“Com base na declaração de Bakthin, pode-se afirmar que ler não é unicamente decodificar os símbolos gráficos, é também interpretar o mundo em que vivemos”. (Patrícia F. Bianchini)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Ferreira Gullar dentro da vida veloz

Gullar, sem dúvida, deixou uma obra poética que 
terá como legado a imortalidade.
Foto: Divulgação.

Publicado originalmente pelo Portal Dom Total, em  05/12/2016.

Ferreira Gullar dentro da vida veloz.

O país fica menos poético com a partida do poeta maranhense autor de "Poema Sujo".


Por Ricardo Soares*

A ceifadeira da morte, que esse ano trabalhou inclemente, acaba de nos levar o poeta Ferreira Gullar e, piegas ou não, é mister dizer que o país fica menos poético com a partida do poeta maranhense autor do seminal "Poema Sujo" entre outras maravilhas que concebeu em quase 70 anos de poesia desde "Um pouco acima do chão" de 1949.

Nos últimos anos parte da esquerda e o Fla-Flu político generalizado colocou Gullar na vala comum dos imbecis, dos atrasados, dos equivocados como se fosse bom negócio julgar o mérito de um artista por suas convicções políticas. Mas isso não causa estranheza na medida em que parte dessa mesma esquerda, completamente equivocada, considera o pusilânime Ciro Gomes como alternativa presidencial.

O debate que se travou nas redes sociais a partir da morte de Gullar é constrangedor, principalmente porque tanto seus detratores quanto os defensores dão claras mostras de jamais terem lido um único verso dele, reduzindo-o a uma espécie de porta-voz de conveniências. A que ponto chegamos quando o vigor poético de um país se mede com essa régua.

Profissionalmente estive com Ferreira Gullar uma meia dúzia de vezes durante a vida. A última creio que no dia 13 de março de 2004, no seu apartamento de Copacabana, rodeado de gatos, livros de arte e, lógico, poesia. Me autografou a 11º edição do seu " Toda Poesia", editado pela José Olympio e me concedeu uma bela entrevista para o programa televisivo "Mundo da Literatura" que eu então dirigia e apresentava.

A essa altura da pobreza e estreiteza educacional e intelectual brasileira é muito triste ver a que ponto reduzimos Ferreira Gullar. É de se lamentar o pouco conhecimento que se tem dele nas escolas e universidades como lembrou ontem em entrevista à rádio Bandnews o escritor e professor Deonísio da Silva, que bem recorda que quando muito se ensina – e ainda à base de resumos - a poesia modernista pós semana de 1922. Se não chegamos ainda nem a Gullar que dirá aos poetas que hoje estão vivos e bem dispostos, produzindo.

Fosse ser refém do desalento nacional, do pouco apreço às palavras e aos versos  talvez Gullar tivesse durado menos que os 86 anos que viveu.  Não tenho aqui a menor pretensão de escrever algo muito original a seu respeito. Há gente mais capacitada para isso. Mas faço questão de pedir respeito ao morto não porque morto está. Mas porque, sem dúvida, deixou uma obra poética que terá como legado a imortalidade.

*Ricardo Soares é escritor, diretor de TV, roteirista e jornalista. 

Texto e imagem reproduzidos do site: domtotal.com

Morre o poeta Ferreira Gullar, aos 86 anos


Publicado originalmente no site Metrópoles, em 04/12/2016.

Morre o poeta Ferreira Gullar, aos 86 anos.

Escritor, poeta, dramaturgo e crítico, Ferreira Gullar morreu aos 86 anos,
no Rio de Janeiro

Ferreira Gullar, reconhecido poeta, crítico de arte e dramaturgo, morreu neste domingo (4/12), aos 86 anos. As causas do falecimento ainda não foram divulgadas. O escritor estava internado no hospital Copa D’Or, no Rio de Janeiro. Em 2014, o autor foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. Ao longo da carreira, acumulou vários prêmios, como Jabuti e Camões.

Um dos fundadores do neoconcretismo, Ferreira Gullar foi um personagem intensamente ativo na cultura brasileira. Nascido em São Luís (Maranhão), mudou-se para o Rio nos anos 1950 e ajudou a formar os pilares iniciais da chamada poesia concreta ao lado dos artistas Lígia Clark e Hélio Oiticica.

Exílio e “Poema Sujo”.

Nos anos 1970, teve que se exilar durante a ditadura militar por sua filiação ao Partido Comunista. Ao retornar ao Brasil, em 1977, chegou a ser preso, mas depois conseguiu retomar a carreira. Foi durante o refúgio na Argentina que ele publicou um de seus livros mais importantes.

“Poema Sujo” (1976) mistura autobiografia com um balanço dos tempos sombrios vividos pelo Brasil e pela América Latina. O livro ganhou reedição caprichada em 2016 pela editora Companhia das Letras, com apresentação do próprio poeta e introdução de Antônio Cícero.

Prêmios.

Entre os vários prêmios e láureas obtidos, Ferreira Gullar foi indicado ao Prêmio Nobel de Literatura em 2002. Venceu o prêmio Jabuti de melhor ficção em 2007 pelo livro “Resmungos”, em que reúne crônicas publicadas no jornal “Folha de S. Paulo”. Em 2011, tornou a conquistar a honra pelo livro de poesia “Em Alguma Parte Alguma”.

Em 2010, ganhou o importante Prêmio Camões, destinado a escritores de língua portuguesa. Gullar também recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), por meio da Faculdade de Letras da instituição.

Texto e imagem reproduzidos do site: metropoles.com

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Morre o escritor italiano Umberto Eco


Morre o escritor italiano Umberto Eco.

O escritor italiano Umberto Eco, autor de O Nome da Rosa, entre outros, morreu ontem (19), aos 84 anos. A informação foi confirmada pela família do escritor ao jornal italiano La Repubblica.

Semiólogo, filósofo, escritor e professor universitário, Umberto Eco nasceu em 5 de janeiro de 1932 na cidade de Alexandria, na região italiana do Piemonte.

Contrariando o desejo do pai de que se tornasse advogado, Eco estudou filosofia e literatura na Universidade de Turim, de onde se tornou professor. Também foi editor de cultura da RAI, emissora estatal italiana. Em 1956, lançou seu primeiro livro Il Problema Estetico di San Tommaso (não editado no Brasil).

Em 1988 fundou o Departamento de Comunicação da Universidade de San Marino.

Sua obra de maior sucesso, O Nome da Rosa, foi publicada em 1980 e adaptada para o cinema em 1986 por Jean-Jacques Annaud, com Sean Connery no papel principal. O livro lhe rendeu o Prémio Strega, em 1981, e foi sua estreia na ficção. Entre outras obras de destaque de Eco estão títulos como O Pêndulo de Foucault, A Ilha do Dia Antes, Baudolino, A Misteriosa Chama da Rainha Loana e O Cemitério de Praga.

Umberto Eco também é autor de importantes obras e ensaios acadêmicos, como Apocalípticos e Integrados (1964), que se tornou referência na literatura de cursos de comunicação. Seu último livro, Número Zero, foi lançado em 2015. Eco, que lecionou entre outras, nas universidades norte-americanas de Yale e Harvard, assim como no Collège de France, é autor de uma vasta bibliografia teórico e é autor, entre outros, de O Signo, Os Limites da Interpretação, Kant e o Ornitorrinco, Seis Passeios no Bosque da Ficção e Como se Faz uma Tese em Ciências Humanas.

Desde 2008, Eco era professor emérito e presidente da Escola Superior de Estudos Humanísticos da Universidade de Bolonha. Em 2014, Umberto Eco Eco recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A universidade brasileira foi a 40ª a conceder o título ao intelectual italiano e a primeira instituição do país.

