma calma no melhor sentido da palavra. Quer logo estabelecer-se, radicar-se. Mas eu a arrasto para dentro de trens, ônibus e aviões, e lá nos vamos. Gosto principalmente dos países latinos da Europa: França, Itália, Espanha, Portugal... Tenho uma fascinação enorme pela área mediterrânea. A Grécia e Israel me encantaram. Vi recentemente a Tchecoslováquia num dos momentos mais belos de sua história. No momento estou preparando um livro de viagens – pessoas e lugares que encontrei, certos momentos inesquecíveis que vivi – pretexto para falar de pintura, música, paisagens, literatura, problemas humanos, política etc.

Clarice Lispector – Agora que publiquei um livro de história para crianças e outro meu vai sair por esses dias, interesso-me em saber o que você pensa da literatura infantil no nosso país.
Erico Verissimo – Devo dizer que só a semana passada é que li a história do seu coelhinho. Acho que você usou a linguagem adequada. Foi mesmo uma história contada ao Paulinho (que hoje deve ser um Paulão). Eu gostaria de voltar a escrever para crianças. As nossas crianças precisam livrar-se do Superman, do Batman. Mas... que histórias poderíamos contar-lhes nesta hora desvairada? Isto é um assunto para discutir. Nossa literatura infantil ainda é muito pobre.

Clarice Lispector – Que é que você mais quer no mundo, Erico?
Erico Verissimo – Primeiro, gente. A minha gente. A minha tribo. Os amigos. E depois vêm – música, livros, quadros, viagens... Não negarei que gosto também de mim mesmo, embora não me admire.

ERICO VERISSIMO – O autor de O tempo e o vento e Olhai os lírios do campo foi convidado para substituir Alceu Amoroso Lima na direção do Departamento de Assuntos Culturais da União Pan Americana, em Washington, entre 1953 e 1956. Em companhia da esposa Mafalda e dos filhos Clarissa e Luiz Fernando conviveu com Clarice Lispector e Maury Gurgel Valente. Erico e Mafalda são padrinhos dos filhos de Clarice: Pedro e Paulo Gurgel Valente.

Fonte: LISPECTOR, Clarice. Clarice Lispector entrevistas. Rio de Janeiro: Rocco, 2007.

Texto e imagens reproduzidos do site: elfikurten.com.br

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Entrevista com Ferreira Gullar


Publicado originalmente no site da Revista Ideias, em 12 de janeiro de 2017 

Entrevista - Ferreira Gullar.

Por Paulo Polzonoff Jr. 

O que o leitor tem em mãos parece uma entrevista, mas é um embate. Desde que saí da casa do poeta Ferreira Gullar, em Copacabana, a imagem que tenho de nosso diálogo é a de uma luta de esgrima. Ambos tínhamos espadas em riste, mas ambos estávamos protegidos por uma roupa de branca amabilidade. Não nos ferimos, felizmente, e nem era esta a intenção. Com um sorriso triste no rosto eu vi Ferreira Gullar fechar a porta de seu apartamento. Eu era um descrente.

Sim. Apesar da apregoada falta de religiosidade do poeta, reafirmada nesta entrevista, o descrente ali não era outro senão eu. Gullar se apegava à literatura e fazia dela algo divino e transcendente. Havia complacência em sua voz. E suas reflexões eram as de quem viu muita água correr por debaixo da ponte e por isso mesmo sabe que é inútil se digladiar com palavras. Do outro lado, eu tinha outras coisas nas quais me agarrar. Talvez por isso visse com tanta desconfiança algo tão mundano quanto a literatura.

Na minha mão de repórter, uma lista de perguntas, todas orientadas segundo a visão de que o poema vai mal. Uma a uma, contudo, as perguntas foram perdendo o sentido. Porque diante de mim havia um homem de fé inabalável na capacidade humana de inventar a si mesmo. Ainda que visse aqui e ali problemas, como a tendência do nosso tempo de desprezar a fantasia, Ferreira Gullar pareceu muito seguro de que a beleza não teria fim. Só me restou mesmo rir amarelo. E concordar com a nobre fé alheia.

