quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

O outro lado, também político, de Jorge Amado

JORGE AMADO EM PARIS, 1948. 
CRÉDITO: ACERVO FUNDAÇÃO CASA DE JORGE AMADO

Publicado originalmente no site da revista Carta Capital, em 1  de janeiro de 2019 

O outro lado, também político, de Jorge Amado

 Por Marina Gama Cubas    
  
“Não conte, mostre.” Foi com esse conselho, a bagagem de jornalista do mundo das letras e a formação de historiadora que Josélia Aguiar escreveu Uma biografia: Jorge Amado (ed. Todavia), obra que revela em mais de 500 páginas a história de um dos grandes nomes da literatura brasileira. “O livro poderia ter o dobro do tamanho e ainda assim não seria chato”, diz a biógrafa.

JOSELIA AGUIAR, BIÓGRAFA DE JORGE AMADO.
 CRÉDITO: SILVIA CONSTANTINI

A missão de escrever sobre Jorge Amado lhe foi dada há sete anos. Era 2011 e, em pouco mais de um ano, seria celebrado o centenário do escritor baiano. O plano era lançar o livro nesse período, mas logo nos primeiros meses de pesquisa, a jornalista percebeu que o deadline era curto demais. Havia muita vida em Jorge Amado e em sua época.

Conhecido por sua militância na literatura, pouco se fala de seu papel no mundo político-partidário. “Ele entra para a juventude comunista em 1932. Nesse período, faz uma obra que é considerada muito militante – Cacau, Suor, Jubiabá, Cara Vermelha -, em que, quase sempre no final, o herói sempre se engaja na luta. Eram nos livros que ele indicava ao leitor para se tornar comunista e fazer greve.”

Biógrafo

No Partido Comunista, ele foi considerado um quadro fiel. Participava das reuniões e atuava inclusive nas questões burocráticas da sigla. Seu nome ganhou maior importância de fato após lançar a biografia de Luís Carlos Prestes, escrita enquanto estava no exílio. Vida de Luís Carlos Prestes: O Cavaleiro da Esperança, lançado antes na Argentina (1942) que no Brasil, foi um sucesso de público.

“No Brasil, os leitores receberiam a obra clandestinamente: encontradas por vezes a preços exorbitantes, era também consumida por meio de cópias datilografadas e fac-símiles. O aluguel do exemplar também era possível. Para despistar, leitores referiam-se ao livro por títulos como “Vida de são Luís’, Vida do rei Luís’ e ‘Travessuras de Luisinho’”, descreve Joselia no livro.

Parlamentar

Poucos anos mais tarde, Jorge foi lançado por seu partido a deputado federal. “Hesitei longamente, e aceitei a custo. Não acredito em Prestes e na atual direção do Partido”, escrevera em seu diário em novembro de 1945, colhido pela biógrafa. Nesse período falava, na sua intimidade, um Jorge que começava a ver as contradições do próprio partido.

Na Assembleia Constituinte, junto com Marighella, foi autor do primeiro discurso feito pela bancada comunista, proferido por Claudino José da Silva, ex-ferroviário e marceneiro, era o único negro alí. Os dois acabaram se tornando os redatores oficiais do partido naquele período.

Não foi apenas do talento oratório que Jorge se firmou no Parlamento. Ele foi autor de projeto de lei que passou a vigorar a partir da Constituição de 1946, que garantia a liberdade religiosa do país. “Não se extinguiu o preconceito, no entanto, não havia mais permissão para perseguir pais e mães de santos nos terreiros”.

“Para a aprovação do projeto, Jorge usou de uma habilidade que carregou a vida inteira: conversar com todos os setores”, conta Josélia. Ele buscou apoio da direita antes de procurar seus companheiros de sigla, com isso aprovou tranquilamente seu projeto.

Jorge apresentou outras 14 emendas ao projeto de Constituição. Alguma delas previam a isenção do tributo a importação e produção de livros, periódicos e papel de imprensa; a concessão de habeas corpus aqueles que eram vítimas de de arbitrariedades policiais; o fim da censura prévia em livros e jornais; e a contrariedade a obrigação do ensino religioso nas escolas.

“O partido é cassado e os deputados, idem, em 1948. Jorge vai para o exílio na França e na República Tcheca. Nessa época, se torna um quadro importante entre artistas, escritores e cientistas do Movimento pela Paz, braço soviético na batalha cultural”, conta.

O escritor só retornou ao Brasil em 1952 e publica Os subterrâneos da liberdade, seu livro ideologicamente mais marcado. A desconfiança de que as coisas na cortina de ferro não aconteciam como imaginava, por causa da delação e prisão de amigos que considerava inocentes e eram acusados de conspirar

Diálogo

Na reabertura política chegou a dizer: “Precisamos dar expressão partidária da extrema direita a extrema-esquerda”. “Ele acha que as coisas funcionam democraticamente quando todos os partidos possam existir. É o Jorge Amado”, afirma Josélia.

Homem de esquerda até a morte nunca, deixou de conversar com à direita, aliás, encargo que o fazia tão precioso ao partido. “O que, para ele, era problema para ele era o reacionário. Liberal ou socialista. Isso nunca foi um problema mesmo nos momentos em que ele é extremamente militante. Sendo uma pessoa inteligente, que conversa e que debate era o suficiente. “Ele sempre dizia que o problema era o reacionário, era o latifúndio”.

A partir de 1956, ele decide sair à francesa das atividades partidária. “Jorge se afasta para ser escritor, mas ele não deixa de ser um homem de esquerda. O que ele diz é que na época dele você só era comunista e que hoje – quando ele dá essas entrevistas nos anos 90 – já é possível ser de esquerda de outra maneira, não apenas da maneira dele, no passado. Ele acredita num socialismo com liberdade porque sem liberdade é ditadura e ditadura é uma merda, tanto de direita como de esquerda”.

Há muita vida em Jorge Amado e sua época. Esses são apenas alguns pontos da história do escritor e homem de esquerda. Há outras centenas no livro.

Texto e imagem reproduzidos do site: cartacapital.com.br

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Escritor Érico Veríssimo


Relações Literárias - ÉRICO VERÍSSIMO

Por Darcy Ribeiro

“Os brasileiros não se conceberiam se não fossem, por exemplo, os gaúchos. Ficariam bestificados se alguém contasse de boca aquelas coisas que o Érico Veríssimo contou. Nos livros dele, o gaúcho se vê gloriosamente, isso é formidável”.

Fonte: O Estado de São Paulo, 24/02/1996 – Roberta Jansen

Por Luiz Antonio de Assis Brasil

Érico Veríssimo é um ícone da nossa cultura, um de seus formadores – e seu representante máximo. Sua capacidade fabuladora (dizia-se ele mesmo um contador de histórias) arrebata o leitor. Ele faz parte de uma vertente que iniciou com João Simões Lopes Neto e transita por Josué Guimarães, Cyro Martins e outros. Esses escritores têm, em comum, a representação (muitas vezes crítica) da anima gaúcha. É natural que qualquer escritor que tenha seus temas situados no Rio Grande do Sul acabe, de uma ou de outra forma, percorrendo sendas compartilhadas. Não vejo Érico como uma sombra, mas como um intelectual que, dotado de impecável coerência, ensinou-nos o profissionalismo da escrita”.

Fonte: O Estado de São Paulo, 12/08/2001 – José Castello

Por Lya Luft

O Érico Veríssimo era meu compadre, ele e a Mafalda [Halfen Volpe] foram padrinhos de um dos meus filhos. E eu, muito jovenzinha, eu ficava na casa deles, eu ficava quieta, escutando, e eu gostava muito deles, dos dois, a minha comadre Mafalda foi sempre o meu modelo. Era uma velha de noventa anos que eu visitava sempre que podia, para tomar uísque no final da tarde... Érico Veríssimo, mexeu muito na minha vida quando eu era menininha com um livro chamado Joana Darc [A vida de Joana Darc (1953)], aquela linguagem translúcida, a tranqüilidade do fraseado, é um livro infanto juvenil.

Fonte: Programa Roda Viva, da TV Cultura, 05/05/2008

por Lygia Fagundes Telles

“Érico teceu uma ficção que se complementa, que forma uma coroa de sonetos, para usar um imagem literária empregada na poesia... Seus livros formam uma guirlanda... Érico era uma pessoa muito generosa; é impossível ter convivido com ele sem ser tocado pelo exemplo de intelectual digno e participante”.

Fonte: O Estado de São Paulo, 05/12/1999 – Luiz Carlos Merten

Por Moacyr Scliar

“Minha dificuldade é separar o Érico escritor do Érico pessoa. Na realidade, não o conheci a fundo: nos encontramos poucas vezes. Mas conversar com Érico sempre me causava uma forte impressão. Lembro particularmente seu olhar – penetrante, e ao mesmo tempo um pouco tímido, um pouco angustiado. A impressão que me dava era de que ele tinha consciência de sua importante posição como escritor, e aquilo de certa maneira o assustava. Me recebia bem, me ajudou o quanto pode – o que já é em si uma coisa excepcional. O principiante é freqüentemente um chato, com suas pastas de cartolina cheias de contos; não é todo escritor veterano que tem paciência para essas coisas. Érico, neste sentido, era excepcional... Érico fez outra coisa importante. Deu a Porto Alegre (e também ao Rio Grande do Sul e ao Brasil, mas fico só com a minha cidade) uma dimensão literária .O que já é uma proeza. Porto Alegre não é Salvador nem o Rio, lugares em que a natureza é exuberante, em que a história está presente em cada esquina, em que os personagens são típicos. Porto Alegre é uma cidade que precisa ser descoberta. Érico conseguiu-o”.