Texto e imagem reproduzidos do site: ajn1.com.br

Da Agência Brasil

Foto: Corriere della Sera

Umberto Eco: "Informação demais faz mal".

O pensador e romancista italiano Umberto Eco. Ele desconfia da internet.
Foto: Eric Fougere/VIP Images/Corbis.

Publicado originalmente no site da Revista Época, em 19/02/2016.

Ideias. 

Umberto Eco: "Informação demais faz mal".

O escritor italiano diz que a internet é perigosa para o ignorante e útil para o sábio – ela não filtra o conhecimento e congestiona a memória do usuário.

Luís Antônio Giron, de Milão. 

(Entrevista originalmente publicada na revista Época em 2011).

O escritor Umberto Eco vive com a mulher num apartamento duplo nos 2° e 3°andares de um prédio antigo, de frente para o Palácio Sforzesco, o mais vistoso ponto turístico de Milão. É como se Alice Munro morasse defronte à Canadian Tower em Toronto, Haruki Murakami instalasse sua casa no sopé do Monte Fuji ou então Paulo Coelho mantivesse uma mansão na Urca, à sombra do Pão de Açúcar. “Acordo todo dia com a Renascença”, diz Eco. A enorme fortificação diante de suas janelas foi inaugurada pelo duque Francisco Sforza no século XV e está sempre lotada de turistas. O castelo deve também abrir seus portões pela manhã com uma sensação parecida. Diante dele, vive o intelectual e romancista mais famoso da Itália.

Um dos andares da casa de Eco é dedicado ao escritório e à biblioteca. São quatro salas repletas de livros, divididas por temas e por autores em ordem alfabética. A sala em que trabalha é pequena. Abriga aquilo que ele chama de “ala das ciências banidas”, como ocultismo, sociedades secretas, mesmerismo, esoterismo e bruxaria. Ali estão as fontes principais dos romances de sucesso de Eco: O nome da rosa (1980), O pêndulo de Foucault (1988), A ilha do dia anterior (1994), Baudolino (2000), A misteriosa chama da rainha Loana (2004) e O cemitério de Praga. Publicado em 2010 e lançado com sucesso no Brasil em 2011, o livro provocou polêmica por tratar de forma humorística um assunto sério: o surgimento do antissemitismo na Europa. Por motivos diversos, protestaram a Igreja Católica e o rabino de Roma. A primeira porque Eco satirizava os jesuítas (“São maçons de saia”, diz o personagem principal, o odioso tabelião Simone Simonini). O segundo porque as teorias conspiratórias forjadas no século XIX – como a fraude que ficou conhecida como Os Protocolos dos Sábios do Sião – poderiam gerar uma onda de ódio aos judeus. Desde o início da carreira, em 1962, com o ensaio estético Obra aberta, Eco gosta de provocar esse tipo de reação. Parece não perder o gosto pelo barulho. De muito bom humor, ele conversou com ÉPOCA durante duas horas sobre a idade, o gênero que inventou – o suspense erudito –, a decadência europeia e seu assunto mais constante nos últimos anos: a morte do livro. É difícil de acreditar, mas aquele que era visto como o maior inimigo da leitura pelo computador está revendo suas posições. Ele diz agora que está até gostando de ler livros pelo iPad, que comprou durante sua última turnê pelos Estados Unidos, em dezembro.

ÉPOCA – Como o senhor se sentiu após completar 80 anos?
Umberto Eco – Bem mais velho! (risos) Vamos nos tornando importantes com a idade, mas não me sinto importante nem velho. Não posso reclamar de rotina. Minha vida é agitada. Ainda mantenho uma cátedra no Departamento de Semiótica e Comunicação da Universidade de Bolonha e continuo orientando doutorandos e pós-doutorandos. Dou muita palestra pelo mundo afora.

ÉPOCA – O senhor tem sido um dos mais ferrenhos defensores do livro em papel. Sua tese é que o livro não acabará. Mesmo assim, estamos assistindo à popularização dos leitores digitais e tablets. O livro em papel ainda tem sentido?
Eco – Sou colecionador de livros. Defendi a sobrevivência do livro ao lado de Jean-Claude Carrière no volume Não contem com o fim do livro. Fizemos isso por motivos estéticos e gnoseológicos (relativo ao conhecimento). O livro ainda é o meio ideal para aprender. Não precisa de eletricidade, e você pode riscar à vontade. Achávamos impossível ler textos no monitor do computador. Mas isso faz dois anos. Em minha viagem pelos Estados Unidos, precisava carregar 20 livros comigo, e meu braço não me ajudava. Por isso, resolvi comprar um iPad. Foi útil na questão do transporte dos volumes. Comecei a ler no aparelho e não achei tão mau. Aliás, achei ótimo. E passei a ler no iPad, você acredita? Pois é. Mesmo assim, acho que os tablets e e-books servem como auxiliares de leitura. São mais para entretenimento que para estudo. Gosto de riscar, anotar e interferir nas páginas de um livro. Isso ainda não é possível fazer num tablet.

ÉPOCA – Apesar da evolução, o senhor vê a internet como um perigo para o saber?
Eco – A internet não seleciona a informação. Há de tudo por lá. A Wikipédia presta um desserviço ao internauta. Outro dia publicaram fofocas a meu respeito, e tive de intervir e corrigir os erros e absurdos. A internet ainda é um mundo selvagem e perigoso. Tudo surge lá sem hierarquia. A imensa quantidade de coisas que circula é pior que a falta de informação. O excesso de informação provoca a amnésia. Informação demais faz mal. Quando não lembramos o que aprendemos, ficamos parecidos com animais. Conhecer é cortar, é selecionar. Vamos tomar como exemplo o ditador e líder romano Júlio César e como os historiadores antigos trataram dele. Todos dizem que foi importante porque alterou a história. Os cronistas romanos só citam sua mulher, Calpúrnia, porque esteve ao lado de César. Nada se sabe sobre a viuvez de Calpúrnia. Se costurou, dedicou-se à educação ou seja lá o que for. Hoje, na internet, Júlio César e Calpúrnia têm a mesma importância. Ora, isso não é conhecimento.

ÉPOCA – Mas o conhecimento está se tornando mais acessível com a internet. O senhor não acha que o acesso a bancos de dados de instituições confiáveis altera nossa noção de cultura?
Eco – Sim, é verdade. Se você sabe quais os sites e bancos de dados são confiáveis, você tem acesso ao conhecimento. Mas veja bem: você e eu somos ricos de conhecimento. Podemos aproveitar melhor a internet do que aquele pobre senhor que está comprando salame na feira aí em frente. Nesse sentido, a televisão era útil para o ignorante, porque selecionava a informação de que ele poderia precisar, ainda que informação idiota. A internet é perigosa para o ignorante porque não filtra nada para ele. Ela só é boa para quem já conhece – e sabe onde está o conhecimento. A longo prazo, o resultado pedagógico será dramático. Veremos multidões de ignorantes usando a internet para as mais variadas bobagens: jogos, bate-papos e busca de notícias irrelevantes.
ÉPOCA – Há uma solução para o excesso de informação?
Eco – Seria preciso criar uma teoria da filtragem. Uma disciplina prática, baseada na experimentação cotidiana com a internet. Fica aí uma sugestão para as universidades: elaborar uma teoria e uma ferramenta de filtragem que funcionem para o bem do conhecimento. Conhecer é filtrar.