Aos 75 anos, com seus cabelos brancos escorridos, sua fala cheia de gestos e sua voz agradável, Ferreira Gullar parece um menino, tamanha sua empolgação. Seu riso é desconcertante e acaba por abalar as convicções pessimistas de qualquer um. Pelo menos abalou as minhas parcas certezas. E, de algum modo, apazigou meu coração. Pena que a experiência reveladora tenha durado tão pouco tempo. É que as raízes da descrença são profundas. E, cá para nós, seriam necessários cem mil profetas para que eu acreditasse como acredita o poeta que a literatura brasileira tem futuro.

Confesso que, em alguns momentos, fiquei até com vergonha. Deve ser a mesma vergonha que sente um ateu em frente a um padre. Baixei os olhos e aposto que enrubesci. Fui riscando perguntas que, para mim, haviam perdido o sentido. Queria especialmente saber de Gullar se ele achava que faltava aos poetas contemporâneos a mesma autocrítica que ele diz ter tido com relação ao movimento concretista. Mas tive a impressão de que o problema, na verdade, era outro: sobrava no entrevistador a crítica.

Gullar me pareceu inocente, sem ser ingênuo. Ou seria o contrário? Na entrevista a seguir, ele fala sobre o momento em que se descobriu poeta. Um momento que, ao que parece, perdura na alma do autor do “Poema Sujo”. O poeta ainda se revelou consciente de sua grandeza, posição sobre a qual eu nutro sentimentos ambíguos. Fez críticas ao hermetismo da poesia contemporânea e não citou nomes para elogiar o que acha bom.

Descendo por aquele elevador antigo, num prédio de pé-direito altíssimo numa rua modesta de Copacabana, envelheci uns bons anos. Caí na rua com rugas fundas no rosto cansado. Compreendi, pelas palavras do poeta, que, ao inventar a mim mesmo, pelo exercício cotidiano do espanto, acabo por fazer surgir de tal alquimia a Beleza. Ainda que eu insista em ver algum defeito no último decassílabo.

Com vocês, a exuberância de Ferreira Gullar:*

Et Cetera: Ando pensando muito sobre o que leva uma pessoa a ser poeta. Por isso, gostaria de começar a entrevista com a sua história. O senhor se lembra do momento em que a poesia surgiu na sua vida?
Ferreira Gullar: Lembro. Há dois momentos. O primeiro foi meu interesse inocente por poesia e, em seguida, por escrever poesia. Foi no colégio onde eu estudava, no jornalzinho do colégio. Li um poema que hoje eu vejo que era muito ruim, mas este poema ruim me motivou a fazer poesia. Tanto que no meu último livro tem um momento em que falo do mau poema que também tem sua razão de ser. Depois fiz poemas para a namorada…

Uma motivação universal…
É universal. Esta foi a primeira etapa. Em seguida já pretendi fazer poesia com métricas e sonetos – que era o que estava em vigor no Maranhão naquela época. Eu costumo dizer que nasci em Macondo, porque isso tudo se passa por volta de 1945 ou 46 e o modernismo ainda não havia chegado lá.

Neste sentido, o senhor seguiu um caminho tradicional, fazendo métrica para depois quebrar estas regras.
Mas para mim, na época, a poesia que existia era aquela. Eu não conhecia poesia moderna. Continuando, esta etapa inicial vai até o momento em que tomei consciência do que era a poesia. Foi num sebo em São Luís. Comprei um livro, acho que sobre princípios de filosofia, e um de contos do Hoffman. Quando peguei aqueles livros todos encardidos, cheirando a mofo, aquilo me pareceu uma coisa morta. Participando mais da morte do que da vida. Na hora, achei que a literatura se confundia com aquelas páginas cheias de mofo e fungo. Então me perguntei qual o sentido de fazer literatura, se era para terminar num sebo, nas páginas de um livro cheio de fungo. E esta foi a pergunta fundamental. Ao fazer esta pergunta, eu respondi a mim mesmo que só havia sentido escrever se a poesia mudasse a vida. E aí fui reler os versos que estavam na gaveta da minha escrivaninha e comecei a rasgá-los, porque aqueles poemas não mudavam nada. Até que parei em um. Não que ele mudasse algo, mas é que eu não queria ficar sem nada (risos). O que revela um pouco de mim, uma característica minha que é gostar de mim mesmo, ser complacente comigo em certos casos, não ter raiva de mim. Mas foi a partir desta resposta que começou uma segunda etapa, de compromisso verdadeiro com a poesia.