Fonte: Singular & Plural (SP), n.3, fev. 1979

Por Viana Moog

"Aquele, porém, dos escritores gaúchos com quem mais tenho convivido é Érico Veríssimo, e a este não saberei dizer o que devo, sendo certo, porém, que todos nós lhe somos devedores de um enorme serviço: foi Érico quem, acabando com a lenda romântica do intelectual boêmio, sujo e faminto, valorizou no Rio Grande a profissão de escritor. Érico foi dos primeiros romancistas no Brasil a tirar de seus livros edições de dez e vinte mil exemplares e com isso mostrou que também em nosso país, senão agora pelo menos num futuro não muito distante, será possível ao escritor viver exclusivamente da pena"

Fonte:SENNA, Homero. República das letras. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996,

Por Wilson Martins

“O Érico é o grande injustiçado desse período todo. Já naquela altura ele era considerado um burguês, um homem que não era de esquerda – ele, aliás, passou o resto da vida tentando mostrar que era de esquerda, o mais esquerdista de todos, ninguém aceitava. É um escritor esquecido. Agora essas reações e fantasias são de pessoas com raiva da história, que querem varrer o Érico da historia da literatura brasileira”.

Fonte: O Estado de São Paulo, 26/07/1997 – Norma Couri

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Grandes entrevistas - Érico Veríssimo

Entrevista publicada originalmente no jornal Opinião (SP), de 05/02/1973, com o título: Sou contra a censura, e republicada em VERÍSSIMO, Érico. A liberdade de escrever: entrevistas sobre literatura e política. São Paulo: Globo, 1999, de onde foi extraída.

Porto Alegre, Érico Veríssimo falando a Opinião: "Quero começar com um elogio (...). Agora vem a reclamação. Quase todas as perguntas que vocês me fazem na realidade exigem como resposta um longo ensaio. Ora, não sou ensaísta. Um romancista é antes de mais nada um intuitivo. Quando ele se aventura a analisar seus próprios livros, a fazer a sua exegese, mete os pés pela mãos. Se há uma coisa que não me preocupa nem me ocupa agora é a interpretação dos livros que já escrevi e publiquei. Dados esses esclarecimentos, vamos às respostas".

- A História é a matéria básica da sua ficção em pelo menos dois livros seus: O tempo e o vento e Incidente em Antares. Qual a importância da realidade histórica para a sua literatura?

Ninguém pode fugir à História... e lá se foi o primeiro lugar-comum. Clara ou oculta, essa "senhora", está presente em todos os meus romances. Sempre considerei importante. Não só ela mas também esse cavalheiro, mais misterioso ainda, sem o qual ela não poderia existir: o Tempo. Como é possível desenvolver, fazer viver um personagem, um grupo social, fora do tempo e da História? Como se poderia contar uma fábula num vácuo temporal e espacial? Claro, com artifícios de linguagem, com refinamento de técnica, é possível dar ao leitor a impressão de que o romance não tem quando nem onde. Acho que qualquer autor tem o direito de escrever o que entende, o que sabe, esquivando-se do que lhe pode confundir o espírito. O importante é que o livro seja bom. É preciso não esquecer que a História não é sinônimo perfeito de Política ou que a política não pode ou deve ser sempre partidária. No meu caso particular, tenho sido naturalmente levado em minhas ficções para problemas políticos que vivi, em geral, como espectador. Graças aos meios de comunicação modernos, hoje em dia os acontecimentos nos chegam de todos os quadrantes do mundo com mais rapidez e força.

- No Prefácio de O reino deste mundo, Alejo Carpentier postula para o romancista latino-americano a necessidade de incorporar à sua ficção a "realidade mágica". O senhor o faz, em certa medida, em Incidente em Antares. Acha que esse também é um caminho para a nossa ficção?  Cem anos de solidão

Conheci Alejo Carpentier em 1954, quando ele estava exilado na Venezuela por causa da ditadura do sargento Batista. É um grande romancista (Alejo, não Batista). Concordo com ele quanto à fatalidade, digamos assim, que nos impeliu para o "realismo mágico". Note-se que o adjetivo "mágico" aqui significa também "absurdo". Nossa América Latina é um território de prodígios, de maravilhas e misérias, de sustos e êxtases. Nela tudo pode acontecer. Seu tamanho, suas selvas e cordilheiras, sua gente sofrida e estranha, sua História nos induzem a uma realidade que pouco tem a ver com o "normal" cotidiano. Principalmente a América espanhola. Todos os "impossíveis" que nos narra o incomparável Gabriel Garcia Márquez em "Cem anos de solidão" tornam-se uma realidade que o leitor aceita. Não creio que tenha feito propriamente "realismo mágico" em "Incidente em Antares". O realismo mágico verdadeiro é o desses romancistas hispano-americanos (Cortázar, Carpentier, Borges...e quantos outros mais?). É todo um clima que pervaga o romance ou o conto do princípio ao fim. Se acredito que esse "realismo mágico" pode ser um caminho para a nossa ficção? Ora, todos os caminhos nos estão aberto. É muito perigoso traçar roteiros definitivos para qualquer literatura. Pensemos, por exemplo, no Rio Grande do Sul, na nossa paisagem verde e desafogada, na nossa população de origem europeia, na nossa pobreza folclórica, na nossa quase ausência de "mistério à flor da terra" e havemos de concluir que o realismo mágico aqui seria algo postiço. Mas está claro que temos muitos assuntos ainda inexplorados no nosso Estado. Josué Guimarães acaba de atirar-se corajosamente a um deles em "A ferro e fogo", primeira parte de uma trilogia sobre a colonização alemã no R.G. do Sul, e da qual nos deu recentemente o primeiro volume: "Tempo de solidão". Recorrendo aos que me leem, esse romance é feito com grande economia verbal, eu diria mesmo escrito em preto e branco, Josué Guimarães consegue nele criar uma atmosfera, o que me parece das coisas mais difíceis em ficção.

- De Clarissa a Incidente em Antares haverá, certamente, uma evolução na sua literatura. Quais as linhas-mestras dessa evolução?

Eu lhe pediria que eliminasse, de saída, a expressão linhas-mestras, que me assusta um pouco e pode me embrulhar o espírito. Usando de uma simplificação que os psicólogos não aprovam, direi que tenho dentro de mim um poeta, um romântico em turras permanentes com um realista dotado de veia satírica. Em Clarissa predominou o poeta, ou se preferirem, o pintor aquarelista. Logo depois o satirista chutou o poeta e escreveu Caminhos cruzados. A seguir, ambos se uniram e produziram Um lugar ao Sol. Pode-se passar a vida escrevendo novelinhas-poemas como Clarissa se fecharmos os olhos a certos aspectos sórdidos e negativos da vida. Gosto muito do ditado anglo-saxão segundo o qual " é preciso um pouco de tudo para fazer-se um mundo". É preciso saber que as condições econômicas de minha vida pessoal, particular, influenciaram muito os romances que escrevi entre 1933 e 1940. Observe-se como meus personagens dos livros dessa época preocupavam-se com as contas a pagar no fim do mês. Eu trabalhava longa e duramente durante mais de 12 horas por dia. Traduzia livros de várias línguas para o português (mais de 40), inventava histórias para programas de rádio para a infância, armava páginas femininas para o Correio do Povo, tudo isso enquanto trabalhava na revista e na editora da Livraria do Globo. Isso explica a pressa com que escrevi meus próprios romances naquela década de 30. Considero essa fase de minha carreira um período de exercícios em que me preparei, consciente ou inconscientemente, para a obra com que comecei a sonhar depois de 1935 e que acabou sendo publicada a partir de 1949 sob o título geral de O tempo e o vento. Depois de Olhai os lírios do campo, romance cheio de defeitos, mas com grande carga emocional, comecei a ganhar royalties que melhoraram minha situação econômica. Pude trabalhar mais devagar e tive mais tempo para ler... e para me ver e julgar.

- Na publicidade de Incidente em Antares usou-se a frase: "Num país totalitário este livro seria proibido". O senhor submeteria um livro seu à censura? Por que?

Já disse muitas vezes que jamais submeterei um livro meu à censura prévia. Acho isso degradante, além de absurdo. Se André Gide, que leu a grande obra de Marcel Proust ainda em originais, não recomendou a sua publicação à editora Gallimard, que esperança podemos ter num comité de críticos literários improvisados e composto de membros da polícia federal ou de qualquer outra polícia, ou mesmo da Academia Brasileira de Letras. Repito que sou contra a censura, mas devo qualificar essa minha posição. Só merece liberdade quem tem consciência de sua responsabilidade profissional.

- Ao escrever Incidente em Antares o senhor se apoiou, naturalmente, numa certa interpretação histórica da realidade brasileira contemporânea. A seu ver, quais os fatos decisivo que conduziram ao movimento militar de 1964?