ÉPOCA – O senhor já está pensando num novo romance?
Eco – Vamos com calma. Mal publiquei um e você já quer outro... Estou sem tempo para ficção no momento. Na verdade, vou me ocupar agora de minha autobiografia intelectual. Fui convidado por uma instituição americana, a Library of Living Philosophers, para elaborar meu percurso filosófico. Fiquei contente com o convite porque passo a fazer parte de um projeto que inclui John Dewey, Jean-Paul Sartre e Richard Rorty – embora eu não seja filósofo. Desde 1939, o instituto convida um pensador vivo para narrar seu percurso intelectual num livro. O volume traz então ensaios de vários especialistas sobre os diversos aspectos da obra do convidado. No final, o convidado responde às dúvidas e às críticas levantadas. O desafio é sistematizar de uma forma lógica tudo o que já fiz...

ÉPOCA – Como lidar com tamanha variedade de caminhos?
Eco – Estou começando com meu interesse constante, desde o começo da carreira, pela Idade Média e pelos romances de Alessandro Manzoni. Depois vieram a semiótica, a teoria da comunicação, a filosofia da linguagem. E há o lado banido, da teoria ocultista, que sempre me fascinou. Tanto que tenho uma biblioteca só do assunto. Adoro a questão do falso. E foi recolhendo montes de teorias esquisitas que cheguei à ideia de escrever O cemitério de Praga.

ÉPOCA – Entre essas teorias, destaca-se a mais célebre das falsificações, Os Protocolos dos Sábios do Sião. Por que o senhor se debruçou sobre um documento tão revoltante para fazer ficção?
Eco – Eu queria investigar como os europeus civilizados se esforçaram em construir inimigos invisíveis no século XIX. E o inimigo sempre figura como uma espécie de monstro: tem de ser repugnante, feio e malcheiroso. De alguma forma, o que causa repulsa no inimigo é algo que faz parte de nós. Foi essa ambivalência que persegui em O cemitério de Praga. Nada mais exemplar que a elaboração das teorias antissemitas, que viriam a desembocar no nazismo do século XX. Em pesquisas, em arquivos e na internet, constatei que o antissemitismo tem origem religiosa, deriva para o discurso de esquerda e, finalmente, dá uma guinada à direita para se tornar a prioridade da ideologia nacional-socialista. Começou na Idade Média a partir de uma visão cristã e religiosa. Os judeus eram estigmatizados como os assassinos de Jesus. Essa visão chegou ao ápice com Lutero. Ele pregava que os judeus fossem banidos. Os jesuítas também tiveram seu papel. No século XIX, os judeus, aparentemente integrados à Europa, começaram a ser satanizados por sua riqueza. A família de banqueiros Rothschild, estabelecida em Paris, virou um alvo do rancor social e dos pregadores socialistas. Descobri os textos de Léo Taxil, discípulo do socialista utópico Fourier. Ele inaugurou uma série de teorias sobre a conspiração judaica e capitalista internacional que resultaria em Os Protocolos dos Sábios do Sião, texto forjado em 1897 pela polícia secreta do czar Nicolau II.

ÉPOCA – O anti-herói de O cemitério de Praga, Simone Simonini, é antissemita, anticlerical, anticapitalista e anticomunista. Como surgiu em sua mente alguém tão abominável?
Eco – Os críticos disseram que Simonini é o personagem mais horroroso da literatura de todos os tempos, e devo concordar com eles. Ele também é muito divertido. Seus excessos estão ali para provocar riso e revolta. No romance, Simonini é a única figura fictícia. Guarda todos os preconceitos e fantasias sobre um inimigo que jamais conhece. E se desdobra em várias personalidades: durante o dia, atua como tabelião falsificador de documentos; à noite, traveste-se em falso padre jesuíta e sai atrás de aventuras sinistras. Acaba virando joguete dos monarquistas, que se opõem à unificação da Itália, e, por fim, dos russos. Imaginei Simonini como um dos autores de Os Protocolos dos Sábios do Sião.

ÉPOCA – A falsificação sobre falsificações permitida pela ficção tornou o livro controverso. O senhor gosta de lidar com polêmicas?
Eco – A recepção tem sido positiva. O livro tem feito sucesso sem precisar de polêmicas. Quando foi lançado na Itália, gerou alguma discussão. O L’Osservatore Romano, do Vaticano, publicou um artigo condenando os ataques do livro aos jesuítas. O rabino de Roma leu O cemitério de Praga e afirmou que as teorias contidas no livro poderiam se popularizar de novo a partir da obra. Disse a ele que não havia tal perigo. Ao contrário, se Simonini serve para algo, é para provocar nossa indignação.

ÉPOCA – Além de falsário, Simonini é gourmet. Ele enumera com volúpia listas de receitas. O senhor gosta de gastronomia?
Eco – Sou McDonald’s! Nunca me incomodei com comida. Pesquisei receitas antigas para causar repugnância no leitor. A gastronomia é um dado negativo na composição do personagem. Quando Simonini discorre sobre pratos esquisitos, o leitor deve sentir o estômago revirado.

ÉPOCA – Apesar da evolução, o senhor vê a internet como um perigo para o saber?
Eco – Faz todo sentido escrever ficção. Não vejo como fazer hoje narrativa experimental, como James Joyce fez com Finnegans wake, para mim a fronteira final da experimentação. Houve um recuo para a narrativa linear e clássica. Comecei a escrever ficção nesse contexto de restauração da “narratividade”, chamado pós-modernismo. Sou considerado um autor pós-moderno – e concordo com isso. Vasculho as formas e os artifícios do romance tradicional. O romance é a realização maior da “narratividade”. Ela abriga o mito, base de nossa cultura. Contar uma história que emocione e transforme quem a absorve é algo que se passa com a mãe e seu filho, o romancista e seu leitor, o cineasta e seu espectador. A força da narrativa é mais eficaz que qualquer tecnologia.

ÉPOCA – Philip Roth disse que a literatura morreu. Qual é sua opinião?
Eco – Roth é um grande escritor. A contar com ele, a literatura não morrerá tão cedo. Publica um bom romance por ano. Não me parece que nem o romance nem ele pretendam interromper a carreira. (risos)

ÉPOCA – O senhor criou o suspense erudito. O modelo é ainda válido?
Eco – Em O nome da rosa, juntei erudição a romance de suspense. O livro ajudou a criar um tipo de literatura que vejo com bons olhos. Há muita coisa boa. Gosto de (Arturo) Pérez-Reverte, com suas fantasias que lembram as aventuras de Dumas, e Emilio Salgari, que eu lia quando menino.

ÉPOCA – Lendo seus seguidores, como Dan Brown, o senhor às vezes não se arrepende de ter criado o suspense erudito?
Eco – Às vezes, sim! (risos) Dan Brown me irrita porque parece um personagem inventado por mim. Em vez de compreender que as teorias conspiratórias são falsas, Brown as assume como verdadeiras, ficando ao lado do personagem, sem questionar nada. É o que faz em O código Da Vinci. É o mesmo contexto de O pêndulo de Foucault. Mas ele parece ter adotado a história para simplificá-la. Isso provoca ondas de mistificação. Há leitores que acreditam em tudo o que Dan Brown escreve – e não posso condená-los.

Texto e imagem reproduzidos do site: epoca.globo.com/ideias

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

domingo, 25 de outubro de 2015

Marcelo Rubens Paiva

Foto: Felipe Redondo.


“A morte do meu pai é algo que não acaba nunca", diz Marcelo Rubens Paiva.


A cara de garoto ainda resiste. Mas o escritor, aos 56 anos, desiste dos excessos, enxerga o passado nos olhos do filho de um ano e celebra a lucidez da “velhice”.

Por Marcos Carneiro.

“Sou um homem geriátrico. Se pudesse, continuava fumando cigarro, maconha e bebendo uísque todos os dias.”

