terça-feira, 5 de março de 2019

As contradições das livrarias


Publicado originalmente no site da Revista Ideias, em 21 de fevereiro de 2019    
  
As contradições das livrarias
         
Por Dédallo Neves 

Saraiva e Cultura pediram recuperação judicial no mesmo ano em que as vendas de livros cresceram no país

Em entrevista à Paris Review, William Faulkner profetizou tempos que chegariam mais rápido do que o esperado. Perguntado sobre o futuro do romance afirmou que ele existiria enquanto as pessoas continuassem a ler, exceto se as histórias em quadrinhos ou revistas ilustradas atrofiassem a nossa capacidade de ler, aí voltaríamos à escrita pictórica na caverna de Neandertal. Atrofiamo-nos? O consumo de variados tipos de conteúdo através de imagens poderia confirmar. Ou poderia ser apenas uma posição conservadora quanto ao renovar da comunicação, como aqueles que martelavam contra o cinema. Embora, deva haver alguma diferença entre Godard e as piadas com engomadinho riquinho que circulam pela internet. Mas e o fechamento das livrarias? Não seria um indicativo de nossa atrofia? Recentemente, o mercado das grandes varejistas sofreu um revés brabo.

Em outubro do ano passado, a Cultura entrou com um pedido de recuperação judicial. Há meses não consegue cumprir acordos e pagar fornecedores. Em nota a empresa responsabilizou a crise econômica brasileira e o encolhimento do mercado editorial. “As incertezas do cenário econômico brasileiro e, dentro dela, a crise do mercado editorial, que encolheu 40% desde 2014, fez com que a Livraria Cultura passasse a enfrentar dificuldades, também. Infelizmente, após quatro anos de recessão, o cenário geral no país não apresenta sinais claros de melhoria”, diz a nota.

No mês seguinte foi a vez da Saraiva. Com uma dívida de R$ 674 milhões, a líder em venda de livros do país afirmou que “ante os desafios econômicos e operacionais do mercado e indicadores que retratam uma mudança na dinâmica do varejo, tem tomado uma série de medidas voltadas para a evolução da operação e perenidade do negócio”.

Para justificar a crise, alguns acusaram, além do fraco desempenho econômico, a própria cultura brasileira não dada à leitura. Faz sentido? Poderíamos dizer talvez. Isto porque outros dados indicam aumento no consumo de livros. Portanto, se a Saraiva e a Cultura estão a fechar as portas pode indicar má competência administrativa em vez de a formação de um mercado. Muitos tópicos podem ser elencados para esta discussão. Vamos do início.livrarias


Sérgio Buarque de Holanda, em “Raízes do Brasil”, faz numa passagem muito breve – pouco mais de uma página – um estudo editorial comparativo entre as Américas espanhola e a portuguesa nos três primeiros séculos após a chegada dos europeus. Revela dados que ecoam contemporaneamente, cuja relação não é tão consequencial como se supõe, mas aponta direcionamentos. Diz o autor que em 1535 já se tem notícia da impressão de livros na Cidade do México, e, em 1584, em Lima. Holanda garante que o Brasil foi um dos últimos países da América Latina a ter uma oficina gráfica. E logo após seu aparecimento, em 1747, no Rio de Janeiro, uma ordem real fecha-a, eis o que dizia (em português setecentista): não era conveniente que no Estado do Brasil “se imprimão papeis no tempo presente, nem ser utilidade aos impressores trabalharem no seu ofício aonde as despesas são maiores que no Reino, do qual podem hir impressos os livros e papeis no mesmo tempo em que d’elles devem hir as licenças da Inquizição e do meu Conselho Ultramarino, sem as quaes se não podem imprimir nem correrem as obras”.

Proibida a imprensa, só seria reestabelecida com a vinda da família real no começo do século XIX. Em 1821, quando a indústria gráfica brasileira ainda engatinhava com suas primeiras publicações, já tinha-se conhecimento de 11.652 obras na Cidade do México. E entre os anos de 1584 e 1824, Lima havia editado 3.948 obras. De acordo com Holanda, o impedimento por parte do Estado lusitano do florescimento da vida intelectual brasileira se deu justamente para impedir a circulação de ideias, favorecendo desta maneira o domínio português. Ao contrário da América espanhola.

Uma dessas repercussões pode ser vista no levantamento realizado pelo World Cities Cultural Forum, de 2015, a revelar que Buenos Aires é a cidade com maior número de livrarias por habitantes no mundo. À época eram 2.8 milhões de habitantes, com 734 livrarias, ou seja, 25 livrarias para cada grupo de cem mil habitantes. A tomar o dado do mesmo período, para efeitos comparativos, São Paulo tinha, de acordo com a Associação Nacional de Livrarias (ANL), 390 livrarias, o que correspondia a 3,5 livrarias por cem mil habitantes. No Brasil há uma livraria a cada 64,9 mil habitantes. Segundo a Unesco, o número adequado seria uma a cada dez mil habitantes.

Tendo isso em mente, o que revela o estudo de Holanda? A cultura livresca começou tarde no Brasil e para um segmento muito restrito, a considerar o alto nível de analfabetismo existente. De acordo com José Ricardo Pires de Almeida que publicou, em 1889, um estudo intitulado “História da instrução pública no Brasil”, em 1886 a população escolarizada era apenas de 1,8%. E dados do IBGE mostram índices relativamente altos de analfabetismo, em 2012 estava em 8,7%, o que corresponde a 91,3% da população alfabetizada. Cuba, por exemplo, tem taxa de 100% de alfabetizados. Uruguai tem 99%; Argentina, Costa Rica e Chile, 98%. O Brasil está atrás de países como Venezuela (97%); Paraguai, Panamá, México, Indonésia, Jordânia, Arábia Saudita (todos com 95%).


CONSUMO

Isso serve como contextualização para o entendimento de determinadas características indicadas pelas pesquisas. O Instituto Pró-livro apontou que, em 2011, 21% da população brasileira não tinha livro próprio em casa, enquanto a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), em 2014, divulgou o dado que 97,6% têm televisão. Ano passado, o Pró-livro também pesquisou a média de leitura do brasileiro: 2,43 livros por ano. Enquanto a PNAD afirmou que assistimos televisão de duas a três horas por dia. A curiosidade aqui é o que foi argumentado sobre o porquê de não ler mais. De acordo com 43% é falta de tempo. Outros 23% falaram que não gostariam de ter lido mais. 9% preferem outras atividades. 9% não têm paciência para ler. E o resto se divide em outros quesitos tão assustadores quanto estes. Aramis Chain, proprietário da Livraria do Chain, afirma que estas “respostas são medíocres” e não ler por falta de tempo “é uma grande mentira”. Em 2019, a Livraria do Chain completa 51 anos. Foi considerada na década de 1990 a melhor livraria do país. Aramis Chain sublinha: “vendemos livros”, em referência às livrarias que investem em outros produtos ou em outras práticas, como os cafés.

A contradizer tudo o que foi dito até aqui, o Sindicato Nacional dos Editores de Livros publicou os números de 2018 em comparação com o ano anterior sobre o faturamento e volume dos livros. Em 2017, faturou-se R$ 1.231.136.151,75, enquanto em 2018, R$ 1.346.026.785,24, um aumento de 9,33%. E o número de livros vendidos acompanha o crescimento do faturamento. De 29,4 milhões para 31,1 milhões. Os dados são referentes aos nove primeiros meses do ano. O número de ISBNs também teve aumento, ou seja, mais livros foram publicados. Em 2017, foram 284.896 novos ISBNs, enquanto em 2018, 299.508, acréscimo de 5%.