A revolução de 1964 de certo modo começou nos tempos em que se tentou impedir que Juscelino Kubitschek, legalmente eleito, tomasse posse. Atingiu um momento de alta periculosidade quando Jânio Quadros renunciou. Desse momento em diante, os dados estavam irremediavelmente lançados: o resto era questão de oportunidade, e essa oportunidade foi fornecida pela inabilidade de políticos da situação como, por exemplo, Leonel Brizola, que dizia muitas coisas certas, mas com a entonação errada e de maneira estabanada e inoportuna. Os políticos profissionais têm - não esqueçam - sua grande dose de culpa em todo esse processo que levou à revolução de 1964 e que começou pouco antes da proclamação da República. Nos anos que se seguiram, o Exército foi tantas vezes chamado a intervir nas revoluções tramadas pelo políticos (que mandavam soldados para a caserna mal conquistavam o poder) que, como era de se esperar, um dia arraigou-se a idéia na cabeça dos militares.

- Vargas é personagem de Incidente em Antares. A seu ver, o varguismo como ideologia e estilo político está completamente morto?

O varguismo está em "artigo de morte", como diria Manuel Bernardes. (Não confundir com o Presidente Arthur Bernardes). Isso não quer dizer que a imagem de Getúlio esteja apagada de todas as mentes. Mas não creio nem desejo que o varguismo como estilo político volte a vigorar entre nós. Digo isso sem rancor, pois gostava pessoalmente do homem Getúlio, embora reconhecendo os erros que cometeu. Acho que foi dos personagens mais dramáticos da História do Brasil em todos os tempos. Sinto ainda uma ponta de tristeza quando o imagino (como fazia Dona Quita Campolargo, em Incidente em Antares) em sua última noite de solidão e abandono no Palácio do Catete.

- A última cena de Incidente em Antares é um estudante que vai escrever a palavra "liberdade" num muro e é baleado pela polícia. De que maneira o senhor encara as restrições atuais à participação política da classe estudantil?

Pensei que essa cena tivesse deixado bem claro o meu pensamento a respeito do assunto. Sou favorável à participação, não só da classe estudantil, como também de todas as outras classes do Brasil na nossa vida política, através do sufrágio universal e da possibilidade de candidatar-se a um cargo público. Nunca fui partidário do terrorismo, que não leva a nada de construtivo, mas por outro lado, sempre repudiei a tortura como método (ou como esporte) e sou positivamente contrário à condenação de quem quer que seja por "delitos de opinião". Ninguém é criminoso por ter ideias... a não ser que se trate de ideias que levem deliberadamente ao niilismo, ao crime, ao caos.

- O seu estilo sempre foi dos mais despojados da literatura brasileira, aproximando-se bastante do jornalístico. O senhor considera isso uma fórmula peculiar sua ou uma normativa a ser seguida por todos os escritores que buscam maior comunicação com o público?

É a minha maneira de ser. Mas acho que cada escritor deve ser o que é, escrever como entende, usar mais ou menos adjetivos, frases mais curtas ou mais longas. Acredito também que às vezes é o assunto de um livro que dita o seu estilo. Comunicar-se a gente com o público é muito importante. Há em literatura duas coisas igualmente perniciosas e nem sei qual a pior. Uma é tornar-se vulgar, chulo, chão, sensacionalista para conquistar um público mais vasto. A outra é fazer-se hermético para ser entendido somente pelas elites, pelos eleitos. Mas repito que os escritores são como são. Cada qual deve ser dono de seu nariz: errar ou acertar por conta própria.

- Um balanço da cultura brasileira em 1972 demonstra que esse não é um momento particularmente criador, seja na música popular, no cinema, no teatro e na ficção, terrenos em que nos mostrávamos férteis há dez anos. A seu ver, a que se deve essa inibição generalizada?

Não sei com certeza se em matéria de criatividade estamos atravessando um período pobre na música popular, no cinema, no teatro e na ficção. Mas o que posso dizer claramente é que a censura não ajuda em nada o criador, e que a pior censura é aquela que acaba infiltrando-se aos poucos nas nossas cabeças, como um cavalo, ou melhor, um burro de Tróia. A criação é um ato de amor e de liberdade. Houve na História, eu sei, escravos que produziram obras de arte, mas isso não quer dizer que se possa trabalhar num ambiente de "não pode", "é proibido", "dá cadeia". Olhem para os países que têm censura e me digam o que aconteceu à sua arte e à sua literatura. Vejam o que se está fazendo na Rússia com Soljentitzyn e outros escritores. É uma indignidade. E quem faz isso são os homens que cresceram, tornaram-se adultos durante os regime stalinista de terror e obscurantismo, isto é, gente que nunca conheceu a liberdade de pensar e de criar. E a extrema direita é tão má quanto a extrema esquerda. Sim, vocês têm razão, a inibição que perturba nossos artistas plásticos e nossos escritores, compositores, pensadores, jornalistas é causada pelo clima criado pela censura. Pessoalmente não fui ainda censurado, mas isso não me faz feliz, pois não quero, como meia dúzia de outros escritores, ser exceção num país de quase cem milhões de habitantes.

- Mais ou menos a partir de 1968 vivemos em clima de euforia, "em ritmo de Brasil grande", na fórmula oficial. A seu ver, se justifica esse clima de otimismo?

Acho que se justifica. Nesses últimos anos, o Brasil tem crescido e em alguns setores as melhoras são visíveis a olho nu. Está claro que só temos estatísticas oficiais e nunca sabemos ao certo do que se passa nos bastidores da política. Não posso negar a Transamazônica, a melhor qualidade dos serviços postais e muitos outros empreendimentos. O que eu acho é que tudo isso se poderia fazer num regime democrático, dentr oda velha Constituição, contanto que ela fosse realmente cumprida a rigor.

- O primeiro livro da trilogia O tempo e o vento descreve a incorporação do índio à civilização luso-brasileira. A seu ver, através de que formas se deu essa integração?

Não sei. Desculpe-me. Não sei. Façam essa pergunta um especialista.

- O gaúcho valente e altivo parece historicamente desaparecido há muito tempo, embora o rio-grandense de hoje tenha herdado alguma coisa dele. Quais os traços dominantes na psicologia e no comportamento do rio-grandense médio em 1972?

O gaúcho altivo, valente, varonil, nobre, bom amigo, generoso é um arquétipo. Hoje em dia alguns (ou muitos?) rio-grandenses procuram viver de acordo com essa imagem idealizada. Ouço de turistas que o gaúcho é hospitaleiro, simpático, serviçal. Os Centros de Tradições Gaúchas deviam procurar estimular essas qualidades, dando menos atenção ao aspecto da indumentária gauchesca. A mistura de sangue é muito grande entre o nosso povo. O contingente de sangue italiano e alemão é considerável nos habitantes deste Estado. A incidência do tipo humano de pele e cabelo claros é grande entre nós. E não preciso dizer que nossa maneira de falar é inconfundível: quadrada, escandida, meio seca. Linguagem de carnívoro.

- O Rio Grande do Sul sempre foi um dos Estados mais politizados do Brasil. A que se deve isso?

Nunca tinha pensado nisso. Talvez essa politização se deva a nossa condição de fronteira (influências do Prata) e ao fato de termos sido durante mais de um século o campo de batalha do Brasil. Ocorre-me que temos sido um viveiro de líderes políticos. (nem todos bons) A figura de Castilhos, sobre quem Sérgio da Costa Franco escreveu um magnífico ensaio biográfico, é ímpar. Borges de Medeiros foi a encarnação da política positivista. Castilhos foi pai espiritual de Borges, e Borges pai de Getúlio, de Flores da Cunha, de Oswaldo Aranha e João Neves da Fontoura. Não esqueçamos o vulto interessantíssimo de Pinheiro Machado. E o de Luiz Carlos Prestes. É, parece que vocês têm razão. O Rio Grande é (ou era) um Estado altamente politizado.

- Esta politização está aumentando ou diminuindo?

Creio que está diminuindo.

- Qual a grande epopéia do Brasil atual (o acontecimento grandioso, significativo e de projeção para o futuro)?

Faça esta pergunta ao meu filho daqui a trinta anos. Minha tendência no momento é dizer que o grande herói desta hora é o povo, o homem comum, que, se continua vivo, é de teimoso.

Texto reproduzido do site: tirodeletra.com.br

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Muito mais que um simples livro

Foto: V Photography and Art

Publicado originalmente no site do CINFORM, em 10 de dezembro de 2018

Muito mais que um simples livro

Por Julia Freitas 

Apesar da falta de incentivo, os livros são importantes ferramentas de transformação pessoal e social

Para alguns os livros são apenas objetos. Para outros é uma oportunidade de viajar para outros tempos, outros lugares, outros mundos; uma oportunidade de viver uma realidade completamente diferente da sua. Mas para quem lê, além de tudo isso que acabei de mencionar, os livros são uma ferramenta de transformação de suas próprias vidas.

Wilson Santos teve a vida transformada graças aos livros

Um exemplo de transformação que os livros possuem é a própria vida do vigilante Wilson Santos Filho. Aos 15 anos ele ainda não sabia ler ou escrever, mas adorava ouvir as histórias que sua mãe lhe contava e isso o motivou a frequentar a escola.