A frase espanta, já que sai de um homem de muitos cabelos, poucos deles grisalhos, camiseta (dos Beatles) e calça folgadas e dono de um apartamento em que autores pops e recentes, como David Foster Wallace, dividem espaço com os gatos Fábio e Hugo (“adoro nome de gente em bicho”), que rasgam os cantos do sofá amarelo. Mas Marcelo Rubens Paiva, ícone da geração que nos anos 1980 deu status de best-seller ao seu primeiro livro, Feliz Ano Velho, não escapa da razão: os planos médicos já classificam os maiores de 49 anos em outro patamar. Às favas com as evoluções intelectual e comportamental dos últimos 25 anos: na letra fria da Agência Nacional de Saúde, ele é velho. A farta cabeleira e os parcos fios brancos não contam. “Me sinto até um aposentado.”

Mentira, claro. Marcelo é uma máquina de produção. De celular na mão, roda a sala povoada de fotografias de gente comum, de cubanos às aldeias indígenas. Não para. É um workaholic. Acaba de lançar um livro, Ainda Estou Aqui. Escreve e dirige peças, além da coluna e do blog no jornal O Estado de S. Paulo. Elabora roteiros para filmes. Vai assinar uma série para o canal Multishow. Cuida do filho Joaquim, de 1 ano. É o responsável legal pela mãe, Eunice, 86 anos, vítima de mal de Alzheimer, interditada judicialmente desde 2008 e figura central de seu último romance – autobiográfico como o primeiro.

Se os dois romances, o primeiro e o último, falam de dor, o escritor/dramaturgo/jornalista se esquiva dela para falar da vida. Não há autocomiseração no homem que, aos 19 anos, descobriu-se tetraplégico depois do salto de uma ponte de cabeça em uma pedra. Ele ri de suas bobagens e de seus foras, muitos deles quando estava bêbado ou com o estado da mente alterado por um baseado. Diz ter descoberto o prazer da lucidez em uma festa em que não havia maconha. Justo ele, que havia fumado o primeiro cigarro de artista aos 14 anos – chapado, conheceu, ainda adolescente, o ex-presidente Lula, na casa da família, quando o então sindicalista visitou a mãe nas conversas que culminaram na anistia e na redemocratização. Já usou cocaína (“entre os anos 1970 e 1980, era uma droga legal. Mas depois ficou baixo-astral. Não uso desde 1985”) e ácido, cuja experiência resultou numa bad trip em pleno Réveillon de Copacabana (“parei do lado de um ambulante com um isopor. Senti uma confiança nele”).

 Ele, no entanto, não se descreve como um velho maconheiro compulsório. “Tinha época que fumava tanta maconha que chegava de manhã listando as bobagens que eu tinha falado, as coisas horríveis que fiz, as caronas que dei sem saber para quem. Já amanheci em lugares que não sabia onde eram. Já tive que perguntar para os porteiros se eles sabiam com quem eu cheguei. Me lembro que fui sóbrio a uma festa. E fiquei completamente apaixonado pelo estado da serenidade e o cérebro conectado com o que estava acontecendo. Eu falei: ‘Nossa, que barato!’. Comecei a achar a lucidez a melhor droga.”

E parou um pouco. Não só com o baseado. Parou de beber. Há três anos. “Eu ficava bêbado três vezes por semana. Tomava uísque, cerveja, vinho. Uísque, cerveja, vinho… [ri]. Estava com glicemia alta, fraqueza nos braços.” Parou de fumar. E parou (um pouco) com a intensidade extrema do viver. “Priorizei uma vida mais caseira, mais desorganizada e caótica – porque o filho traz caos para casa.” Joaquim, diz, é a pessoa mais parecida em sua família com seu pai. O cabelo é loiro; os olhos, claros. O pai – o ex-deputado federal pelo velho PTB Rubens Paiva, desaparecido na ditadura militar, em 1971, e cuja certidão de óbito só foi lavrada em 1996, sem que a família pudesse enterrá-lo – voltou então com força à sua memória. Está no rosto de Joaquim, o menino que percorre a sala com o celular de Marcelo nas mãos, tocando ininterruptamente Do I Wanna Know?, do Arctic Monkeys, a atual favorita do garoto. Será que ele sabe?

“A morte do meu pai é algo que não acaba nunca”, diz o filho, que ainda guarda e usa a gravata herdada do guarda-roupa do velho. Enquanto Joaquim balbuciava os primeiros sons, sentava já sem a ajuda dos adultos e engatinhava pelo apartamento em um condomínio de luxo entre os bairros de Vila Madalena e Sumaré, na zona oeste de São Paulo, a Comissão Nacional da Verdade determinava que a investigação sobre o desaparecimento e morte de Rubens Paiva continuasse. A morte do ex-deputado, de fato, está longe de ser encerrada. “O Ainda Estou Aqui foi ver meu filho, que parecia ter nascido para trazer alguns elementos do meu pai de volta. Quando minha mulher estava no parto, com anestesia peridural, com dificuldade de contração final, a médica fez um ritual quase místico: ‘Vamos pensar no que queremos para essa criança’. Imediatamente, pensei que ela viesse para representar bem o nome do meu pai. E ele nasceu loiro e de olho azul, como meu pai, que era o único da família assim. É a continuação de uma história interrompida bruscamente.”

 Joaquim, filho de Marcelo com a filósofa Silvia Feola, 31 anos, é um capítulo que o escritor jamais pensava em escrever há uma década. Na época, vinculava filhos a desejos femininos. O menino, no entanto, foi a implosão que o autor precisava – uma rotina repartida com alguém que depende totalmente de você. Os brinquedos estão pela sala. Antes de a reportagem chegar, bolas e cacarecos eram recolhidos do chão.

Filhos aos 56 anos são também parte de um recorte geracional. Joaquim veio ao mundo pouco tempo depois de amigos da mesma idade experimentarem a paternidade pela primeira vez. Marcelo agiu inspirado no diretor teatral Raul Barretto, fundador do Espaço Parlapatões, em São Paulo, e no jornalista Otávio Frias Filho, diretor de redação da Folha de S.Paulo. “É o movimento de homens que não priorizaram a vida paterna. São boêmios, um pouco até egocêntricos. Artistas, narcisistas. Fui casado por nove anos com uma psicóloga que não quis ter filho. Ela era de uma geração de mulheres que optou por trabalhar, por ser empreendedora. Tenho quatro irmãs e duas não tiveram filho, mesmo sendo casadas. É um movimento comum da minha geração.”

Mãe da mãe.

O menino não é o único que inspira os cuidados do autor. No mesmo conjunto de prédios que o seu, no bloco ao lado, mora Maria Eunice Beyrodt de Paiva. Aos 86 anos, a matriarca dos Paiva não reconhece mais os filhos, confunde pessoas que já morreram com as vivas e inverte a todo tempo o gênero de Joaquim. Por vezes é ele, em outras, ela.

Eunice sofre de Alzheimer e a família optou por interditá-la judicialmente em 2008, quando ainda estava lúcida. Marcelo tornou-se o responsável legal pela mãe, mas é a irmã Vera quem a leva para executar as questões simples do dia a dia, como cuidar do cabelo, fazer as unhas e ir ao dentista. A família se reúne semanalmente no restaurante ao lado da piscina no conjunto de prédios da zona oeste paulistana. Joaquim é quem mais a vê, todos os dias.

“Ainda Estou Aqui é uma frase que minha mãe falou de verdade, em seu grau avançado de Alzheimer. Quando ela falou, me deu um susto. Era o cérebro dela avisando: ‘Estou incapaz, mas não morta’. Existe um dilema dos familiares de falarem sempre da pessoa no passado. Minha mãe, apesar de não ter nenhuma memória, tem uma dignidade, uma postura no olhar, muito forte. Ela senta na cadeira de rodas com a perninha cruzada, com um olhar sábio, um colarzinho de pérolas. Não tem uma postura de doentinha.”