Levando em consideração este aumento no faturamento e de ISBNs, por que as livrarias estão a fechar? De acordo com o presidente da Associação Nacional de Livrarias, Bernardo Gurbanov, alguns aspectos justificam: contexto nacional de recessão, baixo índice de leitura dos brasileiros, a concorrência dos meios digitais – seja através da leitura de e-books ou de vendas de empresas como Amazon, por exemplo – e aumento dos aluguéis e IPTU. Ao jornal Nexo, Gurbanov afirmou que “Os aluguéis também estão subindo muito e não recebemos nenhum tipo de apoio do poder público, como é o caso, por exemplo, de igrejas, que não pagam IPTU”.

Socorro Araújo, dona da Livraria Vertov, uma portinha na rua Visconde do Rio Branco, cujo catálogo (em torno de 10 mil títulos) contempla livros à esquerda do espectro político, embora trabalhe com os mais diversos assuntos (sociologia, história, gastronomia, livros infantis, turismo, jornalismo etc.), não vê a gigante Amazon tão grandiosa assim: “A Amazon não nos atinge. Nosso caráter específico faz com que tenhamos um público consolidado. Há livros que nem coloco na Estante Virtual [site para venda de livros usados ou novos que reúne sebos e livrarias do Brasil todo] porque sei que interessará a determinado cliente”. Embora veja a necessidade de frear a empresa americana: “Considero urgente a regulação do mercado. Na França, por exemplo, a Amazon não pode dar desconto maior do que 10%. Ela compra livro por quilo, a concorrência é desleal.”

A opinião de Evandro Martins Fontes, editor, livreiro e sócio da Martins Fontes, é categórica. Afirmou em entrevista à Folha de S. Paulo, em dezembro passado, que deixou de fornecer livros à Cultura há dois anos por falta de pagamento. Logo, para ele, esta crise das varejistas não surpreende e culpa também determinadas editoras. “Essa crise não é novidade. Me surpreende quando agora vem a público o montante que algumas editoras têm com essas empresas. Fico espantado. Como os diretores dessas editoras permitiram que isso acontecesse? Eu os vejo como coniventes.” Além de certa dissimulação entre os grandes grupos editoriais: “O Luiz Schwarcz [presidente do grupo Companhia das Letras] aparece na mídia fazendo campanha, se declarando apaixonado pelo livro. Acho piegas, sou bem crítico. Esses grandes grupos editoriais, ao longo desses anos todos, praticaram uma política comercial bastante diferente, oferecendo descontos muito maiores para Saraiva e Cultura do que para as pequenas e médias livrarias. Ele não teve paixão pelas livrarias pequenas na última década”.

Por outro lado, Socorro Araújo, no negócio desde 2010, destaca a boa relação com as pequenas editoras, “Das pequenas editoras não tenho nenhuma reclamação. Não falta e não atrasa nada.” E também ressalta a relação existente entre a Vertov e as editoras com que trabalha. “Faz diferença a identificação com as editoras que trabalhamos. Você sabe que elas precisam ter tudo em dia para ter giro para, dessa forma, gerar a literatura que vendemos. Não há um descompromisso. Estamos comprometidos ideologicamente. A maneira que pensamos e o que nos propomos a fazer”.

Segundo Martins Fontes, a crise enfrentada pela Saraiva e Cultura pouco se relaciona com o mercado do livro e se aproxima mais de uma crise administrativa das varejistas. “É um certificado de irresponsabilidade administrativa. Vejo um problema de modelo de negócio. E não uma crise do livro como produto. As vendas de livros cresceram. Esses casos são pontuais”. Socorro Araújo também não enxerga uma crise do livro em si, e vê o mercado com otimismo. “O que tenho visto é que do final do ano passado para o começo deste ano, as editoras estão procurando as pequenas livrarias. Editores tradicionais, como Rocco, estão dizendo que este é o momento das pequenas livrarias. Porque eles não querem mais trabalhar da forma que se submeteram nas grandes redes”. Chain tem opinião contrária. Para ele a alta carga tributária engolirá os pequenos livreiros. “As pequenas livrarias vão quebrar. Não há como sobreviver economicamente. Espero estar errado, mas só vejo futuro se a livraria tiver apenas um funcionário”. Mas concorda com a má administração das varejistas. “É um despreparo econômico e uma irresponsabilidade, inclusive das editoras”. Martins Fontes lembra que parte da dívida da Saraiva e da Cultura é com o BNDES, por causa de empréstimos para abertura de lojas em shoppings.

Acompanhando Martins Fontes, a presidente da Liga Brasileira de Editores (Libre), Raquel Menezes, considera que tanto a Saraiva, quanto a Cultura tiveram problemas de gestão, investindo num mercado que ultrapassa a venda de livros, como os eletrônicos. Outro fator é a maneira que se vende. O comércio eletrônico (via internet) da Cultura corresponde a 30% de suas vendas, o objetivo da empresa é chegar a 70%, ou seja, a tendência é reduzir ainda mais o número de lojas.


Os preços praticados pelas grandes varejistas não favorece pequenos e médios livreiros, levando muitos a fecharem as portas, na opinião de Menezes. Em 10 anos (2007-2017), os pequenos livreiros (até nove funcionários) e pequenas papelarias representaram 20.912 das 21.083 livrarias e papelarias que fecharam no país, ou seja, um encolhimento de 29%. Para Chain, a crise é moral e não considera o mundo digital como um vilão. “O universo digital não é o responsável pelo falecimento das livrarias. Os governos, de maneira global, ensinam a desaprender ciência, arte e filosofia. Este anti-intelectualismo praticado pelos donos do mundo, que tem seus asseclas na América Latina e na África, pregam a igualdade por baixo, a liberdade sem deveres e a fraternidade entre as quadrilhas”.

O QUE LEMOS?

Para concluir este cenário que não é dos melhores, a Ideias buscou que tipo de literatura é consumida pelos brasileiros. Quem tem os dados é o Instituto Pró-livro e eles são referentes ao ano de 2015. Disparado na frente estão os livros religiosos com 64%, divididos entre 42% para a Bíblia e 22% para outros livros. Com 22% também estão “contos” e “romances”, seguidos por “didáticos” (16%); infantis (15%); HQs, gibis ou RPG (13%); poesia (12%); história, economia, política, filosofia ou ciências sociais (11%); ciências (10%), a lista segue, o último dado a ser destacado é sobre “autoajuda”, que sempre está entre os mais vendidos, embora apenas 8% costuma ler tal gênero. A média de gêneros escolhidos por entrevistado foi de 2,8, logo não há uma leitura tão plural.

O que podemos concluir de tudo isso é uma imensa contradição. Não se tem muita certeza do que está acontecendo. A crise na Saraiva e Cultura parece ter tomado nos últimos meses uma proporção no mercado das livrarias desproporcional e não representa tão bem o andamento da carruagem. Há encolhimento de livrarias, há crescimento na venda de livros, há gente lendo de menos e nunca se leu tanto. Para Chain, “as pequenas livrarias serão engolidas pela ignorância”, isto é, pela falta de interesse no livro. Socorro, por sua vez, compreende que não fará fortuna, mas permanece firme com sua clientela e destaca a sua responsabilidade social. “Ninguém aqui tem um centavo sobrando. Mas, por outro lado, não temos nenhuma dívida. Nossa intenção não é fazer fortuna. Quando abrimos a Vertov queríamos fazer o papel das antigas livrarias, ou seja, estar aberta à comunidade. Quem quer acumular capital, este não é o negócio.” E conclui cutucando os proprietários das grandes varejistas: “Os pequenos livreiros podem até ter alguma dificuldade para pagar, mas pagam. E ninguém está rico, nenhum pequeno livreiro comprou um iate, um apartamento em Paris ou investiu em patrimônio pessoal”.