“A minha paixão pelos livros começou com a minha mãe lendo para mim. Aquilo despertava curiosidade e eu imaginava como seria eu mesmo lendo, porque até então eu absorvia aquelas histórias através dela. Foi aí que começou a minha busca para aprender a ler e, quando eu aprendi, aumentou o meu prazer pelos livros e eu não parei mais”, lembra com carinho.

Foi visitando os sebos e lendo livros sobre filosofia e literatura que Wilson conheceu novos livros, novos autores e novas visões sobre o mundo. “Os sebos são acessíveis e possuem em seus acervos livros dos mais diversos assuntos. Além disso, os donos nos ajudam muito. Eles nos indicam livros, procuram com paciência os livros em meio ao acervo”, comenta.

Através do gosto que adquiriu pela leitura, Wilson galgou passos que, antes dos 15 anos, talvez ele nunca imaginaria. Além de aprender a ler e escrever, ele foi para a escola, se formou no ensino médio, mas não parou por aí. Foi para a universidade e, recentemente, se formou no curso de Letras. “Para mim o livro representa uma quebra de paradigmas. Eu mudei de vida graças a eles e hoje percebo as diversas visões que podemos ter sobre o mundo”, afirma.

CLUBE DE LEITURA

Como uma forma de difundir e discutir sobre livros, diversos clubes de leitura existem pelo país, e em Aracaju não seria diferente. A jornalista Mirella Mattos, que desde criança ama ler, participa de um desses clubes.

“Eu sempre quis fazer parte de um clube de leitura, mas nunca tinha tido essa oportunidade. Até que eu fui convidada por uma amiga para participar de um clube restrito de leitura, onde lemos, discutimos e conhecemos novas obras. E nós estamos em uma fase de empoderamento, então todas as obras que lemos até o momento possuem esse apelo”, comenta.

Mirella Mattos participa do um clube de leitura

COMÉRCIO DE LIVROS

 Natan de Albuquerque vende livros
 há mais de dez anos

Um dos sebos mais conhecidos e frequentados da cidade é o sebo do Natan, no centro de Aracaju. Há dez anos, o aposentado Natan de Albuquerque comercializa livros usados, cinco deles nas proximidades da Rodoviária Velha. Um acervo com milhares de livros que tratam sobre os mais diversos assuntos, de filosofia a medicina, da literatura tradicional à contabilidade.

“Infelizmente, as livrarias maiores se preocupam mais em comercializar aqueles livros que são lançamentos ou que estão na moda, enquanto que nos sebos você encontra livros que estão até mesmo fora de catálogo, como os clássicos da literatura nordestina”, explica.

Segundo Natan, os sebos sobrevivem hoje graças ao amor que os seus donos têm pelos livros, que geralmente têm coleções há anos, como ele próprio que desde os 13 anos coleciona livros. Para ele, os sebos são espaços culturais em que as pessoas podem conversar sobre qualquer assunto. “As pessoas gostam de vir nos sebos para debaterem sobre diversos assuntos, como religião e política”, comenta.

Apesar da resistência de sebistas e de leitores, o Brasil segue nas últimas colocações quando o assunto é o consumo de livros. Hoje, o Brasil ocupa a posição de número 59 em leitura entre 76 países. A pesquisa é feita com base no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), que é aplicado em estudantes a partir do 7º ano. Segundo o Banco Mundial, isso fará com que os estudantes brasileiros levem mais de 260 anos para atingir a proficiência em leitura dos alunos de países desenvolvidos.

Texto e imagens reproduzidos do site: cinform.com.br

Quem não sofre com o fechamento de uma livraria...

Fotografia da capa: Publish News

Publicado originalmente no site da revista BULA

Quem não sofre com o fechamento de uma livraria não gosta de livros

Por Euler de França Belém

Quem não sofre com a crise das livrarias pode gostar de tudo, inclusive de sexo, mas não gosta de livros. O melhor amigo do homem, depois do cachorro e do gato, é o livro, portanto as livrarias

As livrarias são templos para crentes e ímpios. Adquirir livros pela internet é mais fácil, pois não é preciso sair de casa. Mas o frequentador de livrarias é um ser diferente. Eventualmente, até compra obras pelos sites, mas o que gosta mesmo é de andar pelos corredores das livrarias, olhando, folheando e lendo trechos de obras variadas. Busca, por vezes, o conhecido, aquilo que tem certeza que vai adquirir, mas, mexendo nas estantes, acaba descobrindo novidades. O prazeroso desconhecido. Compra, afinal, não apenas um ou dois livros, mas de seis a dez.

A visita às livrarias permite ao leitor o contato com o inusitado. Recentemente, estive na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo. Havia pensado em comprar apenas uma obra, “Livrarias — Uma História da Leitura e de Leitores” (Bazar do Tempo, 296 páginas, tradução de Silvia Massimini Felix), de Jorge Carrión. O livro menciona inclusive a bela livraria de Pedro Herz. Acabei por folhear uma biografia da excelente escritora escocesa Muriel Spark (1918-2006) — “Muriel Spark: The Biography” (Northwestern University Press, 627 páginas), de Martin Stannard —, que Paulo Francis ajudou a divulgar no Brasil, e uma biografia do escritor uruguaio Mario Benedetti (1920-2009). Não levei, porque os preços são impraticáveis, mas depois me arrependi. Ao lembrar que estava lendo “Tantos Caminhos — Autobiografia” (Martins Fontes, 458 páginas, tradução de Hildegard Feist), de Paul Bowles, que adquiri em 13 de outubro de 2001 — há dezessete anos —, pensei: os livros sobre Muriel Spark e Mario Benedetti podem aguardar.

Livraria Cultura: poucos lançamentos 
e dívida de 285 milhões de reais

Enquanto esperava Candice Marques de Lima, minha companheira que participava de um seminário na USP, li cerca de 50 páginas de “Mario Benedetti: Un Mito Discretísimo — Biografía” (Alfaguara, 376 páginas), de Hortensia Campanella. Trata-se de uma edição em espanhol. O levantamento da vida do escritor é excelente. Tanto que não percebi, de imediato, que se tratava de um livro “usado” (não sei se lido). A Livraria Cultura estaria colocando livros usados em suas estantes? Não sei. Sugiro ao leitor, ao visitar a unidade da Avenida Paulista, que dê uma olhada. A edição que tive nas mãos é velhíssima, amarelada. Não é nova. Coisas da Estante Virtual? Não se sabe. Afinal, livros novos também, um dia, ficam velhos, amarelados, ressequidos, com aquele cheirinho que irrita as narinas.

Depois da Livraria Cultura, próxima do Mercure onde estava hospedado, visitei e “orei” na Livraria da Vila, na Alameda Lorena, e na Livraria Martins Fontes, na Avenida Paulista. Se a Livraria Cultura quase não tinha lançamentos (agora tem de pagar à vista para as editoras), optando por divulgar best sellers, as outras duas, que estão escapando da crise, são verdadeiros manás-oásis em termos de novidades — inclusive a edição especial do romance “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos. O livro completou 80 anos e reli cerca de 20 páginas, saboreando o cheiro da belíssima edição especial (a Record caprichou). Pode anotar: em termos de permanência literária, pensando mais em qualidade do que em sucesso, “Vidas Secas” continua sendo uma obra-prima poderosa. Parece ter nascido ontem, ou melhor, se disserem que completou 18 anos, e não 80 anos, quem há de duvidar? A prosa é vivíssima, as personagens são ricas, apesar da pobreza em termos materiais.

Livraria Saraiva: aposta em best sellers
 para tentar sobreviver

Folheando “Vidas Secas”, a edição comemorativa, pensei, fissurado por livros e, sobretudo, pela prosa de Graciliano Ramos: “Não há a menor dúvida de que a edição é fantástica, mas, pô, tenho duas edições, ambas devidamente anotadas, inclusive uma edição especial em capa dura. Por que levar mais uma?” Acabei não levando, porque estava com pouco dinheiro, mas senti comichões de Alexandria. Ao reler a prosa desenxabida de Graciliano Ramos — sabendo que desenxabida não é o mote justo para nomeá-la —, lembrei-me de um motorista da Uber, que, sergipano, mora em São Paulo há vários anos. Mas não perdeu a linguagem de seu Estado, de sua cidade. Ele disse a mim e a Candice que um xingamento forte no pequeno Estado do Nordeste é: “Ô seu filho de um cabrunco”. Olhei seu rosto e percebi que não parecia com Fabiano, e sim com Riobaldo.

Na Martins Fontes, descobri, na parte de cima da livraria, que havia uma promoção de livros. Promoção de verdade, parecendo aquelas de sábado na Livraria Bertrand (citada por Jorge Carrión como a mais antiga em funcionamento), a do Chiado, em Lisboa. Pensei: deveria comprar alguns livros e pagar com o cartão de crédito — afinal quem visita livrarias e não compra livros não sai de lá feliz; sai acabrunhado. Acabei adquirindo dois livros, por considerar que ia começar a ler “Jane Bowles — Un Pecadillo Original” (Circe, 413 páginas, tradução de Ángela Pérez), de Millicent Dillon. A autora menciona como amiga de Jane e Paul Bowles a cantora brasileira Elsie Houston, que morava nos Estados Unidos e havia sido casada com um poeta francês. Numa carta, Jane Bowles fala da farofa brasileira (página 79). Leio minha anotação: “17 de julho de 2014, quinta-feira, frio mas sem chuva, sebo da Avenida Corrientes, Buenos Aires”. Pois o livro foi adquirido há quatro anos e só agora está sendo lido. Por isso recomendei-me, contra minha vontade, que comprasse menos livros.