O livro, que cruza as histórias de Marcelo, Eunice e Joaquim, foi também um jeito de ele contar a experiência de uma família da classe média alta paulistana alterada por um golpe de Estado, como o de 1964. Ele olha para o passado para enxergar heróis diferentes dos que a esquerda e a direita no país escolheram. Para o escritor, seus pais não são apenas heróis domésticos, mas também de uma resistência civil que repudiou os 21 anos de regime militar. “Muitas pessoas acham que a luta contra a ditadura foi executada pelas forças armadas da esquerda. Não foi. Eles queriam lutar contra o sistema capitalista, da influência americana sobre o continente. O que o Zé Dirceu fez para lutar contra a ditadura, o que a Dilma fez? Nada. Foi presa, torturadaça e passou a ditadura presa. Agora, quem lutou contra a ditadura? Foi o Pasquim, foram os editores Ênio da Silveira e Caio Gracco, o Plínio Marcos, a Igreja Católica, o dom Paulo Evaristo Arns, a ABI, a Folha de S.Paulo, o Estadão, o Jornal do Brasil, a VEJA… O Caetano, o Gil, o Oficina, o [Gianfrancesco] Guarnieri, o [Vladimir] Herzog. A minha mãe. Essas pessoas combateram a ditadura – e não a luta armada, que até atrapalhou um pouco. No primeiro Ato Institucional da ditadura, entre as pessoas cassadas não havia um comunista! É uma deturpação absurda do que foi a ditadura, um desconhecimento dos fatos.”

Uma “deturpação” que já causou incidentes, como o com o vocalista do Ultraje a Rigor, Roger Moreira. Em uma guerra pelo Twitter, o roqueiro disse que sua família não sofreu com o regime porque nunca havia “feito merda”. Era uma referência à postura política de Rubens Paiva – que nunca foi comunista e jamais defendeu a luta armada. “E são figuras que foram importantíssimas na luta contra a ditadura. A gente começou a ficar amigo nesses eventos políticos, nas manifestações. De repente, houve uma mudança de parte delas. Eu não entendi e nem os fãs entendem. Tem aquele ditado de ser incendiário na juventude e bombeiro na velhice. Eles lançaram músicas [no passado] que contradizem o que dizem hoje.”

O bode com o momento político passa quando fala de amor. Marcelo Rubens Paiva gosta de namorar. Está casado desde o início da década e rejeita quando lembram de sua fama de pegador. “Todo mundo lembra do Feliz Ano Velho e diz que sou um galinha. Mas eu só falo de três meninas! Fui galinha quando estava solteiro, mas prefiro namorar”, conta o escritor.

Em meio ao caos das pequenas e grandes coisas com que precisava lidar, Marcelo relaxa. Não mais com as drogas, nem mesmo o uísque. Quer saber de mais livros, da paixão imediata pelos ternos de Ricardo Almeida (“sou o ‘homem-moletom’, mas fico lindo de terno e gravata”), do filho e da mulher. O tesão, aos 56 anos, está mais apurado do que nunca, afirma. Nada mal para um homem velho feliz.

Texto e imagem reproduzidos do site: vip.abril.com.br

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Mário Quintana (1906 - 1994)


Mario Quintana

 "Olho em redor do bar em que escrevo estas linhas.
Aquele homem ali no balcão, caninha após caninha,
nem desconfia que se acha conosco desde o início
das eras. Pensa que está somente afogando problemas
dele, João Silva... Ele está é bebendo a milenar
inquietação do mundo!"

Mario de Miranda Quintana nasceu na cidade de Alegrete (RS), no dia 30 de julho de 1906, quarto filho de Celso de Oliveira Quintana, farmacêutico, e de D. Virgínia de Miranda Quintana. Com 7 anos, auxiliado pelos pais, aprende a ler tendo como cartilha o jornal Correio do Povo. Seus pais ensinam-lhe, também, rudimentos de francês.

No ano de 1914 inicia seus estudos na Escola Elementar Mista de Dona Mimi Contino.

Em 1915, ainda em Alegrete, freqüentou a escola do mestre português Antônio Cabral Beirão, onde conclui o curso primário. Nessa época trabalhou na farmácia da família. Foi matriculado no Colégio Militar de Porto Alegre, em regime de internato, no ano de 1919. Começa a produzir seus primeiros trabalhos, que são publicados na revista Hyloea, órgão da Sociedade Cívica e Literária dos alunos do Colégio.

Por motivos de saúde, em 1924 deixa o Colégio Militar. Emprega-se na Livraria do Globo, onde trabalha por três meses com Mansueto Bernardi. A Livraria era uma editora de renome nacional.

No ano seguinte, 1925, retorna a Alegrete e passa a trabalhar na farmácia de seu pai. No ano seguinte sua mãe falece. Seu conto, A Sétima Personagem, é premiado em concurso promovido pelo jornal Diário de Notícias, de Porto Alegre.

O pai de Quintana falece em 1927. A revista Para Todos, do Rio de Janeiro, publica um poema de sua autoria, por iniciativa do cronista Álvaro Moreyra, diretor da citada publicação.

Em 1929, começa a trabalhar na redação do diário O Estado do Rio Grande, que era dirigida por Raul Pilla. No ano seguinte a Revista do Globo e o Correio do Povo publicam seus poemas.

Vem, em 1930, por seis meses, para o Rio de Janeiro, entusiasmado com a revolução liderada por Getúlio Vargas, também gaúcho, como voluntário do Sétimo Batalhão de Caçadores de Porto Alegre.

Volta a Porto Alegre, em 1931, e à redação de O Estado do Rio Grande.

O ano de 1934 marca a primeira publicação de uma tradução de sua autoria: Palavras e Sangue, de Giovanni Papini. Começa a traduzir para a Editora Globo obras de diversos escritores estrangeiros: Fred Marsyat, Charles Morgan, Rosamond Lehman, Lin Yutang, Proust, Voltaire, Virginia Woolf, Papini, Maupassant, dentre outros. O poeta deu uma imensa colaboração para que obras como o denso Em Busca do Tempo Perdido, do francês Marcel Proust, fossem lidas pelos brasileiros que não dominavam a língua francesa.

Retorna à Livraria do Globo, onde trabalha sob a direção de Érico Veríssimo, em 1936.

Em 1939, Monteiro Lobato lê doze quartetos de Quintana na revista lbirapuitan, de Alegrete, e escreve-lhe encomendando um livro. Com o título  Espelho Mágico o livro vem a ser publicado em 1951, pela Editora Globo.

A primeira edição de seu livro  A Rua dos Cataventos, é lançada em 1940 pela Editora Globo. Obtém ótima repercussão e seus sonetos passam a figurar em livros escolares e antologias.

Em 1943, começa a publicar o Do Caderno H, espaço diário na Revista Província de São Pedro.

Canções, seu segundo livro de poemas, é lançado em 1946 pela Editora Globo. O livro traz ilustrações de Noêmia.

Lança, em 1948, Sapato Florido, poesia e prosa, também editado pela Globo. Nesse mesmo ano é publicado O Batalhão de Letras, pela mesma editora.

Seu quinto livro, O Aprendiz de Feiticeiro, versos, de 1950, é uma modesta plaquete que, no entanto, obtém grande repercussão nos meios literários. Foi publicado pela Editora Fronteira, de Porto Alegre.

Em 1951 é publicado, pela Editora Globo, o livro Espelho Mágico, uma coleção de quartetos, que trazia na orelha comentários de Monteiro Lobato.

Com seu ingresso no Correio do Povo, em 1953, reinicia a publicação de sua coluna diária Do Caderno H (até 1967). Publica, também, Inéditos e Esparsos, pela Editora Cadernos de Extremo Sul - Alegrete (RS).