Não sabemos se é a hora e a vez das pequenas livrarias, da Amazon ou do que o futuro reserva. Os fatos concretos dizem que as grandes livrarias são irresponsáveis, as grandes editoras convenientes e nada disso favorece a uma cultura livresca, defasada no Brasil.

Texto e imagens reproduzidos do site: revistaideias.com.br

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

O outro lado, também político, de Jorge Amado

JORGE AMADO EM PARIS, 1948. 
CRÉDITO: ACERVO FUNDAÇÃO CASA DE JORGE AMADO

Publicado originalmente no site da revista Carta Capital, em 1  de janeiro de 2019 

O outro lado, também político, de Jorge Amado

 Por Marina Gama Cubas    
  
“Não conte, mostre.” Foi com esse conselho, a bagagem de jornalista do mundo das letras e a formação de historiadora que Josélia Aguiar escreveu Uma biografia: Jorge Amado (ed. Todavia), obra que revela em mais de 500 páginas a história de um dos grandes nomes da literatura brasileira. “O livro poderia ter o dobro do tamanho e ainda assim não seria chato”, diz a biógrafa.

JOSELIA AGUIAR, BIÓGRAFA DE JORGE AMADO.
 CRÉDITO: SILVIA CONSTANTINI

A missão de escrever sobre Jorge Amado lhe foi dada há sete anos. Era 2011 e, em pouco mais de um ano, seria celebrado o centenário do escritor baiano. O plano era lançar o livro nesse período, mas logo nos primeiros meses de pesquisa, a jornalista percebeu que o deadline era curto demais. Havia muita vida em Jorge Amado e em sua época.

Conhecido por sua militância na literatura, pouco se fala de seu papel no mundo político-partidário. “Ele entra para a juventude comunista em 1932. Nesse período, faz uma obra que é considerada muito militante – Cacau, Suor, Jubiabá, Cara Vermelha -, em que, quase sempre no final, o herói sempre se engaja na luta. Eram nos livros que ele indicava ao leitor para se tornar comunista e fazer greve.”

Biógrafo

No Partido Comunista, ele foi considerado um quadro fiel. Participava das reuniões e atuava inclusive nas questões burocráticas da sigla. Seu nome ganhou maior importância de fato após lançar a biografia de Luís Carlos Prestes, escrita enquanto estava no exílio. Vida de Luís Carlos Prestes: O Cavaleiro da Esperança, lançado antes na Argentina (1942) que no Brasil, foi um sucesso de público.

“No Brasil, os leitores receberiam a obra clandestinamente: encontradas por vezes a preços exorbitantes, era também consumida por meio de cópias datilografadas e fac-símiles. O aluguel do exemplar também era possível. Para despistar, leitores referiam-se ao livro por títulos como “Vida de são Luís’, Vida do rei Luís’ e ‘Travessuras de Luisinho’”, descreve Joselia no livro.

Parlamentar

Poucos anos mais tarde, Jorge foi lançado por seu partido a deputado federal. “Hesitei longamente, e aceitei a custo. Não acredito em Prestes e na atual direção do Partido”, escrevera em seu diário em novembro de 1945, colhido pela biógrafa. Nesse período falava, na sua intimidade, um Jorge que começava a ver as contradições do próprio partido.

Na Assembleia Constituinte, junto com Marighella, foi autor do primeiro discurso feito pela bancada comunista, proferido por Claudino José da Silva, ex-ferroviário e marceneiro, era o único negro alí. Os dois acabaram se tornando os redatores oficiais do partido naquele período.

Não foi apenas do talento oratório que Jorge se firmou no Parlamento. Ele foi autor de projeto de lei que passou a vigorar a partir da Constituição de 1946, que garantia a liberdade religiosa do país. “Não se extinguiu o preconceito, no entanto, não havia mais permissão para perseguir pais e mães de santos nos terreiros”.

“Para a aprovação do projeto, Jorge usou de uma habilidade que carregou a vida inteira: conversar com todos os setores”, conta Josélia. Ele buscou apoio da direita antes de procurar seus companheiros de sigla, com isso aprovou tranquilamente seu projeto.

Jorge apresentou outras 14 emendas ao projeto de Constituição. Alguma delas previam a isenção do tributo a importação e produção de livros, periódicos e papel de imprensa; a concessão de habeas corpus aqueles que eram vítimas de de arbitrariedades policiais; o fim da censura prévia em livros e jornais; e a contrariedade a obrigação do ensino religioso nas escolas.

“O partido é cassado e os deputados, idem, em 1948. Jorge vai para o exílio na França e na República Tcheca. Nessa época, se torna um quadro importante entre artistas, escritores e cientistas do Movimento pela Paz, braço soviético na batalha cultural”, conta.

O escritor só retornou ao Brasil em 1952 e publica Os subterrâneos da liberdade, seu livro ideologicamente mais marcado. A desconfiança de que as coisas na cortina de ferro não aconteciam como imaginava, por causa da delação e prisão de amigos que considerava inocentes e eram acusados de conspirar

Diálogo

Na reabertura política chegou a dizer: “Precisamos dar expressão partidária da extrema direita a extrema-esquerda”. “Ele acha que as coisas funcionam democraticamente quando todos os partidos possam existir. É o Jorge Amado”, afirma Josélia.

Homem de esquerda até a morte nunca, deixou de conversar com à direita, aliás, encargo que o fazia tão precioso ao partido. “O que, para ele, era problema para ele era o reacionário. Liberal ou socialista. Isso nunca foi um problema mesmo nos momentos em que ele é extremamente militante. Sendo uma pessoa inteligente, que conversa e que debate era o suficiente. “Ele sempre dizia que o problema era o reacionário, era o latifúndio”.

A partir de 1956, ele decide sair à francesa das atividades partidária. “Jorge se afasta para ser escritor, mas ele não deixa de ser um homem de esquerda. O que ele diz é que na época dele você só era comunista e que hoje – quando ele dá essas entrevistas nos anos 90 – já é possível ser de esquerda de outra maneira, não apenas da maneira dele, no passado. Ele acredita num socialismo com liberdade porque sem liberdade é ditadura e ditadura é uma merda, tanto de direita como de esquerda”.

Há muita vida em Jorge Amado e sua época. Esses são apenas alguns pontos da história do escritor e homem de esquerda. Há outras centenas no livro.

Texto e imagem reproduzidos do site: cartacapital.com.br

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Escritor Érico Veríssimo


Relações Literárias - ÉRICO VERÍSSIMO

Por Darcy Ribeiro

“Os brasileiros não se conceberiam se não fossem, por exemplo, os gaúchos. Ficariam bestificados se alguém contasse de boca aquelas coisas que o Érico Veríssimo contou. Nos livros dele, o gaúcho se vê gloriosamente, isso é formidável”.