As livrarias são eternas como os diamantes

E se as livrarias acabarem? Felizmente, não acabarão. Ficarão menores, por certo, mas resistirão. A tendência é que as grandes lojas fechem suas portas e seus donos, adiante, abram livrarias menores. Em Goiânia, no Setor Universitário, há uma livraria pequena, mas de excelente qualidade — a Palavrear. O acervo, embora nada amplo, é ótimo. Porque prima-se pela qualidade, não pela quantidade. Encontrei inclusive boas edições de livros publicados em Portugal. Recomendo apenas um espaço mais adequado para poesia, por exemplo, com as ótimas traduções da Editora Iluminuras.

 Livraria Martins Fontes: acervo amplo e diversificado
Fotografia: Nelson Kon

O que acontecerá com a Livraria Saraiva e com a Livraria Cultura? A minha torcida é para que resistam. Os apaixonados por livros preferem a Livraria Cultura, a Livraria da Vila, a Livraria Travessa (no Rio de Janeiro) e, pelo acervo diversificado, a Livraria Martins Fontes. A Livraria Saraiva aposta muito em best sellers, até para tentar sobreviver, mas não é ruim. Pelo contrário, é uma boa livraria. O atendimento nunca foi perfeito, nenhuma livraria tem mais atendimento de alta qualidade — salários baixos e rotatividade impedem a qualificação. Mas o que importa mesmo é o acervo e, no geral, o da Livraria Saraiva nunca foi ruim, embora não seja como o das outras livrarias arroladas.

Por que as grandes livrarias estão em crise no Brasil (nos Estados Unidos também)? Porque o capitalismo “diz” ao empresário: “Você precisa crescer”. Para expandir os negócios, é necessário pegar dinheiro nos bancos e, depois de certo prazo de carência, é obrigatório começar a pagar as parcelas dos empréstimos. Pode-se falar que, no capitalismo, há uma espécie de “armadilha do crescimento”. Uma vez enredado, no abraço da sucuri, não há escapatória. As sedes gigantes, instaladas em shoppings nos quais os preços dos alugueis são estratosféricos e que exigem mão de obra farta, estão com as finanças em frangalhos. Com a recuperação judicial, as livrarias não têm de pagar seus credores — momentaneamente —, sejam editoras, sejam bancos, sejam donos de imóveis.

Livraria da Vila: uma das mais charmosas de São Paulo 
Fotografia: Leonardo Finotti

Os brasileiros estão lendo mais, tanto que editoras portuguesas estão interessadas no mercado do país de Machado de Assis. O Brasil tem mais de 200 milhões de habitantes, enquanto Portugal tem pouco mais de 10 milhões.

Uma livraria que deve 674 milhões de reais, caso da Livraria Saraiva, tem como escapar da falência? Talvez sim. Talvez não. Minha aposta é pelo “sim”, mas a razão sugere que a chance de prevalecer o “não” é muito maior. Se rolando a dívida com a barriga, pagando juros, quando era possível, não estava dando para tocar o negócio de maneira qualitativa — tanto que a dívida chegou a mais de meio bilhão de reais —, como, em recuperação judicial, vai escapar da crise? Com o processo judicializado, fica mais fácil negociar com os credores, que têm de aceitar determinadas regras (não podem pedir bloqueio de contas, por exemplo). Entretanto, como a Livraria Saraiva fará para ter acesso a novos produtos? Basta uma visita à Livraria Saraiva para verificar que praticamente não há lançamentos. A falência não é positiva para ninguém, notadamente para as editoras. A livraria deve R$ 18.638.315,67 para a Editora Companhia das Letras e R$ 18.241.167,49 para a Editora Record. Impagável, praticamente. Bancos sabem contabilizar à perfeição suas perdas (se brincar, viram lucros).

A Livraria Cultura deve menos — 285 milhões de reais. Mesmo assim, é um valor muito alto. Dificilmente terá condições de pagar a dívida e, aparentemente, a família não tem patrimônio suficiente para usá-lo para abatê-la.

Falência à vista? Não é o que espero. Mas o setor livreiro, o que se agigantou, dificilmente terá escapatória se não mudar o modelo de negócio — tornando-se menor e escapando do gigantismo dos shoppings. As livrarias decerto continuarão, ainda que menores, e com a expansão do negócio pela internet — seguindo o trabalho bem-sucedido tanto da Livraria Cultura quanto da Amazon.

Mas diga, leitor: quem não sofre com a crise das livrarias pode gostar de tudo, inclusive de sexo, mas não gosta de livros. O melhor amigo do homem, depois do cachorro e do gato, é o livro, portanto as livrarias.

Texto e imagens reproduzidos do site: revistabula.com

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

A quebradeira das grandes livrarias brasileiras

Saraiva Mega Store (Foto: Divulgação)

Publicado originalmente no site Infomoney, em 14 de novembro de 2018  

Quebradas, grandes livrarias brasileiras lutam para se reerguer

Juntas, a livraria Saraiva e livraria Cultura respondem por 40% das vendas de livros de todo o país, mas dívidas estão cada vez maiores

Por Júlia Miozzo

SÃO PAULO – A Livraria Saraiva divulgou na última segunda-feira (12) os resultados do terceiro trimestre e confirmou que a crise do mercado editorial a atingiu em cheio. A varejista dobrou seu prejuízo no período, que chegou a R$ 66,6 milhões no trimestre. Em 2017, ele era de 33,4 milhões.

Seu lucro líquido caiu 33,5% na comparação ano a ano – foi de R$ 81,2 milhões no último trimestre e de R$ 122 milhões no mesmo período do ano passado.

Um “prólogo” dessa situação já vinha sendo desenhado desde o início do ano. Ela não compareceu à Bienal do Livro de São Paulo deste ano, maior evento do setor no país e onde tinha um dos maiores estandes. No último mês, ela anunciou o fechamento de 20 das 84 lojas abertas no Brasil; no ano passado, eram 111 unidades em funcionamento.

O grande problema que enfrenta é o endividamento, de R$ 164 milhões líquidos no terceiro trimestre. É um saldo devedor 34% mais baixo do que o apresentado no trimestre anterior, de R$ 249 milhões, mas que segue sem perspectivas de ser quitado considerando que o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) da varejista ficou em R$ 49 milhões negativo, 90% maior do que o apresentado um ano antes.

A grande concorrente da Saraiva no país, Livraria Cultura, também está em mais lençóis e entrou com pedido de recuperação judicial depois de fechar todas as lojas da Fnac no Brasil, com dívida na casa dos R$ 285 milhões.

Ambas as redes de livrarias começaram a ter problemas também com editoras por falta de pagamento. Como contamos no início de agosto, as editoras Mythos, especializada em histórias em quadrinhos, e a Bookwire, a maior de livros digitais, deixaram de distribuir seus títulos às gigantes por conta de calote.

É uma situação preocupante também para as editoras já que, juntas, a Saraiva e Cultura respondem por 40% da venda de livros no país.

Elas tentam reverter a situação para seguirem ladeira abaixo: no último dia 6, o Snel (Sindicato Nacional das Editoras de Livros) convocou uma reunião com a Saraiva para tentar renegociar as dívidas, mas acabou recusando o acordo proposto, de que 45% da dívida fosse convertida em ações e debêntures, que o restante fosse quitado em 120 parcelas e que cada credor recebesse R$ 15 mil.

A tendência, com a recusa do acordo, é de que a Saraiva também acabe entrando em recuperação judicial, tal como a Cultura.

O que explica?

Investimentos que não deram certo, promoções exageradas, a crise econômica e o fortalecimento da Amazon no mercado brasileiro são alguns dos fatores que, juntos,  fizeram com que as empresas chegassem à “beira do abismo”.

A abertura de megastores e a inclusão de eletrônicos no catálogo, que exigiram um grande montante investido, não trouxeram retorno. A estratégia de oferecer grandes descontos, de até 20%, em livros recém-lançados e best-sellers para “enfrentar” a Amazon no mercado, somado ao encolhimento da receita com venda de livros – de 20% entre 2015 e 2017 – impossibilitaram que a contas ficassem no azul.

As empresas são as duas maiores players do mercado editorial brasileiro, mas dizer que existe uma crise no “mercado de livros”, entretanto, é errado: neste ano, ele cresceu 5,7% e teve aumento de 9,3% no faturamento, segundo o Snel. A perspectiva é de que se veja um “bom fechamento de ano”.

Tentativas

No terceiro trimestre, a Saraiva teve queda de 11,7% nos custos operacionais – e deve continuar se esforçando para diminuir ainda mais. Junto com os resultados e fechamento de lojas, ela anunciou um corte de 700 funcionários e que deixará de vender eletrônicos, como smartphones e notebooks. Eles passarão a ser oferecidos em um “marketplace próprio”.