Esta pergunta juvenil ainda o norteia?
Eu respondi à pergunta e a resposta continua valendo.

O senhor nunca refez esta pergunta e se questionou sobre a validade da resposta?
Num momento ou outro a gente se pergunta. Principalmente nos momentos de dificuldade da vida, de coisas pesadas. Mas a resposta é esta porque não há outra resposta para mim. A outra resposta seria Deus, no qual eu não acredito.

Eu percebi que é quase uma obsessão de quem o entrevista perguntar sobre a sua religiosidade. Não fugindo a esta “tradição”, como anda a sua religiosidade agora?
Eu sou agnóstico. Acho que o mundo é uma coisa inexplicável. E Deus, a mais extraordinária invenção do ser humano, é a resposta para todas as perguntas sem respostas. Como eu não acredito em Deus, não tenho estas respostas. Tenho de lutar diariamente com este problema do grande mistério da vida. Minha reflexão atual sobre isso é que a vida realmente não tem sentido, mas cabe a nós atribuirmos sentido à vida. O homem, desde que ele existe, responde às perguntas sem resposta com Deus. Não é à toa que, depois de tantos anos de materialismo, a religião ainda continua poderosa. Além de dar respostas, a religião é algo muito importante.

É muito difícil ser agnóstico e ateu, né? Eu já tentei e não consegui.
Eu já inventei assim. Até porque na minha família não havia questões religiosas. Minha mãe e meu pai se diziam católicos, mas não havia sequer santos na casa. Ninguém rezava, ninguém ia à missa. Fui batizado, mas não fiz primeira comunhão nem nada. Esta ausência de religiosidade, de fé, também excluiu o conflito. Sou agnóstico, mas não tenho nenhum problema com a religião. Não tenho dificuldade de aceitar a importância da religião para o ser humano. Minha relação com a religião é muito objetiva. Eu sei que ela é importante e acho que eu escolhi o pior lado, que é aquele de achar que eu vou morrer e acabar para sempre. E não tenho nada em que me agarrar.

Quais as diferenças, na sua opinião, sobre o que significa ser poeta na sua geração e hoje em dia? A sua geração tinha motivações políticas (alguns) e preocupações com a forma. Talvez havia motivações metafísicas. Hoje em dia…
Uma coisa que eu vejo na poesia jovem é um certo hermetismo que, evidentemente, não me agrada. Eu acho que a poesia não deve ser superficial, mas também não deve ser hermética. É claro que quem quiser pode fazer. Estou dando a minha opinião. Porque, a não ser que a pessoa tenha uma necessidade muito profunda de comunicar uma realidade indecifrável que ele não consiga expressar de outra maneira… Mas normalmente eu acho que a função do poeta é ir ao mistério e trazê-lo à tona para as pessoas. Se não, que sentido tem? Se eu tenho a compreensão da complexidade e não transmito a complexidade, isto é inútil. Eu sou a favor da complexidade e não sou a favor da ideia de que você tenha de ser claro, mas se é para ser hermético, tem que ser como Mallarmé: ele era hermético, mas era profundo, denso. E tem que fazer um esforço para traduzir isto em palavras. Agora, o hermetismo como uma fórmula não pode.

Uma ideia recorrente é de que o desregramento da poesia durante o século XX acabou por vulgarizá-la.
Não é verdade. O verso livre levou o poeta a buscar uma disciplina e uma exigência até maior do que as formas clássicas. Os grandes poetas do passado que escreviam em versos metrificados tinham exigências também; mas o fato de ser rimado e metrificado, por ser uma técnica de fácil aprendizado, muitas vezes virava um automatismo.

O senhor mesmo mencionou que falava em decassílabos.
(Risos). É. Quando eu era jovem, integrado naquele tipo de linguagem, às vezes eu falava em decassílabos. Sem querer. Quando dava por mim, saía um verso. Perfeito. Mas a verdade é que, com o verso livre, no meu caso – que rompi com uma tradição de poesia metrificada – me perguntei como transformar a linguagem que era mera prosa em poema. Foi um desafio para mim. Um desafio colocado para sempre. No meu caso, em vez de eu ter uma disciplina externa, a da métrica, tenho uma disciplina interior. O poeta do verso livre é como o Romário ou Zico: a bola vem e ele tem de estar preparado. É uma disciplina da mente e do corpo que está entranhada. E esta disciplina vai se exercer a todo momento, porque a forma do poema é imprevisível. Ou você cai numa liberalidade, que é esta a que você se referiu, ou você tem uma disciplina interna.