Fonte: O Estado de São Paulo, 24/02/1996 – Roberta Jansen

Por Luiz Antonio de Assis Brasil

Érico Veríssimo é um ícone da nossa cultura, um de seus formadores – e seu representante máximo. Sua capacidade fabuladora (dizia-se ele mesmo um contador de histórias) arrebata o leitor. Ele faz parte de uma vertente que iniciou com João Simões Lopes Neto e transita por Josué Guimarães, Cyro Martins e outros. Esses escritores têm, em comum, a representação (muitas vezes crítica) da anima gaúcha. É natural que qualquer escritor que tenha seus temas situados no Rio Grande do Sul acabe, de uma ou de outra forma, percorrendo sendas compartilhadas. Não vejo Érico como uma sombra, mas como um intelectual que, dotado de impecável coerência, ensinou-nos o profissionalismo da escrita”.

Fonte: O Estado de São Paulo, 12/08/2001 – José Castello

Por Lya Luft

O Érico Veríssimo era meu compadre, ele e a Mafalda [Halfen Volpe] foram padrinhos de um dos meus filhos. E eu, muito jovenzinha, eu ficava na casa deles, eu ficava quieta, escutando, e eu gostava muito deles, dos dois, a minha comadre Mafalda foi sempre o meu modelo. Era uma velha de noventa anos que eu visitava sempre que podia, para tomar uísque no final da tarde... Érico Veríssimo, mexeu muito na minha vida quando eu era menininha com um livro chamado Joana Darc [A vida de Joana Darc (1953)], aquela linguagem translúcida, a tranqüilidade do fraseado, é um livro infanto juvenil.

Fonte: Programa Roda Viva, da TV Cultura, 05/05/2008

por Lygia Fagundes Telles

“Érico teceu uma ficção que se complementa, que forma uma coroa de sonetos, para usar um imagem literária empregada na poesia... Seus livros formam uma guirlanda... Érico era uma pessoa muito generosa; é impossível ter convivido com ele sem ser tocado pelo exemplo de intelectual digno e participante”.

Fonte: O Estado de São Paulo, 05/12/1999 – Luiz Carlos Merten

Por Moacyr Scliar

“Minha dificuldade é separar o Érico escritor do Érico pessoa. Na realidade, não o conheci a fundo: nos encontramos poucas vezes. Mas conversar com Érico sempre me causava uma forte impressão. Lembro particularmente seu olhar – penetrante, e ao mesmo tempo um pouco tímido, um pouco angustiado. A impressão que me dava era de que ele tinha consciência de sua importante posição como escritor, e aquilo de certa maneira o assustava. Me recebia bem, me ajudou o quanto pode – o que já é em si uma coisa excepcional. O principiante é freqüentemente um chato, com suas pastas de cartolina cheias de contos; não é todo escritor veterano que tem paciência para essas coisas. Érico, neste sentido, era excepcional... Érico fez outra coisa importante. Deu a Porto Alegre (e também ao Rio Grande do Sul e ao Brasil, mas fico só com a minha cidade) uma dimensão literária .O que já é uma proeza. Porto Alegre não é Salvador nem o Rio, lugares em que a natureza é exuberante, em que a história está presente em cada esquina, em que os personagens são típicos. Porto Alegre é uma cidade que precisa ser descoberta. Érico conseguiu-o”.

Fonte: Singular & Plural (SP), n.3, fev. 1979

Por Viana Moog

"Aquele, porém, dos escritores gaúchos com quem mais tenho convivido é Érico Veríssimo, e a este não saberei dizer o que devo, sendo certo, porém, que todos nós lhe somos devedores de um enorme serviço: foi Érico quem, acabando com a lenda romântica do intelectual boêmio, sujo e faminto, valorizou no Rio Grande a profissão de escritor. Érico foi dos primeiros romancistas no Brasil a tirar de seus livros edições de dez e vinte mil exemplares e com isso mostrou que também em nosso país, senão agora pelo menos num futuro não muito distante, será possível ao escritor viver exclusivamente da pena"

Fonte:SENNA, Homero. República das letras. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996,

Por Wilson Martins

“O Érico é o grande injustiçado desse período todo. Já naquela altura ele era considerado um burguês, um homem que não era de esquerda – ele, aliás, passou o resto da vida tentando mostrar que era de esquerda, o mais esquerdista de todos, ninguém aceitava. É um escritor esquecido. Agora essas reações e fantasias são de pessoas com raiva da história, que querem varrer o Érico da historia da literatura brasileira”.

Fonte: O Estado de São Paulo, 26/07/1997 – Norma Couri

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Grandes entrevistas - Érico Veríssimo

Entrevista publicada originalmente no jornal Opinião (SP), de 05/02/1973, com o título: Sou contra a censura, e republicada em VERÍSSIMO, Érico. A liberdade de escrever: entrevistas sobre literatura e política. São Paulo: Globo, 1999, de onde foi extraída.

Porto Alegre, Érico Veríssimo falando a Opinião: "Quero começar com um elogio (...). Agora vem a reclamação. Quase todas as perguntas que vocês me fazem na realidade exigem como resposta um longo ensaio. Ora, não sou ensaísta. Um romancista é antes de mais nada um intuitivo. Quando ele se aventura a analisar seus próprios livros, a fazer a sua exegese, mete os pés pela mãos. Se há uma coisa que não me preocupa nem me ocupa agora é a interpretação dos livros que já escrevi e publiquei. Dados esses esclarecimentos, vamos às respostas".

- A História é a matéria básica da sua ficção em pelo menos dois livros seus: O tempo e o vento e Incidente em Antares. Qual a importância da realidade histórica para a sua literatura?

Ninguém pode fugir à História... e lá se foi o primeiro lugar-comum. Clara ou oculta, essa "senhora", está presente em todos os meus romances. Sempre considerei importante. Não só ela mas também esse cavalheiro, mais misterioso ainda, sem o qual ela não poderia existir: o Tempo. Como é possível desenvolver, fazer viver um personagem, um grupo social, fora do tempo e da História? Como se poderia contar uma fábula num vácuo temporal e espacial? Claro, com artifícios de linguagem, com refinamento de técnica, é possível dar ao leitor a impressão de que o romance não tem quando nem onde. Acho que qualquer autor tem o direito de escrever o que entende, o que sabe, esquivando-se do que lhe pode confundir o espírito. O importante é que o livro seja bom. É preciso não esquecer que a História não é sinônimo perfeito de Política ou que a política não pode ou deve ser sempre partidária. No meu caso particular, tenho sido naturalmente levado em minhas ficções para problemas políticos que vivi, em geral, como espectador. Graças aos meios de comunicação modernos, hoje em dia os acontecimentos nos chegam de todos os quadrantes do mundo com mais rapidez e força.

- No Prefácio de O reino deste mundo, Alejo Carpentier postula para o romancista latino-americano a necessidade de incorporar à sua ficção a "realidade mágica". O senhor o faz, em certa medida, em Incidente em Antares. Acha que esse também é um caminho para a nossa ficção?  Cem anos de solidão