A estratégia da empresa continua sendo de investir e focar na transformação digital da companhia, expandindo seu marketplace próprio, e também na venda omnicanal, integrando as vendas digitais e físicas.

Essa segunda é uma tendência do varejo no geral e, neste ano, já tem dado bons resultados para a Saraiva: o serviço Click & Collect, em que o cliente compra no e-commerce e retira os produtos em uma loja física da Saraiva, já corresponde a 18,4% dos pedidos do site; além disso, dos clientes que o escolhem, 2% realizam uma compra adicional nas lojas ao retira-los.

A Cultura, por sua vez, pretende se transformar em uma “companhia digital”. Em agosto, executivos da empresa comentaram sobre a criação de um centro de inovações que tem trabalhado no desenvolvimento de aplicativos, B.I. e mudanças para o marketplace; a expectativa é de que até 2020 80% da receita venha de canais digitais.

Junto das editoras, as livrarias agora pretendem limitar em 10% o desconto oferecido em lançamentos de livros durante seu primeiro ano de venda, tal como o faz mercado editorial francês. Um pleito das associações já está na Presidência. Dados os números recentes, entretanto, é necessário que os esforços sejam ainda maiores.

Nesta quarta-feira (14), as ações da Saraiva (SLED4) acumulam queda de 0,96%. No acumulado do ano, ela apresenta baixa de 49,13%.

Texto e imagem reproduzidos do site: infomoney.com.br

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Livraria Cultura pede recuperação Judicial

Sérgio Herz, presidente da Livraria Cultura: 
crise leva empresa a pedir de recuperação Judicial 
Leandro Fonseca/EXAME

Publicado originalmente no site da revista EXAME, em 25 out 2018

Crise na Cultura escancara apocalipse das livrarias no Brasil

Com pagamentos atrasados e forte concorrência da Amazon, a Livraria Cultura vai ter dificuldades em se reerguer.

Por Mariana Desidério

São Paulo – A Livraria Cultura entrou ontem com pedido de recuperação judicial, escancarando o momento de penúria do mercado de livrarias no Brasil. Em entrevista a EXAME publicada no início da semana, o presidente da companhia, Sérgio Herz, afirmou que o setor encolheu 40% na crise econômica, o que levou ao fechamento de lojas e a atrasos nos pagamentos.

Editoras e funcionários demitidos estão sem receber. Se a recuperação judicial se concretizar, terão de esperar ainda mais. No ano passado, a Cultura recebeu 130 milhões de reais para assumir a operação brasileira da rede de livrarias francesa Fnac. Chegaram a ser divulgados planos para o fortalecimento da marca sob o guarda-chuva da Cultura, mas a decisão final foi encerrar todas as lojas da francesa no país – a última, em Goiânia, foi fechada este mês. Funcionários da Fnac demitidos fizeram um protesto pois não receberam verba rescisória após o encerramento das lojas.

Outra grande rede de livrarias, a Saraiva passa por problemas semelhantes. Editoras reclamam de atrasos nos pagamentos enquanto a companhia acumula perdas. No segundo trimestre, a Saraiva reportou prejuízo de 37,6 milhões de reais, com um saldo devedor de 296 milhões de reais, valor que a Saraiva levaria 12 anos para pagar se mantivesse um fluxo de caixa constante sem novos empréstimos. A Livraria Cultura tem capital fechado e há algum tempo não abre seus dados de balanço.

Efeito Amazon

Além do momento delicado para a economia do país, a situação das livrarias se agrava com as transformações do mercado em escala global. E essas transformações podem ser resumidas em um nome: Amazon. A gigante norte-americana do varejo é conhecida por abalar os setores em que atua. Nos Estados Unidos, a força da Amazon e das compras pela internet já iniciou um processo batizado de apocalipse do varejo.

Por lá, enquanto os consumidores optam por comprar no conforto de casa, shopping centers e redes antes consolidadas fecham as portas. Alguns exemplos são a rede de brinquedos Toys R Us que decidiu encerrar as atividades no país, e a rede de lojas de departamentos Sears, que chegou a ser a maior do mundo nos anos 1960 e recentemente recorreu à lei de falências dos Estados Unidos para tentar um suspiro final (a rede tem uma dívida de 5,6 bilhões de dólares).

A Amazon chegou ao Brasil há seis anos, vendendo apenas livros. Na época, livrarias se mobilizaram e procuraram ajuda do governo para limitar a atuação da varejista, alegando risco para o mercado. Levantou-se a possibilidade de criação de um preço único do livro, para impedir que a multinacional vendesse mais barato que suas concorrentes. Uma regra semelhante existe em países como França, Alemanha, Espanha e Argentina. Um projeto que tramita no Congresso (PL 49/2015) define que qualquer livraria, física ou virtual, só pode dar descontos de até 10% para publicações no primeiro ano após seu lançamento. Limitar descontos em livros num país com pouco hábito de leitura é um tanto contraditório e o tema divide o setor. Enquanto isso, as promoções e facilidades oferecidas pela Amazon atraem os consumidores brasileiros.

Mas é simplista achar que a derrocada da Livraria Cultura é culpa da Amazon. O fato é que a companhia demorou para investir em tecnologia, e há algum tempo vinha tomando decisões controversas. Uma delas foi vender espaços de destaque em suas lojas para ações de marketing das editoras. A prática pode até ajudar a pagar as contas no curto prazo, mas é criticada por parte do mercado por reduzir a relevância da livraria para o seu maior ativo: o leitor disposto a comprar.

Na entrevista a EXAME publicada essa semana, Sérgio Herz afirmou que algumas das apostas da companhia para sair da crise são investir no online e transformar suas lojas em locais voltados a experiências, com teatros, restaurantes e eventos. A rede tem hoje 15 lojas no país. O pedido de recuperação judicial mostra que a estratégia ainda não deu os resultados necessários para levantar para a empresa. Se a recuperação for aprovada pela Justiça, a Livraria Cultura ganha uma sobrevida, mas dificilmente sairá do buraco se mantiver práticas ultrapassadas num mercado em rápida transformação.

Texto e imagem reproduzidos do site: exame.abril.com.br

domingo, 14 de outubro de 2018

Cida Caldas transformou a paixão por livros em profissão




Cida Caldas, a mulher que transformou a paixão por livros em profissão

Dona de um sebo há 33 anos, ela se reinventa mesmo no mundo das novas tecnologias .“É emocionante lidar com livros raros, antigos ou autografados pelos autores."

By RYOT Studio e CUBOCC

Viver no meio de livros, não apenas os que contam, mas o que têm história. Edições antigas, páginas marcadas pela assinatura de um autor que já morreu, um exemplar raro que não se encontra mais em nenhuma livraria. É o sonho de qualquer amante da literatura e uma realidade para Cida Caldas, de 55 anos. Ela criou um sebo de sucesso que movimenta Brasília há mais de três décadas. Ali fez amigos, criou uma comunidade, insistiu na beleza do antigo, transformou o lugar em ponto de encontro para falar do que ela mais gosta na vida: livros.

Cida nasceu quase junto com a capital federal, em 1963. Na cidade sonho de Juscelino Kubistchek, ela cresceu, se formou e logo teve o primeiro filho. Nesse período, trabalhava em uma livraria e morava em uma kitnet em cima de uma quadra comercial. "Na época eu já pensava em ter meu próprio negócio, mas não tinha grana. Trabalhava numa livraria que tava numa fase difícil e ia fechar. Falei pra minha chefe; 'sei que você está numa situação complicada, você não quer pagar minha recisão em livros e umas estantes?'. E ela topou", relembra.

A minha relação com livros foi sempre muito intensa, meu primeiro emprego não podia ter sido diferente: foi numa livraria.

Ela juntou os livros que tinha ganhado, com os que tinha em casa, e no pequeno apartamento 2012 no bloco C da quadra 406 Norte começou a vendê-los. "Era uma coisa bem pequena, eu cuidava do meu filho que tinha um ano, recebia as pessoas, passava um café. E contava muito com a ajuda do meu marido e da minha sogra. E com ela, em especial, me uni muito como mulher", conta. Cida acabou passando em um concurso como professora e foi dar aulas, mas sempre com a cabeça no negócio. Ainda que tivesse que trabalhar e estudar, com o tempo, conseguiu alugar uma loja pequena no comércio debaixo da sua kit.

Um acontecimento, no entanto, mudou um pouco o rumo das coisas, mas não a sua perseverança. "Nesse período, aconteceu uma coisa muito triste. Perdi meu marido num acidente de carro. Foi muito difícil. Ficamos eu e minha sogra, sendo que ela cuidava da loja pra mim. Diante da situação, o meu cunhado que morava nos EUA, que inclusive estava com ele no acidente e sobreviveu, abriu mão de tudo lá e veio pra Brasília. Ao mesmo tempo, com a entrada dele, começamos a crescer, alugamos a loja do lado e seguimos assim", relembra.

Ter uma livraria é bem diferente de ter um supermercado. Você tem que gostar e conhecer o produto muito bem.