Em 1962, sob o título Poesias, reúne em um só volume seus livros A Rua dos Cataventos, Canções, Sapato Florido, espelho Mágico e O Aprendiz de Feiticeiro, tendo a primeira edição, pela Globo, sido patrocinada pela Secretaria de Educação e Cultura do Rio Grande do Sul.

Com 60 poemas inéditos, organizada por Rubem Braga e Paulo Mendes Campos, é publicada sua Antologia Poética, em 1966, pela Editora do Autor - Rio de Janeiro. Lançada para comemorar seus 60 anos, em 25 de agosto o poeta é saudado na Academia Brasileira de Letras por Augusto Meyer e Manuel Bandeira, que recita o seguinte poema, de sua autoria, em homenagem a Quintana:

Meu Quintana, os teus cantares
Não são, Quintana, cantares:
São, Quintana, quintanares.

Quinta-essência de cantares...
Insólitos, singulares...
Cantares? Não! Quintanares!

Quer livres, quer regulares,
Abrem sempre os teus cantares
Como flor de quintanares.

São cantigas sem esgares.
Onde as lágrimas são mares
De amor, os teus quintanares.

São feitos esses cantares
De um tudo-nada: ao falares,
Luzem estrelas luares.

São para dizer em bares
Como em mansões seculares
Quintana, os teus quintanares.

Sim, em bares, onde os pares
Se beijam sem que repares
Que são casais exemplares.

E quer no pudor dos lares.
Quer no horror dos lupanares.
Cheiram sempre os teus cantares

Ao ar dos melhores ares,
Pois são simples, invulgares.
Quintana, os teus quintanares.

Por isso peço não pares,
Quintana, nos teus cantares...
Perdão! digo quintanares.


A Antologia Poética recebe em dezembro daquele ano o Prêmio Fernando Chinaglia, por ter sido considerado o melhor livro do ano. Recebe inúmeras homenagens pelos seus 60 anos, inclusive crônica de autoria de Paulo Mendes Campos publicada na revista Manchete no dia 30 de julho.

Preso à sua querida Porto Alegre, mesmo assim Quintana fez excelentes amigos entre os grandes intelectuais da época. Seus trabalhos eram elogiados por Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Morais, Cecília Meireles e João Cabral de Melo Neto, além de Manuel Bandeira. O fato de não ter ocupado uma vaga na Academia Brasileira de Letras só fez aguçar seu conhecido humor e sarcasmo. Perdida a terceira indicação para aquele sodalício, compôs o conhecido

Poeminho do Contra

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão...
Eu passarinho!

(Prosa e Verso, 1978)

A Câmara de Vereadores da capital do Rio Grande do Sul — Porto Alegre — concede-lhe o título de Cidadão Honorário, em 1967. Passa a publicar Do Caderno H no Caderno de Sábado do Correio do Povo (até 1980).

Em 1968, Quintana é homenageado pela Prefeitura de Alegrete  com  placa de bronze na praça principal da cidade, onde estão palavras do poeta: "Um engano em bronze, um engano eterno".  Falece seu irmão Milton, o mais velho.

1973. Nesse ano o poeta e prosador lançou, pela Editora Globo — Coleção Sagitário — o livro Do Caderno H. Nele estão seus pensamentos sobre poesia e literatura, escritos desde os anos 40, selecionados pelo autor.

Em 1975 publica o poema infanto-juvenil Pé de Pilão, co-edição do Instituto Estadual do Livro com a Editora Garatuja, com introdução de Érico Veríssimo. Obtém extraordinária acolhida pelas crianças.

Quintanares é impresso em 1976, em edição especial, para ser distribuído aos clientes da empresa de publicidade e propaganda MPM. Por ocasião de seus 70 anos, o poeta é alvo de excepcionais homenagens. O Governo do Estado concede-lhe a medalha do Negrinho do Pastoreio — o mais alto galardão estadual. É lançado o seu livro de poemas Apontamentos de História Sobrenatural, pelo Instituto Estadual do Livro e Editora Globo.

A Vaca e o Hipogrifo, segunda seleção de crônicas, é publicado em 1977 pela Editora Garatuja. O autor recebe o Prêmio Pen Club de Poesia Brasileira, pelo seu livro Apontamentos de História Sobrenatural.

Em 1978 falece, aos 83 anos, sua irmã D. Marieta Quintana Leães. Realiza-se o lançamento de Prosa & Verso, antologia para didática, pela Editora Globo. Publica Chew me up slowly, tradução Do Caderno H por Maria da Glória Bordini e Diane Grosklaus para a Editora Globo e Riocell (indústria de papel).

Na Volta da Esquina, coletânea de crônicas que constitui o quarto volume da Coleção RBS, é lançado em 1979, Editora Globo. Objetos Perdidos y Otros Poemas é publicado em Buenos Aires, tradução de Estela dos Santos e organização de Santiago Kovadloff.

Seu novo livro de poemas é publicado pela L&PM Editores - Porto Alegre, em 1980: Esconderijos do Tempo. Recebe, no dia 17 de julho, o Prêmio Machado de Assis conferido pela Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra. Participa, com Cecília Meireles, Henrique Lisboa e Vinicius de Moraes, do sexto volume da coleção didática Para Gostar de Ler, Editora Ática.

Em 1981, participa da Jornada de Literatura Sul Rio-Grandense, uma iniciativa da Universidade de Passo Fundo e Delegacia da Educação do Rio Grande do Sul. Recebe de quase 200 crianças botões de rosa e cravos, em homenagem que lhe é prestada, juntamente com José Guimarães e Deonísio da Silva, pela Câmara de Indústria, Comércio, Agropecuária e Serviços daquela cidade. No Caderno Letras & Livros do Correio do Povo, reinicia a publicação Do Caderno H. Nova Antologia Poética é publicada pela Editora Codecri - Rio de Janeiro.

O autor recebe o título de Doutor Honoris Causa, concedido pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, no dia 29 de outubro de 1982.

É publicado, em 1983, o IV volume da coleção Os Melhores Poemas, que homenageia Mario Quintana, uma seleção de Fausto Cunha para a Global Editora - São Paulo. Na III Festa Nacional do disco, em Canela (RS), é lançado um álbum duplo: Antologia Poética de Mario Quintana, pela gravadora Polygram. Publicação de Lili Inventa o Mundo, Editora Mercado Aberto - Porto Alegre, seleção de Mery Weiss de textos publicado em Letras & Livros e outros livros do autor. Por aprovação unânime da Assembléia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul, o prédio do antigo Hotel Magestic (onde o autor viveu por muitos e muitos anos), tombado como patrimônio histórico do Estado em 1982, passa a denominar-se Casa de Cultura Mário Quintana.

Em 1984 ocorrem os lançamentos de Nariz de Vidro, seleção de textos de Mery Weiss, Editora Moderna - São Paulo, e O Sapo Amarelo, Editora Mercado Aberto - Porto Alegre.

O álbum Quintana dos 8 aos 80 é publicado em 1985, fazendo parte do Relatório da Diretoria da empresa SAMRIG, com texto analítico e pesquisa de Tânia Franco Carvalhal, fotos de Liane Neves e ilustrações de Liana Timm.

Ao completar 80 anos, em 1986, é publicada a coletânea 80 Anos de Poesia, organizada por Tânia Carvalhal, Editora Globo. Recebe o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade do Vale dos Sinos (UNISINOS) e pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Lança Baú de Espantos, pela Editora Globo, uma reunião de 99 poemas inéditos.

Em 1987, são publicados Da Preguiça como Método de Trabalho, Editora Globo, uma coletânea de crônicas publicadas em Do Caderno H, e Preparativos de Viagem, também pela Globo, reflexões do poeta sobre o mundo.