Conheci Alejo Carpentier em 1954, quando ele estava exilado na Venezuela por causa da ditadura do sargento Batista. É um grande romancista (Alejo, não Batista). Concordo com ele quanto à fatalidade, digamos assim, que nos impeliu para o "realismo mágico". Note-se que o adjetivo "mágico" aqui significa também "absurdo". Nossa América Latina é um território de prodígios, de maravilhas e misérias, de sustos e êxtases. Nela tudo pode acontecer. Seu tamanho, suas selvas e cordilheiras, sua gente sofrida e estranha, sua História nos induzem a uma realidade que pouco tem a ver com o "normal" cotidiano. Principalmente a América espanhola. Todos os "impossíveis" que nos narra o incomparável Gabriel Garcia Márquez em "Cem anos de solidão" tornam-se uma realidade que o leitor aceita. Não creio que tenha feito propriamente "realismo mágico" em "Incidente em Antares". O realismo mágico verdadeiro é o desses romancistas hispano-americanos (Cortázar, Carpentier, Borges...e quantos outros mais?). É todo um clima que pervaga o romance ou o conto do princípio ao fim. Se acredito que esse "realismo mágico" pode ser um caminho para a nossa ficção? Ora, todos os caminhos nos estão aberto. É muito perigoso traçar roteiros definitivos para qualquer literatura. Pensemos, por exemplo, no Rio Grande do Sul, na nossa paisagem verde e desafogada, na nossa população de origem europeia, na nossa pobreza folclórica, na nossa quase ausência de "mistério à flor da terra" e havemos de concluir que o realismo mágico aqui seria algo postiço. Mas está claro que temos muitos assuntos ainda inexplorados no nosso Estado. Josué Guimarães acaba de atirar-se corajosamente a um deles em "A ferro e fogo", primeira parte de uma trilogia sobre a colonização alemã no R.G. do Sul, e da qual nos deu recentemente o primeiro volume: "Tempo de solidão". Recorrendo aos que me leem, esse romance é feito com grande economia verbal, eu diria mesmo escrito em preto e branco, Josué Guimarães consegue nele criar uma atmosfera, o que me parece das coisas mais difíceis em ficção.

- De Clarissa a Incidente em Antares haverá, certamente, uma evolução na sua literatura. Quais as linhas-mestras dessa evolução?

Eu lhe pediria que eliminasse, de saída, a expressão linhas-mestras, que me assusta um pouco e pode me embrulhar o espírito. Usando de uma simplificação que os psicólogos não aprovam, direi que tenho dentro de mim um poeta, um romântico em turras permanentes com um realista dotado de veia satírica. Em Clarissa predominou o poeta, ou se preferirem, o pintor aquarelista. Logo depois o satirista chutou o poeta e escreveu Caminhos cruzados. A seguir, ambos se uniram e produziram Um lugar ao Sol. Pode-se passar a vida escrevendo novelinhas-poemas como Clarissa se fecharmos os olhos a certos aspectos sórdidos e negativos da vida. Gosto muito do ditado anglo-saxão segundo o qual " é preciso um pouco de tudo para fazer-se um mundo". É preciso saber que as condições econômicas de minha vida pessoal, particular, influenciaram muito os romances que escrevi entre 1933 e 1940. Observe-se como meus personagens dos livros dessa época preocupavam-se com as contas a pagar no fim do mês. Eu trabalhava longa e duramente durante mais de 12 horas por dia. Traduzia livros de várias línguas para o português (mais de 40), inventava histórias para programas de rádio para a infância, armava páginas femininas para o Correio do Povo, tudo isso enquanto trabalhava na revista e na editora da Livraria do Globo. Isso explica a pressa com que escrevi meus próprios romances naquela década de 30. Considero essa fase de minha carreira um período de exercícios em que me preparei, consciente ou inconscientemente, para a obra com que comecei a sonhar depois de 1935 e que acabou sendo publicada a partir de 1949 sob o título geral de O tempo e o vento. Depois de Olhai os lírios do campo, romance cheio de defeitos, mas com grande carga emocional, comecei a ganhar royalties que melhoraram minha situação econômica. Pude trabalhar mais devagar e tive mais tempo para ler... e para me ver e julgar.

- Na publicidade de Incidente em Antares usou-se a frase: "Num país totalitário este livro seria proibido". O senhor submeteria um livro seu à censura? Por que?

Já disse muitas vezes que jamais submeterei um livro meu à censura prévia. Acho isso degradante, além de absurdo. Se André Gide, que leu a grande obra de Marcel Proust ainda em originais, não recomendou a sua publicação à editora Gallimard, que esperança podemos ter num comité de críticos literários improvisados e composto de membros da polícia federal ou de qualquer outra polícia, ou mesmo da Academia Brasileira de Letras. Repito que sou contra a censura, mas devo qualificar essa minha posição. Só merece liberdade quem tem consciência de sua responsabilidade profissional.

- Ao escrever Incidente em Antares o senhor se apoiou, naturalmente, numa certa interpretação histórica da realidade brasileira contemporânea. A seu ver, quais os fatos decisivo que conduziram ao movimento militar de 1964?

A revolução de 1964 de certo modo começou nos tempos em que se tentou impedir que Juscelino Kubitschek, legalmente eleito, tomasse posse. Atingiu um momento de alta periculosidade quando Jânio Quadros renunciou. Desse momento em diante, os dados estavam irremediavelmente lançados: o resto era questão de oportunidade, e essa oportunidade foi fornecida pela inabilidade de políticos da situação como, por exemplo, Leonel Brizola, que dizia muitas coisas certas, mas com a entonação errada e de maneira estabanada e inoportuna. Os políticos profissionais têm - não esqueçam - sua grande dose de culpa em todo esse processo que levou à revolução de 1964 e que começou pouco antes da proclamação da República. Nos anos que se seguiram, o Exército foi tantas vezes chamado a intervir nas revoluções tramadas pelo políticos (que mandavam soldados para a caserna mal conquistavam o poder) que, como era de se esperar, um dia arraigou-se a idéia na cabeça dos militares.

- Vargas é personagem de Incidente em Antares. A seu ver, o varguismo como ideologia e estilo político está completamente morto?

O varguismo está em "artigo de morte", como diria Manuel Bernardes. (Não confundir com o Presidente Arthur Bernardes). Isso não quer dizer que a imagem de Getúlio esteja apagada de todas as mentes. Mas não creio nem desejo que o varguismo como estilo político volte a vigorar entre nós. Digo isso sem rancor, pois gostava pessoalmente do homem Getúlio, embora reconhecendo os erros que cometeu. Acho que foi dos personagens mais dramáticos da História do Brasil em todos os tempos. Sinto ainda uma ponta de tristeza quando o imagino (como fazia Dona Quita Campolargo, em Incidente em Antares) em sua última noite de solidão e abandono no Palácio do Catete.

- A última cena de Incidente em Antares é um estudante que vai escrever a palavra "liberdade" num muro e é baleado pela polícia. De que maneira o senhor encara as restrições atuais à participação política da classe estudantil?

Pensei que essa cena tivesse deixado bem claro o meu pensamento a respeito do assunto. Sou favorável à participação, não só da classe estudantil, como também de todas as outras classes do Brasil na nossa vida política, através do sufrágio universal e da possibilidade de candidatar-se a um cargo público. Nunca fui partidário do terrorismo, que não leva a nada de construtivo, mas por outro lado, sempre repudiei a tortura como método (ou como esporte) e sou positivamente contrário à condenação de quem quer que seja por "delitos de opinião". Ninguém é criminoso por ter ideias... a não ser que se trate de ideias que levem deliberadamente ao niilismo, ao crime, ao caos.

- O seu estilo sempre foi dos mais despojados da literatura brasileira, aproximando-se bastante do jornalístico. O senhor considera isso uma fórmula peculiar sua ou uma normativa a ser seguida por todos os escritores que buscam maior comunicação com o público?

É a minha maneira de ser. Mas acho que cada escritor deve ser o que é, escrever como entende, usar mais ou menos adjetivos, frases mais curtas ou mais longas. Acredito também que às vezes é o assunto de um livro que dita o seu estilo. Comunicar-se a gente com o público é muito importante. Há em literatura duas coisas igualmente perniciosas e nem sei qual a pior. Uma é tornar-se vulgar, chulo, chão, sensacionalista para conquistar um público mais vasto. A outra é fazer-se hermético para ser entendido somente pelas elites, pelos eleitos. Mas repito que os escritores são como são. Cada qual deve ser dono de seu nariz: errar ou acertar por conta própria.