O senhor é um defensor da individualidade na criação artística. Hoje em dia, no entanto, eu percebo que muitos escritores e poetas andam em bando, como escoteiros…
(Risos) Eu não acho mau. Vamos distinguir as coisas. O pintor Siron Franco, quando está no seu ateliê, faz o seu trabalho sozinho. Isto é arte individual. E existem artes que são coletivas como o cinema: um escreve o roteiro, outro dirige, há o intérprete, o montador. Mas existe um criador inicial, o cara que bolou o filme. Já a poesia, como a pintura, é extremamente individual. O que não significa que não seja social. Porque cada um de nós, na sua individualidade, é parte do momento histórico que está vivendo, da família, da comunidade, dos amigos. Este indivíduo é coletivo.

Conversando com um poeta da sua geração, ele me chamou a atenção para uma espécie de papado que existe na poesia brasileira. É a tradição de passar o cetro. Manuel Bandeira passou para Drummond, que passou para João Cabral, que teria passado para o senhor.
Não diria que é papado mas concordo em que isso de se eleger um poeta como se fosse o único do país não está certo. Sem dúvida, Drummond, Bandeira e João Cabral são grandes poetas mas havia outros, contemporâneos seus, que tinham grande qualidade dos quais quase não se falava. O problema, no entanto, é que isso ocorre não se sabe como e à revelia dos eleitos, porque certamente não foram aqueles poetas que se arvoraram em Papas.

Li uma entrevista sua na qual o senhor diz que só escreve quando tem algo a dizer. Eu queria que o senhor falasse um pouco da importância do tempo para o poeta. Eu vejo tanta gente escrevendo tanto, falando tanto…
Na poesia eu não posso fazer como numa crônica que tenho data para entregar. Na poesia eu não decido quando. Porque o motor gerador da poesia está fora de mim, fora do meu controle. De repente a poesia vem. É uma coisa que Manuel Bandeira dizia: o poema escolhe o momento de nascer. É verdade, escolhe. Acho que fazer poesia é aprender a fazer poesia, permanentemente. E quando você sabe demais tem que desaprender. Porque a poesia é o erro e a superação do erro. Não se pode estar seguro. Atualmente escrevo com mais dificuldade do que eu escrevia antes. Por exemplo, eu escrevi um poema chamado “Desordem”. Depois eu fui reler este poema, na forma que parecia final. Quando o estava relendo, começaram a surgir na minha cabeça ideias que não estavam expressas nele, mas que diziam respeito a ele. Aí eu escrevi uma espécie de adendo ao poema. Isto nasceu de modo imprevisível, da leitura do próprio poema. Certa noite, saía da casa da Claudia [Ahimsa, companheira do poeta]. E quando atravesso o jardim havia ali um jasmineiro lançando perfume no ar. Fiquei louco. Arranquei umas flores do jasmineiro e saí cheirando aquilo, aspirando aquilo que senti como um veneno. É que o cheiro do jasmim parece suave de longe. Quando você aspira ele se torna selvagem. Aquilo me envenenou. Entrei no meu carro doidão porque havia tomado um porre de jasmim e vim embora para casa. Aí, quando cheguei em casa, dormi e no dia seguinte escrevi um poema sobre aquele barato. E aquele jasmineiro está lá há anos e nunca me provocara tal sensação e de repente naquela noite provocou. Ou seja, é uma coisa que não tem controle. Eu jamais escreverei um poema pela simples ideia de que faz tempo que não escrevo um poema. E acho que ninguém escreve assim. Se escrever, não dá certo. Não estou falando de inspiração, mas é um acontecimento de caráter psicológico ou existencial que provoca um relâmpago, um curto-circuito. Na verdade, eu vou te dizer uma coisa: você não escreve a verdade do jasmim. Você inventa uma verdade para o jasmim. Porque a vida é uma invenção. O homem inventa a si mesmo permanentemente. E inventa a vida dele. Então o poema não é o registro da experiência do poeta. Não. A experiência da vida provoca uma invenção. E você cria um artefato que passa a ser a expressão verbal da experiência mas que não é ela.