Porta Giratória, pela Editora Globo - Rio de Janeiro, é lançada em 1988, uma reunião de crônicas sobre o cotidiano, o tempo, a infância e a morte.

Em 1989 ocorre o lançamento de A Cor do Invisível pela Editora Globo - Rio de Janeiro. Recebe o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Campinas (UNICAMP) e pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É eleito o Príncipe dos Poetas Brasileiros, entre escritores de todo o Brasil.

Velório sem Defunto, poemas inéditos, é lançado pela Mercado Aberto em 1990.

Em 1992, a editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) reedita, em comemoração aos 50 anos de sua primeira publicação, A Rua dos Cataventos.

Poemas inéditos são publicados no primeiro número da Revista Poesia Sempre, da Fundação Biblioteca Nacional/Departamento Nacional do Livro, em 1993. Integra a antologia bilíngüe Marco Sul/Sur - Poesia, publicada Editora Tchê!, que reúne a poesia de brasileiros, uruguaios e argentinos. Seu texto Lili Inventa o Mundo montado para o teatro infantil, por Dilmar Messias. Treze de seus poemas são musicados pelo maestro Gil de Rocca Sales, para o recital de canto Coral Quintanares - apresentado pela Madrigal de Porto Alegre no dia 30 de julho (seu aniversário) na Casa de Cultura Mario Quintana.

Alguns de seus textos são publicados na revista literária Liberté - editada em Montreal, Quebec, Canadá - que dedicou seu 211o número à literatura brasileira (junto com Assis Brasil e Moacyr Scliar), em 1994. Publicação de Sapato Furado, pela editora FTD - antologia de poemas e prosas poéticas, infanto - juvenil. Publicação pelo IEL, de Cantando o Imaginário do Poeta, espetáculo musical apresentado no Teatro Bruno Kiefer pelo Coral da Casa de Cultura Mário Quintana, constituído de poemas  musicados pelo maestro Adroaldo Cauduro, regente do mesmo Coral.

Falece, em Porto Alegre, no dia 5 de maio de 1994, próximo de seus 87 anos, o poeta e escritor Mario Quintana.

Escreveu Quintana:

"Amigos não consultem os relógios quando um dia me for de vossas vidas... Porque o tempo é uma invenção da morte: não o conhece a vida - a verdadeira - em que basta um momento de poesia para nos dar a eternidade inteira".

E, brincando com a morte: "A morte é a libertação total: a morte é quando a gente pode, afinal, estar deitado de sapatos".

Bibliografia:

- Em português:

- A Rua dos Cata-ventos (1940)
- Canções (1946)
- Sapato Florido (1948)
- O Batalhão de Letras (1948)
- O Aprendiz de Feiticeiro (1950)
- Espelho Mágico (1951)
- Inéditos e Esparsos (1953)
- Poesias (1962)
- Antologia Poética (1966)
- Pé de Pilão (1968) - literatura infanto-juvenil
- Caderno H (1973)
- Apontamentos de História Sobrenatural (1976)
- Quintanares (1976) - edição especial para a MPM Propaganda.
- A Vaca e o Hipogrifo (1977)
- Prosa e Verso (1978)
- Na Volta da Esquina (1979)
- Esconderijos do Tempo (1980)
- Nova Antologia Poética (1981)
- Mario Quintana (1982)
- Lili Inventa o Mundo (1983)
- Os melhores poemas de Mario Quintana (1983)
- Nariz de Vidro (1984)
- O Sapato Amarelo (1984) - literatura infanto-juvenil
- Primavera cruza o rio (1985)
- Oitenta anos de poesia (1986)
- Baú de espantos ((1986)
- Da Preguiça como Método de Trabalho (1987)
- Preparativos de Viagem (1987)
- Porta Giratória (1988)
- A Cor do Invisível (1989)
- Antologia poética de Mario Quintana (1989)
- Velório sem Defunto (1990)
- A Rua dos Cata-ventos (1992) - reedição para os 50 anos da 1a. publicação.
- Sapato Furado (1994)
- Mario Quintana - Poesia completa (2005)
- Quintana de bolso (2006)

No exterior:

- Em espanhol:
- Objetos Perdidos y Otros Poemas (1979) - Buenos Aires - Argentina.
- Mario Quintana. Poemas (1984) - Lima, Peru.

Participação em Antologias:

No Brasil:

- Obras-primas da lírica brasileira (1943)
- Coletânea de poetas sul-rio-grandenses. 1834-1951 - (1952)
- Antologia da poesia brasileira moderna. 1922-1947 - (1953)
- Poesia nossa (1954)
- Antologia poética para a infância e a juventude (1961)
- Antologia da moderna poesia brasileira (1967)
- Antologia dos poetas brasileiros  (1967)
- Poesia moderna (1967)
- Porto Alegre ontem e hoje (1971)
- Dicionário antológico das literaturas portuguesa e brasileira (1971)
- Antologia da estância da poesia crioula (1972)
- Trovadores do Rio Grande do Sul (1972)
- Assim escrevem os gaúchos (1976)
- Antologia da literatura rio-grandense contemporânea - Poesia e crônica (1979)
- Histórias de vinho (1980)
- Para gostar de ler: Poesias (1980)
- Te quero verde. Poesia e consciência ecológica (1982)

No Exterior:

- La poésie brésilienne, 1930-1940 - Rio de Janeiro (para circulação no exterior) (1941)
- Brazilian literature. An outline. - New York (1945)
- Poesía brasileña contemporánea, 1920-1946 - Montevideo (1947)
- Antologia de la poesía brasileña - Madrid (1952)
- La poésie brésilliene contemporaine - Paris (1954)
- Un secolo di poesia brasiliana - Siena (1954)
- Antología  de la poesía brasileña - Buenos Aires (1959)
- Antología de la poesía brasileña. Desde el Romanticismo a la Generación de Cuarenta y Cinco - Barcelona (1973)
- Chew me up slowly - Porto Alegre (para circulação no exterior) (1978)
- Las voces solidarias - Buenos Aires (1978)

Traduções:

PAPINI, Giovanni. Palavras e sangue. Porto Alegre: Globo, 1934.
MARSYAT, Fred. O navio fantasma. Porto Alegre: Globo, 1937.
VARALDO, Alessandro. Gata persa. Porto Alegre: Globo, 1938.
LUDWIG, Emil. Memórias de um caçador de homens. Porto Alegre: Globo, 1939.
CONRAD, Joseph. Lord Jim. Porto Alegre: Globo, 1939.
STACPOOLE, H. de Vere. A laguna azul. Porto Alegre: Globo, 1940.
GRAVE, R. Eu, Claudius Imperator. Porto Alegre: Globo, 1940.
MORGAN, Charles. Sparkenbroke. Porto Alegre: Globo, 1941.
YUTANG, Lin. A importância de viver. Porto Alegre: Globo, 1941.
BRAUN, Vicki. Hotel Shangai. Porto Alegre: Globo, 1942.
FULOP-MILLER, René. Os grandes sonhos da humanidade. Porto Alegre: Globo, 1942 (de parceria com R. Ledoux).
MAUPASSANT, Guy de. Contos. Porto Alegre: Globo, 1943.
LAMB, Charles & LAMB, Mary Ann. Contos de Shakespeare. Porto Alegre: Globo, 1943.
MORGAN, Charles. A fonte. Porto Alegre: Globo, 1944.
MAUROIS, André. Os silêncios do Coronel Branble. Porto Alegre: Globo, 1944.
LEHMANN, Rosamond. Poeira. Porto Alegre: Globo, 1945.
JAMES, Francis. O albergue das dores. Porto Alegre: Globo, 1945.
LAFAYETTE, Condessa de. A princesa de Cléves. Porto Alegre: Globo, 1945.
BEAUMARCHAIS. O barbeiro de Sevilha ou a precaução inútil. Porto Alegre: Globo, 1946.
WOOLF, Virginia. Mrs. Dalloway. Porto Alegre: Globo, 1946.
PROUST, Marcel. No caminho de Swann. Porto Alegre: Globo, 1948.
BROWN, Frederiek. Tio prodigioso. Porto Alegre: Globo, 1951.
HUXLEY, Aldous. Duas ou três graças. Porto Alegre: Globo, 1951.
MAUGHAM, Somerset. Confissões. Porto Alegre: Globo, 1951.
PROUST, Marcel. À sombra das raparigas em flor. Porto Alegre: Globo, 1951.
VOLTAIRE. Contos e novelas. Porto Alegre: Globo, 1951.
BALZAC, Honoré de. Os sofrimentos do inventor. Porto Alegre: Globo, 1951.
MAUGHAM, Somerset. Biombo chinês. Porto Alegre: Globo, 1952.
THOMAS, Henry & ARNOLD, Dana. Vidas de homens notáveis. Porto Alegre: Globo, 1952.
GRENNE, Graham. O poder e a glória. Porto Alegre: Globo, 1953.
PROUST, Marcel. O caminho de Guermantes. Porto Alegre: Globo, 1953.
PROUST, Marcel. Sodoma e Gomorra. Porto Alegre:Globo, 1954.
BALZAC, Honoré de. Uma paixão no deserto. Porto Alegre: Globo, 1954.
MÉRIMÉE, Prospero Novelas completas. Porto Alegre:Globo, 1954.
MAUGHAM, Somerset. Cavalheiro de salão. Porto Alegre: Globo, 1954.
BUCK, Pearl S. Debaixo do céu. Porto Alegre: Globo, 1955.
BALZAC, Honoré de. Os proscritos. Porto Alegre: Globo, 1955.
BALZAC, Honoré de. Seráfita. Porto Alegre: Globo, 1955.

Discos:

- Antologia Poética de Mario Quintana - Gravadora Polygram (1983)

Música:

- Recital Canto Coral Quintanares (1993) - treze poemas musicados pelo maestro Gil de Rocca Sales.

- Cantando o Imaginário do Poeta (1994) - Coral Casa de Mario Quintana - poemas musicados pelo maestro Adroaldo Cauduro.

Teatro:

- Lili Inventa o Mundo (1993) - montagem de Dilmar Messias.

Sobre o autor:

- Quintana dos 8 aos 80 (1985)

Dados obtidos em livros do e sobre o autor e páginas na Internet, em especial a da Casa de Cultura Mario Quintana / Suzana Kanter.

Texto reproduzido do site: releituras.com/mquintana_bio.asp

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A eterna musa do poeta Mario Quintana
No depoimento abaixo, a atriz Bruna Lombardi fala sobre a amizade com o poeta e conta como conheceu o escritor.
  
Publicado originalmente no site O Tempo, em 30/07/06.

Bruna Lombardi - Especial para "O Tempo". 

Começo pelo fim. Pela última coisa que escrevi para ele, depois que ele se foi.

O Anjo.

Onde quer que você esteja
veja que agora
em algum lugar alguém chora
porque você foi embora.
Eu sei que você continua
por aí nesse universo
achando rima pra verso
com humor e melancolia
Perplexo feito criança
diante de cada mistério
sua sutil sabedoria
nota coisas tão pequenas
que outro não notaria
E aqueles que ficaram
por aqui, nessa passagem,
sentem no céu esse anjo
que você sempre escondia
e desejam boa viagem.

Essa foi a última nota que escrevi para o meu querido amigo Mario que, por acaso, é um dos maiores poetas do Brasil. E talvez a pessoa mais simples e genuina que conheci. Uma lição de humanidade pra quem teve a sorte de conversar com ele. Conheci Mario em Porto Alegre, na Feira do Livro, em 77.

Eu era uma menina lançando meu primeiro livro de poesias "No Ritmo dessa Festa", ele um poeta renomado e querido por todos. De repente levei um susto: Mario Quintana comprou meu livro e estava na fila de autógrafos. Fiquei profundamente sensibilizada com seu gesto.

E com a força que ele deu para os meus textos e o estímulo para os meus futuros livros. Foi um caso de amizade à primeira vista. Era um homem raro, único, como tudo o que ele escreveu, absolutamente encantador e profundamente pessoal.

Morava sozinho num quarto de hotel em Porto Alegre, eu vivia no eixo SP/Rio, mas nos prometemos desde então que tomaríamos chá juntos pelo menos uma vez por ano. E quase nunca quebramos essa promessa. E se, às vezes, ela foi quebrada, admito com tristeza que foi sempre culpa minha e da vida atribulada que vivo.

Mas, tenho a imensa alegria de ter sido uma fiel amiga e correspondente. Trocamos milhares de cartas. E acho que essas são coisas que ajudam a gente a viver. Um dia me confessou que tinha dois pôsteres em seu quarto. Um da Greta Garbo e um meu. Honra maior do que essa não existe.

Artigos me chamavam de musa do poeta. Mas a verdade é que Mario é um poeta que não precisa de musas, porque as deusas da poesia o amavam e protegiam. Ele gostava, e seus textos revelam isso, de coisas simples, cotidianas, rotineiras como sua vida. E cheias de humor.

Tinha ousadia no humor. Via comicidade nas cenas de rua, nas pessoas, nos fatos. Um homem capaz de rir de seus fantasmas. Um homem solitário com imensa compaixão pelo seu semelhante. Aprendi muito com Mario. Coisas pequenas, que não têm preço.

Sentávamos em bancos de jardim, de tarde, num dia de semana em Porto Alegre. Essas conversas tinham um valor incomensurável para mim. Falávamos de tudo. A vida dele, a minha, as coisas em volta, as pessoas.

O resto nos dizíamos por carta. Tesouros. Hoje tenho certeza que essas coisas são o maior luxo de todos. O bem mais precioso, aquele que nenhum cartão de crédito pode comprar. Por isso tenho uma afeição particular por Porto Alegre e por tudo o que a cidade me trouxe.

Pra mim, Mario Quintana continua presente andando devagar pelas ruas, sentado na mesa de um bar. Pra quem o queria transformar em monumento, ele dizia, com seu jeito de rir de si mesmo, "um erro em bronze é um erro eterno". Acredito que sua poesia permanece mais do que qualquer monumento.

A poesia tem seus mistérios e um jeito sorrateiro de vencer o tempo e chegar às pessoas. A poesia entra em quartos solitários e acompanha quem sente que não pertence, quem tem dúvidas, quem chora em travesseiros, quem erra, quem acerta, quem procura.

A poesia é extraordináriamente generosa. A poesia entra clandestina onde alguém precisa dela e só faz bem. Mario e sua poesia estão por aí, continuam. Coisas assim permanecem, são eternas.

Bruna Lombardi é atriz e poeta.

Texto reproduzido do site: otempo.com.br

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Publicado originalmente no blog Coordenação do livro, em 2 de maio de 2014.

Quintana 20 anos depois - "Ora Bolas – O Humor de Mario Quintana"

Certo dia, uma emissora de TV paulista convidou Mario Quintana e sua musa Bruna Lombardi para participarem de um programa semanal de entrevistas. Quando chegou ao Correio do Povo a informação de que a atriz receberia um cachê mas Quintana não, um colega indignado disse que aquilo era um desrespeito. Quintana, porém, entendeu:

— Ora, as pernas dela são muito mais bonitas que as minhas...

("Ora Bolas – O Humor de Mario Quintana. Compilação de Juarez Fonseca, L&PM Pocket)

Texto reproduzido do blog: coordenacaodolivro.blogspot.com.br