- Um balanço da cultura brasileira em 1972 demonstra que esse não é um momento particularmente criador, seja na música popular, no cinema, no teatro e na ficção, terrenos em que nos mostrávamos férteis há dez anos. A seu ver, a que se deve essa inibição generalizada?

Não sei com certeza se em matéria de criatividade estamos atravessando um período pobre na música popular, no cinema, no teatro e na ficção. Mas o que posso dizer claramente é que a censura não ajuda em nada o criador, e que a pior censura é aquela que acaba infiltrando-se aos poucos nas nossas cabeças, como um cavalo, ou melhor, um burro de Tróia. A criação é um ato de amor e de liberdade. Houve na História, eu sei, escravos que produziram obras de arte, mas isso não quer dizer que se possa trabalhar num ambiente de "não pode", "é proibido", "dá cadeia". Olhem para os países que têm censura e me digam o que aconteceu à sua arte e à sua literatura. Vejam o que se está fazendo na Rússia com Soljentitzyn e outros escritores. É uma indignidade. E quem faz isso são os homens que cresceram, tornaram-se adultos durante os regime stalinista de terror e obscurantismo, isto é, gente que nunca conheceu a liberdade de pensar e de criar. E a extrema direita é tão má quanto a extrema esquerda. Sim, vocês têm razão, a inibição que perturba nossos artistas plásticos e nossos escritores, compositores, pensadores, jornalistas é causada pelo clima criado pela censura. Pessoalmente não fui ainda censurado, mas isso não me faz feliz, pois não quero, como meia dúzia de outros escritores, ser exceção num país de quase cem milhões de habitantes.

- Mais ou menos a partir de 1968 vivemos em clima de euforia, "em ritmo de Brasil grande", na fórmula oficial. A seu ver, se justifica esse clima de otimismo?

Acho que se justifica. Nesses últimos anos, o Brasil tem crescido e em alguns setores as melhoras são visíveis a olho nu. Está claro que só temos estatísticas oficiais e nunca sabemos ao certo do que se passa nos bastidores da política. Não posso negar a Transamazônica, a melhor qualidade dos serviços postais e muitos outros empreendimentos. O que eu acho é que tudo isso se poderia fazer num regime democrático, dentr oda velha Constituição, contanto que ela fosse realmente cumprida a rigor.

- O primeiro livro da trilogia O tempo e o vento descreve a incorporação do índio à civilização luso-brasileira. A seu ver, através de que formas se deu essa integração?

Não sei. Desculpe-me. Não sei. Façam essa pergunta um especialista.

- O gaúcho valente e altivo parece historicamente desaparecido há muito tempo, embora o rio-grandense de hoje tenha herdado alguma coisa dele. Quais os traços dominantes na psicologia e no comportamento do rio-grandense médio em 1972?

O gaúcho altivo, valente, varonil, nobre, bom amigo, generoso é um arquétipo. Hoje em dia alguns (ou muitos?) rio-grandenses procuram viver de acordo com essa imagem idealizada. Ouço de turistas que o gaúcho é hospitaleiro, simpático, serviçal. Os Centros de Tradições Gaúchas deviam procurar estimular essas qualidades, dando menos atenção ao aspecto da indumentária gauchesca. A mistura de sangue é muito grande entre o nosso povo. O contingente de sangue italiano e alemão é considerável nos habitantes deste Estado. A incidência do tipo humano de pele e cabelo claros é grande entre nós. E não preciso dizer que nossa maneira de falar é inconfundível: quadrada, escandida, meio seca. Linguagem de carnívoro.

- O Rio Grande do Sul sempre foi um dos Estados mais politizados do Brasil. A que se deve isso?

Nunca tinha pensado nisso. Talvez essa politização se deva a nossa condição de fronteira (influências do Prata) e ao fato de termos sido durante mais de um século o campo de batalha do Brasil. Ocorre-me que temos sido um viveiro de líderes políticos. (nem todos bons) A figura de Castilhos, sobre quem Sérgio da Costa Franco escreveu um magnífico ensaio biográfico, é ímpar. Borges de Medeiros foi a encarnação da política positivista. Castilhos foi pai espiritual de Borges, e Borges pai de Getúlio, de Flores da Cunha, de Oswaldo Aranha e João Neves da Fontoura. Não esqueçamos o vulto interessantíssimo de Pinheiro Machado. E o de Luiz Carlos Prestes. É, parece que vocês têm razão. O Rio Grande é (ou era) um Estado altamente politizado.

- Esta politização está aumentando ou diminuindo?

Creio que está diminuindo.

- Qual a grande epopéia do Brasil atual (o acontecimento grandioso, significativo e de projeção para o futuro)?

Faça esta pergunta ao meu filho daqui a trinta anos. Minha tendência no momento é dizer que o grande herói desta hora é o povo, o homem comum, que, se continua vivo, é de teimoso.

Texto reproduzido do site: tirodeletra.com.br

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Muito mais que um simples livro

Foto: V Photography and Art

Publicado originalmente no site do CINFORM, em 10 de dezembro de 2018

Muito mais que um simples livro

Por Julia Freitas 

Apesar da falta de incentivo, os livros são importantes ferramentas de transformação pessoal e social

Para alguns os livros são apenas objetos. Para outros é uma oportunidade de viajar para outros tempos, outros lugares, outros mundos; uma oportunidade de viver uma realidade completamente diferente da sua. Mas para quem lê, além de tudo isso que acabei de mencionar, os livros são uma ferramenta de transformação de suas próprias vidas.

Wilson Santos teve a vida transformada graças aos livros

Um exemplo de transformação que os livros possuem é a própria vida do vigilante Wilson Santos Filho. Aos 15 anos ele ainda não sabia ler ou escrever, mas adorava ouvir as histórias que sua mãe lhe contava e isso o motivou a frequentar a escola.

“A minha paixão pelos livros começou com a minha mãe lendo para mim. Aquilo despertava curiosidade e eu imaginava como seria eu mesmo lendo, porque até então eu absorvia aquelas histórias através dela. Foi aí que começou a minha busca para aprender a ler e, quando eu aprendi, aumentou o meu prazer pelos livros e eu não parei mais”, lembra com carinho.

Foi visitando os sebos e lendo livros sobre filosofia e literatura que Wilson conheceu novos livros, novos autores e novas visões sobre o mundo. “Os sebos são acessíveis e possuem em seus acervos livros dos mais diversos assuntos. Além disso, os donos nos ajudam muito. Eles nos indicam livros, procuram com paciência os livros em meio ao acervo”, comenta.

Através do gosto que adquiriu pela leitura, Wilson galgou passos que, antes dos 15 anos, talvez ele nunca imaginaria. Além de aprender a ler e escrever, ele foi para a escola, se formou no ensino médio, mas não parou por aí. Foi para a universidade e, recentemente, se formou no curso de Letras. “Para mim o livro representa uma quebra de paradigmas. Eu mudei de vida graças a eles e hoje percebo as diversas visões que podemos ter sobre o mundo”, afirma.

CLUBE DE LEITURA

Como uma forma de difundir e discutir sobre livros, diversos clubes de leitura existem pelo país, e em Aracaju não seria diferente. A jornalista Mirella Mattos, que desde criança ama ler, participa de um desses clubes.