A loja está sempre movimentada e agora abriga um café e bistrô que não fica vazio.
O Sebinho começou a ficar conhecido na cidade por quem queria encontrar livros raros e mais acessíveis. Não tinha propaganda e nem rede social que ajudasse, era o boca a boca que faziam as pessoas aparecerem. E Cida começou a se afastar do trabalho como professora e estar cada vez mais lá entre os livros e entre as pessoas. "Tem clientela que virou amigo e que acompanham a gente até hoje. Aqui virou um ponto de cultura, onde as pessoas vem pra ler, conversar com amigos, professores vem encontrar alunos, é bom demais, é minha segunda casa. A minha palavra é gratidão ao universo pelo trabalho que eu tenho e amo de paixão".

Três décadas depois, Cida analisa o espaço que tem hoje: ele ocupa todo o prédio e subsolo, bem distante daquele espaço pequeno onde tudo começou. A loja está sempre movimentada e agora abriga um café e bistrô que não fica vazio. "Gosto de olhar pra trás e ver quanto caminho eu já trilhei para chegar até aqui. Quem vê da forma como é hoje não tem noção da luta que foi. A gente sempre foi muito perseverante, e sempre teve a mente aberta. Várias livrarias fecharam em Brasília quando as grandes abriram. E muita gente me pergunta: 'como vocês conseguem sobreviver?' Não é questão de sobrevivência, tudo passa por um entendimento do seu público e da gestão do negócio", revela a empresária.

É emocionante lidar com livros raros, antigos ou autografados pelos autores.

Cida entendeu muito rápido que precisava manter sua autenticidade. Foi assim que transformou os primeiros 100 livros, em mais de 90 mil títulos que tem hoje. "Normalmente quando você vai numa livraria de livros novos, mesmo que você não tenha uma lista, você sabe exatamente o que vai comprar. O sebo já é uma viagem no tempo, ele mexe com a sua memória, ele faz você procurar. Tem gente que vem aqui e passa o sábado inteiro na loja. Já presenciei gente suspirando nos corredores dizendo 'poxa, essa coleção tinha no meu avó ou esse livro pertenceu ao meu pai ou minha mãe'. De alguma forma, você acaba passeando e encontrando história", diz.

A paixão pelos livros é o que permeia a vida e o trabalho de Cida. No ano passado, ela leu 78 livros, uma média de quatro por mês. "Uma coisa vai puxando a outra, e isso vai muito pelo fato de eu estar nesse ambiente. E muitos gente chega aqui e me indica também: 'você não leu esse livro? Tem que ler'", conta. "A leitura é um processo muito solitário, então a gente tá sempre querendo encontrar alguém pra falar sobre livros. Fiz uma roda de leitura e a gente se reúne uma vez por mês, cada semestre tem um tema, neste por exemplo, estamos passando pela literatura japonesa", conta.

A leitura é um processo muito solitário, então a gente tá sempre querendo encontrar alguém pra falar sobre livros.

Ela lida não apenas com a venda, mas a compra deles, diariamente. Vai até a casa das pessoas, caso haja um acervo com mais de mil títulos e nestes caminhos encontrou algumas peculiaridades. "Algumas coisas foram muito significativas pra mim, como a primeira edição do Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa. Ver livros que fizeram parte da minha infância e no decorrer da vida sumiram. Lembro quando encontrei uma coleção de capa dura de uns livros do Monteiro Lobato que queria muito quando pequena". E se lembra todo dia das histórias que seus livros perpetuam com outras pessoas.

Texto e imagens reproduzidos do site: huffpostbrasil.com

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

30 razões para ler livros no seu dia-a-dia


30 razões para ler livros no seu dia-a-dia Mesmo que você tenha lido apenas um bom livro em sua vida, saberá o que a leitura oferece – e esta, por si só, é uma das maiores razões para ler livros!

Ler cria um prazer incomparável. Embora não haja dúvidas sobre o fato de que a leitura é uma atividade inestimável, infelizmente o hábito da leitura declinou tardiamente – principalmente aqui no Brasil. Uma das principais causas desse declínio é o crescimento da tecnologia.

Segundo uma pesquisa Retratos da Leitura divulgada no jornal Estadão, 44% da população brasileira não lê e 30% nunca comprou um livro! Pois é: chocante, não?

No entanto, o que a maioria das pessoas não sabe é que há muito a se beneficiar da leitura.

Se liga nestas 30 razões para ler livros:

PROMOVE CONHECIMENTO Uma das maiores razões para ler livros é adquirir conhecimento. Os livros são uma fonte rica de informações. Ler livros sobre assuntos variados transmite informações e também aumenta a profundidade do assunto. Sempre que você lê um livro, você aprende uma nova informação que de outra forma não saberia.

APRIMORA SEU CÉREBRO Estudos mostraram que a leitura tem fortes efeitos positivos no cérebro. Ao permanecer mentalmente estimulado, você pode prevenir a demência e a doença de Alzheimer. Isso porque manter seu cérebro ativo impede que ele perca energia. O cérebro é um músculo e, como outros músculos do corpo, o exercício o mantém forte e saudável. Semelhante a resolver quebra-cabeças, ler livros é uma ótima maneira de exercitar seu cérebro e mantê-lo saudável.
 
REDUZ O ESTRESSE Uma das mais interessantes razões para ler livros: a leitura também tem um efeito positivo no corpo. Ler um livro pode aliviar o estresse melhor do que dar um passeio ou ouvir música. Segundo estudos quem ler mais tende a ter níveis mais baixos de estresse.

MELHORA A MEMÓRIA Toda vez que você lê um livro, você tem que lembrar a configuração do livro, os personagens, seus planos de fundo, sua história, suas personalidades, as sub-tramas e muito mais. Enquanto seu cérebro aprende a lembrar de tudo isso, sua memória fica melhor. Além disso, a cada nova memória criada, você cria novos caminhos e isso fortalece os caminhos existentes no seu cérebro.

MELHORA A IMAGINAÇÃO Outra entre as principais razões para ler livros é a capacidade que o hábito tem de aprimorar sua imaginação. Quanto mais você lê, mais imaginativo você se torna. Sempre que você lê um livro de ficção, ele te levapara outro mundo. No novo mundo, a sua imaginação funciona da melhor forma quando você tenta ver as coisas em sua mente.

DESENVOLVE HABILIDADES DE PENSAMENTO CRÍTICO Um dos principais benefícios da leitura de livros é a capacidade de desenvolver habilidades de pensamento crítico. Por exemplo, ler uma trama de mistério aguça sua mente. Habilidades de pensamento crítico são cruciais quando se trata de tomar decisões importantes do dia a dia. A leitura exige que um indivíduo pense e processe informações de uma maneira que a televisão não pode fazer. Quanto mais você lê, mais profundo fica o seu entendimento sobre o que você está lendo e sua aplicação.

CONSTRÓI VOCABULÁRIO A leitura melhora seu vocabulário e comanda o idioma. Enquanto você lê, você se depara com novas palavras, expressões idiomáticas, frases e estilos de escrita.

MELHORA AS HABILIDADES DE ESCRITA Outro destaque entre as razões para ler livros é este! Ler um livro bem escrito afeta sua capacidade de se tornar um escritor melhor. Assim como os artistas influenciam os outros, os escritores também. Muitos autores bem-sucedidos adquiriram seus conhecimentos lendo as obras dos outros. Então, se você quer se tornar um escritor melhor – ou simplesmente quer escrever melhor – comece aprendendo com mestres.

MELHORA AS HABILIDADES DE COMUNICAÇÃO Melhorar o seu vocabulário (e desenvolver habilidades de escrita) anda ao lado do desenvolvimento de habilidades de comunicação. Quanto mais você lê e escreve, melhor se comunica. Aumentar sua capacidade de se comunicar melhora seus relacionamentos e até faz de você um melhor funcionário ou aluno.

MELHORA O FOCO E A CONCENTRAÇÃO Em nosso estilo de vida atarefado, nossa atenção é atraída em direções diferentes a cada dia, à medida que tentamos realizar várias tarefas ao longo da nossa rotina. Por exemplo, você pode se dividir entre trabalhar em uma tarefa, conversar com pessoas via WhatsApp, verificar e-mails, ficar de olho no Facebook e interagir com seus colegas. Toda essa multitarefa pode levar a um alto nível de estresse e baixa produtividade. Quando você lê um livro, toda a sua atenção está focada no que você está lendo. Seus olhos e pensamentos estão imersos nos detalhes da história. Isso melhora sua concentração e foco. Leia um livro, pelo menos, 20 minutos por dia, e você ficará surpreso com o quanto mais focado você será. Esta é certamente uma das melhores razões para ler livros.

UM PASSATEMPO FRUTUOSO Os livros nos mantêm ocupados. Isso também leva a um uso proveitoso do tempo! Isso não apenas nos ajuda a nos livrar das preocupações, mas também desvia nossa mente da monotonia. Os livros são excelentes fontes de recreação. Alguém que gosta de ler nunca ficará entediado, pois esta é uma maneira perfeita de se livrar do tédio. À medida que os livros o levam para outro mundo diferente, você relaxa e rejuvenesce.