Gostaria que o senhor me contasse aquela história do extintor de incêndio, que virou um paradigma para os críticos da arte contemporânea.
Eu estava visitando um museu em Paris. Numa das salas, havia uma exposição de arte contemporânea, objetos, instalações, aquelas coisas. Em certo momento, uma senhora se defrontou com um extintor na parede e começou a discutir com o marido se era obra ou não. E eu próprio não sabia dizer. Foi isso que aconteceu. De fato eu sou bastante crítico a este tipo de arte. Não acho que seja uma embromação ou uma fraude, nada disso. Acho que se trata de um fenômeno decorrente de um processo histórico e cultural. É uma coisa bastante complexa. E que tem essencialmente a ver com a ruptura da linguagem artística e com uma mudança no mundo em relação à desvalorização da fantasia e do imaginário em função de uma arte pretensamente objetiva, como a de Mondrian ou Duchamp. Uma arte sem ilusão, sem fantasia. Mas eu sou a favor da fantasia… Este processo conduziu à desintegração da linguagem. E era inevitável, porque se eu decidir usar a minha linguagem verbal para não dizer as coisas mas somente para brincar com as relações entre as palavras, eu vou desintegrar a linguagem no final. Vira o caos. E foi isso o que aconteceu com a arte dita contemporânea. Eu costumo brincar, de modo sarcástico, que esta arte é a Caninha 51, porque como ela não tem linguagem, é só uma boa ideia. Outro dia eu fui a uma loja especializada em cabides. Só tinha cabides. Daí eu pensei: “Vou fazer uma instalação com esses cabides”. Imagine cinco mil cabides de formas e cores diferentes formando uma composição. É uma boa ideia. É muito diferente de como nasceu “Guernica” ou “As Meninas”, de Velázquez. O interessante é que é um desvio que só perdurou nas artes plásticas. Nos outros campos da atividade artística, esta ruptura não sobreviveu. Na literatura, chegou até à loucura de “Finnegans Wake”. Mas você já imaginou se a literatura tivesse seguido o caminho de “Finnegans Wake”?

Acabava.
Sim. Você não teria Borges nem Faulkner nem Guimarães Rosa. Nem Graciliano, García Marquez nem… toda a literatura moderna pós-anos 30. Aquilo foi um experiência específica do Joyce, mas ele próprio disse que, depois do “Finnegans Wake” a próxima obra dele seria de uma claridade absoluta. É claro. Porque depois daquilo não havia nada. Era o fim do túnel. Só tinha rocha. Outro dia eu vi uma entrevista da Camille Paglia dizendo para os artistas de hoje que foram contemporâneos dela, iconoclastas e rebeldes na juventude: “Pessoal, nós estamos no ano 2001. Já faz quarenta anos desta brincadeira. Chega. Vamos fazer obra para perdurar? Vamos buscar a beleza de novo? Vamos restituir a fantasia? A arte.”

Por fim, eu gostaria de saber como é ser uma celebridade literária no Brasil. Isso o incomoda?
Eu recebo muitos livros de autores novos e não tenho como ler. Eu entendo que as pessoas me mandem, só que eu não tenho tempo. Meu barato é trabalhar a minha literatura e ler os livros que eu quero ler. Sinto até um certo remorso por não dar tanta atenção quando deveria, mas eu não posso. De vez em quando, quando me deparo com algo que tem qualidade, até escrevo para o poeta. Mas isso é raro. A maioria não é coisa legal. Agora, na rua, as pessoas me reconhecem pelo meu cabelo. Tanto que comecei a andar com um boné para ter sossego. Porque às vezes as pessoas abordam para falar uma banalidade, uma coisa à toa. É dispensável. Legal mesmo foi um bêbado aqui em Copacabana, que estava chutando uns carros, doidão. Eu saí para comprar um remédio e quando ele me viu, gritou: “Ferreira Gullar, famoso e eu não sei quem é!”.

* Esta entrevista originalmente foi concedida a Paulo Polzonoff Jr, em 2005, para a revista Et Cetera, número 6.

Texto e imagem reproduzidos do site: revistaideias.com.br