“Eu sempre quis fazer parte de um clube de leitura, mas nunca tinha tido essa oportunidade. Até que eu fui convidada por uma amiga para participar de um clube restrito de leitura, onde lemos, discutimos e conhecemos novas obras. E nós estamos em uma fase de empoderamento, então todas as obras que lemos até o momento possuem esse apelo”, comenta.

Mirella Mattos participa do um clube de leitura

COMÉRCIO DE LIVROS

 Natan de Albuquerque vende livros
 há mais de dez anos

Um dos sebos mais conhecidos e frequentados da cidade é o sebo do Natan, no centro de Aracaju. Há dez anos, o aposentado Natan de Albuquerque comercializa livros usados, cinco deles nas proximidades da Rodoviária Velha. Um acervo com milhares de livros que tratam sobre os mais diversos assuntos, de filosofia a medicina, da literatura tradicional à contabilidade.

“Infelizmente, as livrarias maiores se preocupam mais em comercializar aqueles livros que são lançamentos ou que estão na moda, enquanto que nos sebos você encontra livros que estão até mesmo fora de catálogo, como os clássicos da literatura nordestina”, explica.

Segundo Natan, os sebos sobrevivem hoje graças ao amor que os seus donos têm pelos livros, que geralmente têm coleções há anos, como ele próprio que desde os 13 anos coleciona livros. Para ele, os sebos são espaços culturais em que as pessoas podem conversar sobre qualquer assunto. “As pessoas gostam de vir nos sebos para debaterem sobre diversos assuntos, como religião e política”, comenta.

Apesar da resistência de sebistas e de leitores, o Brasil segue nas últimas colocações quando o assunto é o consumo de livros. Hoje, o Brasil ocupa a posição de número 59 em leitura entre 76 países. A pesquisa é feita com base no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), que é aplicado em estudantes a partir do 7º ano. Segundo o Banco Mundial, isso fará com que os estudantes brasileiros levem mais de 260 anos para atingir a proficiência em leitura dos alunos de países desenvolvidos.

Texto e imagens reproduzidos do site: cinform.com.br

Quem não sofre com o fechamento de uma livraria...

Fotografia da capa: Publish News

Publicado originalmente no site da revista BULA

Quem não sofre com o fechamento de uma livraria não gosta de livros

Por Euler de França Belém

Quem não sofre com a crise das livrarias pode gostar de tudo, inclusive de sexo, mas não gosta de livros. O melhor amigo do homem, depois do cachorro e do gato, é o livro, portanto as livrarias

As livrarias são templos para crentes e ímpios. Adquirir livros pela internet é mais fácil, pois não é preciso sair de casa. Mas o frequentador de livrarias é um ser diferente. Eventualmente, até compra obras pelos sites, mas o que gosta mesmo é de andar pelos corredores das livrarias, olhando, folheando e lendo trechos de obras variadas. Busca, por vezes, o conhecido, aquilo que tem certeza que vai adquirir, mas, mexendo nas estantes, acaba descobrindo novidades. O prazeroso desconhecido. Compra, afinal, não apenas um ou dois livros, mas de seis a dez.

A visita às livrarias permite ao leitor o contato com o inusitado. Recentemente, estive na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo. Havia pensado em comprar apenas uma obra, “Livrarias — Uma História da Leitura e de Leitores” (Bazar do Tempo, 296 páginas, tradução de Silvia Massimini Felix), de Jorge Carrión. O livro menciona inclusive a bela livraria de Pedro Herz. Acabei por folhear uma biografia da excelente escritora escocesa Muriel Spark (1918-2006) — “Muriel Spark: The Biography” (Northwestern University Press, 627 páginas), de Martin Stannard —, que Paulo Francis ajudou a divulgar no Brasil, e uma biografia do escritor uruguaio Mario Benedetti (1920-2009). Não levei, porque os preços são impraticáveis, mas depois me arrependi. Ao lembrar que estava lendo “Tantos Caminhos — Autobiografia” (Martins Fontes, 458 páginas, tradução de Hildegard Feist), de Paul Bowles, que adquiri em 13 de outubro de 2001 — há dezessete anos —, pensei: os livros sobre Muriel Spark e Mario Benedetti podem aguardar.

Livraria Cultura: poucos lançamentos 
e dívida de 285 milhões de reais

Enquanto esperava Candice Marques de Lima, minha companheira que participava de um seminário na USP, li cerca de 50 páginas de “Mario Benedetti: Un Mito Discretísimo — Biografía” (Alfaguara, 376 páginas), de Hortensia Campanella. Trata-se de uma edição em espanhol. O levantamento da vida do escritor é excelente. Tanto que não percebi, de imediato, que se tratava de um livro “usado” (não sei se lido). A Livraria Cultura estaria colocando livros usados em suas estantes? Não sei. Sugiro ao leitor, ao visitar a unidade da Avenida Paulista, que dê uma olhada. A edição que tive nas mãos é velhíssima, amarelada. Não é nova. Coisas da Estante Virtual? Não se sabe. Afinal, livros novos também, um dia, ficam velhos, amarelados, ressequidos, com aquele cheirinho que irrita as narinas.

Depois da Livraria Cultura, próxima do Mercure onde estava hospedado, visitei e “orei” na Livraria da Vila, na Alameda Lorena, e na Livraria Martins Fontes, na Avenida Paulista. Se a Livraria Cultura quase não tinha lançamentos (agora tem de pagar à vista para as editoras), optando por divulgar best sellers, as outras duas, que estão escapando da crise, são verdadeiros manás-oásis em termos de novidades — inclusive a edição especial do romance “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos. O livro completou 80 anos e reli cerca de 20 páginas, saboreando o cheiro da belíssima edição especial (a Record caprichou). Pode anotar: em termos de permanência literária, pensando mais em qualidade do que em sucesso, “Vidas Secas” continua sendo uma obra-prima poderosa. Parece ter nascido ontem, ou melhor, se disserem que completou 18 anos, e não 80 anos, quem há de duvidar? A prosa é vivíssima, as personagens são ricas, apesar da pobreza em termos materiais.

Livraria Saraiva: aposta em best sellers
 para tentar sobreviver

Folheando “Vidas Secas”, a edição comemorativa, pensei, fissurado por livros e, sobretudo, pela prosa de Graciliano Ramos: “Não há a menor dúvida de que a edição é fantástica, mas, pô, tenho duas edições, ambas devidamente anotadas, inclusive uma edição especial em capa dura. Por que levar mais uma?” Acabei não levando, porque estava com pouco dinheiro, mas senti comichões de Alexandria. Ao reler a prosa desenxabida de Graciliano Ramos — sabendo que desenxabida não é o mote justo para nomeá-la —, lembrei-me de um motorista da Uber, que, sergipano, mora em São Paulo há vários anos. Mas não perdeu a linguagem de seu Estado, de sua cidade. Ele disse a mim e a Candice que um xingamento forte no pequeno Estado do Nordeste é: “Ô seu filho de um cabrunco”. Olhei seu rosto e percebi que não parecia com Fabiano, e sim com Riobaldo.

Na Martins Fontes, descobri, na parte de cima da livraria, que havia uma promoção de livros. Promoção de verdade, parecendo aquelas de sábado na Livraria Bertrand (citada por Jorge Carrión como a mais antiga em funcionamento), a do Chiado, em Lisboa. Pensei: deveria comprar alguns livros e pagar com o cartão de crédito — afinal quem visita livrarias e não compra livros não sai de lá feliz; sai acabrunhado. Acabei adquirindo dois livros, por considerar que ia começar a ler “Jane Bowles — Un Pecadillo Original” (Circe, 413 páginas, tradução de Ángela Pérez), de Millicent Dillon. A autora menciona como amiga de Jane e Paul Bowles a cantora brasileira Elsie Houston, que morava nos Estados Unidos e havia sido casada com um poeta francês. Numa carta, Jane Bowles fala da farofa brasileira (página 79). Leio minha anotação: “17 de julho de 2014, quinta-feira, frio mas sem chuva, sebo da Avenida Corrientes, Buenos Aires”. Pois o livro foi adquirido há quatro anos e só agora está sendo lido. Por isso recomendei-me, contra minha vontade, que comprasse menos livros.