É UM ENTRETENIMENTO BARATO Em comparação com outras formas de entretenimento, os livros são bem baratos. Você provavelmente nunca conseguirá um ingresso de cinema por R$10. Mas, com esse dinheiro, você pode comprar um livro e se divertir por muitas horas. Aliás, a Amazon está com uma promoção imperdível! Na Book Friday, que rola até às 23h45 do dia 2 de setembro, o site contará com uma seleção de mais de 22 mil títulos em formato físico e digital com descontos de até 80% e opção de frete grátis para todo o Brasil. A gente fez uma seleção de livros imperdíveis que estão na campanha! Se liga.

MOTIVAÇÃO Com certeza, uma das mais incríveis razões para ler livros. A vida é cheia de desafios. À medida que nos movemos por fases diferentes, uma pequena motivação pode ser de grande ajuda. Ler livros inspiradores sobre experiências de vida pode mudar nossas vidas. Lendo um bom livro, tal autobiografia o mantém encorajado e você também aprende dicas para alcançar seus objetivos pessoais. Basicamente, você se inspira para se tornar um melhor marido, filho, pai ou até empregado.

MELHORA A SAÚDE Existem milhares, se não milhões, de grandes livros de auto-ajuda. Muitos desses livros podem realmente ajudar a melhorar sua saúde. A leitura desses livros reduz os níveis de depressão. Pessoas com depressão grave podem se beneficiar da leitura de livros de autoajuda. Além disso, esses livros oferecem dicas importantes sobre exercício, dieta e outras dicas de estilo de vida saudável. Tudo isso leva a uma melhor saúde mental e física.

TORNA VOCÊ MAIS EMPÁTICO Segundo estudos, perder-se em livros, especialmente ficção, pode aumentar sua empatia. Em um estudo realizado na Holanda, pesquisadores mostraram que pessoas que foram “transportadas emocionalmente” por uma obra de ficção experimentaram um aumento na empatia. Ao ler um livro, você se torna parte da história e sente a dor e outras emoções dos personagens porque você está absorvendo aquilo em perspectiva. Isso, por sua vez, permite que sua mente se torne mais consciente de como as coisas diferentes afetam as outras pessoas. Eventualmente, isso melhora sua capacidade de enfatizar com outras pessoas. Então, vá em frente e leia! Um mundo com pessoas mais empáticas seria definitivamente um lugar melhor! Certamente, esta é uma das mais importantes razões para ler um livro.

MELHORA AS HABILIDADES A leitura é um construtor de habilidades fundamental. Para cada bom curso na terra, há um livro correspondente para acompanhá-lo. Livros fornecem informações importantes sobre vários assuntos e tópicos. A melhor coisa sobre a leitura é que você pode ir mais fundo do que aprender em uma discussão em sala de aula. Seja cozinhando, dançando ou até mesmo limpando, você sempre pode melhorar suas habilidades lendo livros.

 CONSTRÓI AUTOESTIMA Ao ler muitos livros, você se comunica melhor e se torna mais informado sobre várias áreas da vida. Tudo isso se traduz em uma maior autoestima. Como você tem confiança em si mesmo e em sua capacidade de entregar, você se torna mais produtivo e, em geral, uma pessoa muito melhor.

ENTRETENIMENTO PORTÁTIL Os livros são portáteis e leves. Eles não são como computadores volumosos e jogos que ocupam muito espaço. Você pode embalá-lo em sua mochila e carregá-lo facilmente para todos os lugares – isso sem falar dos e-readers. Você pode ler em qualquer lugar, em um avião enquanto viaja, em sua cama antes de dormir, no ônibus a caminho do trabalho, sob uma sombra enquanto relaxa, ou mesmo durante suas férias.

 AJUDA VOCÊ A DORMIR MELHOR O sono deficiente leva a baixa produtividade. É por isso que muitos especialistas recomendam que você estabeleça uma rotina regular de se desestressar antes de dormir para ajudar a acalmar sua mente e, portanto, dormir melhor. Ler um livro é uma das melhores maneiras de se acalmar antes de ir para a cama. Em vez de assistir televisão ou passar muito tempo em seu smartphone enquanto está na cama, reserve um tempo para ler. As luzes brilhantes dos dispositivos eletrônicos apenas afetarão o seu sono. Por outro lado, um livro ajudará você a dormir melhor. Uma das mais relaxantes razões para ler livros!

TE FAZ APRENDER SOBRE OUTRO MUNDO O mundo da ficção permite que você viaje para outro mundo, onde tudo é diferente. Ao ler livros, você tem um vislumbre de outras culturas e lugares. Os livros expandem seus horizontes, permitindo que você veja outros países, outras pessoas e tantas outras coisas que nunca viu ou imaginou. É a maneira perfeita de visitar um país estranho em sua mente.

SOCIALIZAÇÃO Podemos sempre compartilhar tudo o que lemos com nossa família, amigos e colegas. Tudo isso aumenta nossa capacidade de socializar. Os seres humanos são seres sociais e, no mundo dos smartphones, estamos perdendo nossa capacidade de socializar. No entanto, a leitura levou à formação de clubes do livro e outros fóruns, onde temos a chance de compartilhar e interagir com os outros.

MELHORA A CRIATIVIDADE A maior diferença entre ler e assistir televisão é que a leitura dá a você espaço para liberar sua criatividade. Quanto mais você lê, mais você aprende coisas novas. Novos pensamentos sempre esticam nossas mentes para redescobrir a vida de maneiras novas e melhores. Começamos a ver o mundo de uma maneira diferente e assim encontramos novas soluções criativas, e este é uma das mais incríveis razões para ler livros.

TE AJUDA A APRENDER NO SEU PRÓPRIO RITMO Outro benefício de ler um livro é que você aprende no seu próprio ritmo. Como você tem o livro o tempo todo, pode sempre voltar a uma seção que acha que não entende. Você pode reler um capítulo quantas vezes desejar, sem se preocupar em perder uma seção. Se é um livro de autoajuda, você pode resolver um problema por vez. Depois de lidar com um problema, você pode passar para a próxima edição sempre que achar que está pronto. Tudo é feito no seu próprio ritmo e, mais importante, sua mente é livre para interpretar as coisas do jeito que você se sente.

VOCÊ TEM MUITAS OPÇÕES PARA ESCOLHER Outra entre as incríveis razões para ler livros é a grande cartela de opções. Há tantos livros ótimos para ler que você nunca terminará todos eles em uma vida. Livros foram escritos durante séculos, agora, alguém está escrevendo um livro e, no futuro, livros ainda serão escritos. Se você está procurando algo para inspirar você, algo para fazer você rir, romance ou até mesmo ganhar uma nova habilidade, há inúmeros livros para isso. Tudo que você precisa é tirar um tempo e escolher qual deles ler. Nunca haverá uma falta de grandes livros.

 APRIMORA A MORAL Os livros nos ajudam a discernir melhor as boas ideias das más ideias. Ler um livro nos permite aprender sobre diferentes abordagens da vida e os problemas que enfrentamos. Ao fazer isso, você tem a oportunidade de discernir o que funcionou no passado e o que não funcionou. Basicamente, você aprende a tomar melhores decisões na vida.

VOCÊ APRENDE MAIS SOBRE HISTÓRIA Um motivo pedagógico entre as razões para ler livros é esta! A história desempenha um papel importante sobre quem somos hoje. Ao ler livros, entendemos melhor o passado e como ele continua a nos afetar. Com os livros, você tem a chance de aprender sobre seu país, família e o mundo em geral. É uma ótima maneira de revisitar seu passado e apreciar o presente.

 RAZÕES PARA LER LIVROS: TE FAZ ECONOMIZAR DINHEIRO Além de ser barato, você também economizará muito dinheiro lendo livros. Os livros não precisam de eletricidade, nem precisam de qualquer tipo de manutenção. Além disso, quando você lê um livro sobre uma certa habilidade, como culinária, trabalhos em madeira ou tarefas simples de manutenção, você economiza o dinheiro que teria usado para contratar um profissional. Você não apenas aprende novas habilidades, mas também economiza um monte de despesas.

SEM EFEITOS COLATERAIS DO MUNDO DIGITAL Passar muito tempo assistindo televisão ou jogando videogames pode afetar sua saúde ocular a longo prazo. Por outro lado, os livros são seguros e fáceis. Ninguém jamais ficou cego por ler muitos livros. Não há efeitos colaterais conhecidos ou perigos de ler grandes livros. Tudo o que há são benefícios.

TE TORNA MAIS INTELIGENTE Com tanto para aprender com os livros, as pessoas que leem regularmente tendem a ser mais espertas do que as que não leem. Eles tendem a ter uma mente aberta e estão mais conscientes do seu entorno.

LIVROS PODEM SER MAIS INTERESSANTES QUE FILMES Tantos filmes foram adaptados de livros. Mas, se você ler um livro e assistir ao filme, você concordará que o livro é 100 vezes melhor que o filme. Há sempre essa parte única, como o que um personagem está pensando, que um filme nunca pode capturar. E aí? Convencido? Bom, se você chegou até o final desta lista, provavelmente já está no caminho da leitura!

Maria Confort Jornalista, cinéfila, fanática por literatura e, por isso, apaixonada pela ideia de entender pessoas.

Texto e imagem reproduzidos do site: manualdohomemmoderno.com.br