As livrarias são eternas como os diamantes

E se as livrarias acabarem? Felizmente, não acabarão. Ficarão menores, por certo, mas resistirão. A tendência é que as grandes lojas fechem suas portas e seus donos, adiante, abram livrarias menores. Em Goiânia, no Setor Universitário, há uma livraria pequena, mas de excelente qualidade — a Palavrear. O acervo, embora nada amplo, é ótimo. Porque prima-se pela qualidade, não pela quantidade. Encontrei inclusive boas edições de livros publicados em Portugal. Recomendo apenas um espaço mais adequado para poesia, por exemplo, com as ótimas traduções da Editora Iluminuras.

 Livraria Martins Fontes: acervo amplo e diversificado
Fotografia: Nelson Kon

O que acontecerá com a Livraria Saraiva e com a Livraria Cultura? A minha torcida é para que resistam. Os apaixonados por livros preferem a Livraria Cultura, a Livraria da Vila, a Livraria Travessa (no Rio de Janeiro) e, pelo acervo diversificado, a Livraria Martins Fontes. A Livraria Saraiva aposta muito em best sellers, até para tentar sobreviver, mas não é ruim. Pelo contrário, é uma boa livraria. O atendimento nunca foi perfeito, nenhuma livraria tem mais atendimento de alta qualidade — salários baixos e rotatividade impedem a qualificação. Mas o que importa mesmo é o acervo e, no geral, o da Livraria Saraiva nunca foi ruim, embora não seja como o das outras livrarias arroladas.

Por que as grandes livrarias estão em crise no Brasil (nos Estados Unidos também)? Porque o capitalismo “diz” ao empresário: “Você precisa crescer”. Para expandir os negócios, é necessário pegar dinheiro nos bancos e, depois de certo prazo de carência, é obrigatório começar a pagar as parcelas dos empréstimos. Pode-se falar que, no capitalismo, há uma espécie de “armadilha do crescimento”. Uma vez enredado, no abraço da sucuri, não há escapatória. As sedes gigantes, instaladas em shoppings nos quais os preços dos alugueis são estratosféricos e que exigem mão de obra farta, estão com as finanças em frangalhos. Com a recuperação judicial, as livrarias não têm de pagar seus credores — momentaneamente —, sejam editoras, sejam bancos, sejam donos de imóveis.

Livraria da Vila: uma das mais charmosas de São Paulo 
Fotografia: Leonardo Finotti

Os brasileiros estão lendo mais, tanto que editoras portuguesas estão interessadas no mercado do país de Machado de Assis. O Brasil tem mais de 200 milhões de habitantes, enquanto Portugal tem pouco mais de 10 milhões.

Uma livraria que deve 674 milhões de reais, caso da Livraria Saraiva, tem como escapar da falência? Talvez sim. Talvez não. Minha aposta é pelo “sim”, mas a razão sugere que a chance de prevalecer o “não” é muito maior. Se rolando a dívida com a barriga, pagando juros, quando era possível, não estava dando para tocar o negócio de maneira qualitativa — tanto que a dívida chegou a mais de meio bilhão de reais —, como, em recuperação judicial, vai escapar da crise? Com o processo judicializado, fica mais fácil negociar com os credores, que têm de aceitar determinadas regras (não podem pedir bloqueio de contas, por exemplo). Entretanto, como a Livraria Saraiva fará para ter acesso a novos produtos? Basta uma visita à Livraria Saraiva para verificar que praticamente não há lançamentos. A falência não é positiva para ninguém, notadamente para as editoras. A livraria deve R$ 18.638.315,67 para a Editora Companhia das Letras e R$ 18.241.167,49 para a Editora Record. Impagável, praticamente. Bancos sabem contabilizar à perfeição suas perdas (se brincar, viram lucros).

A Livraria Cultura deve menos — 285 milhões de reais. Mesmo assim, é um valor muito alto. Dificilmente terá condições de pagar a dívida e, aparentemente, a família não tem patrimônio suficiente para usá-lo para abatê-la.

Falência à vista? Não é o que espero. Mas o setor livreiro, o que se agigantou, dificilmente terá escapatória se não mudar o modelo de negócio — tornando-se menor e escapando do gigantismo dos shoppings. As livrarias decerto continuarão, ainda que menores, e com a expansão do negócio pela internet — seguindo o trabalho bem-sucedido tanto da Livraria Cultura quanto da Amazon.

Mas diga, leitor: quem não sofre com a crise das livrarias pode gostar de tudo, inclusive de sexo, mas não gosta de livros. O melhor amigo do homem, depois do cachorro e do gato, é o livro, portanto as livrarias.

Texto e imagens reproduzidos do site: revistabula.com

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

A quebradeira das grandes livrarias brasileiras

Saraiva Mega Store (Foto: Divulgação)

Publicado originalmente no site Infomoney, em 14 de novembro de 2018  

Quebradas, grandes livrarias brasileiras lutam para se reerguer

Juntas, a livraria Saraiva e livraria Cultura respondem por 40% das vendas de livros de todo o país, mas dívidas estão cada vez maiores

Por Júlia Miozzo

SÃO PAULO – A Livraria Saraiva divulgou na última segunda-feira (12) os resultados do terceiro trimestre e confirmou que a crise do mercado editorial a atingiu em cheio. A varejista dobrou seu prejuízo no período, que chegou a R$ 66,6 milhões no trimestre. Em 2017, ele era de 33,4 milhões.

Seu lucro líquido caiu 33,5% na comparação ano a ano – foi de R$ 81,2 milhões no último trimestre e de R$ 122 milhões no mesmo período do ano passado.

Um “prólogo” dessa situação já vinha sendo desenhado desde o início do ano. Ela não compareceu à Bienal do Livro de São Paulo deste ano, maior evento do setor no país e onde tinha um dos maiores estandes. No último mês, ela anunciou o fechamento de 20 das 84 lojas abertas no Brasil; no ano passado, eram 111 unidades em funcionamento.

O grande problema que enfrenta é o endividamento, de R$ 164 milhões líquidos no terceiro trimestre. É um saldo devedor 34% mais baixo do que o apresentado no trimestre anterior, de R$ 249 milhões, mas que segue sem perspectivas de ser quitado considerando que o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) da varejista ficou em R$ 49 milhões negativo, 90% maior do que o apresentado um ano antes.

A grande concorrente da Saraiva no país, Livraria Cultura, também está em mais lençóis e entrou com pedido de recuperação judicial depois de fechar todas as lojas da Fnac no Brasil, com dívida na casa dos R$ 285 milhões.

Ambas as redes de livrarias começaram a ter problemas também com editoras por falta de pagamento. Como contamos no início de agosto, as editoras Mythos, especializada em histórias em quadrinhos, e a Bookwire, a maior de livros digitais, deixaram de distribuir seus títulos às gigantes por conta de calote.

É uma situação preocupante também para as editoras já que, juntas, a Saraiva e Cultura respondem por 40% da venda de livros no país.

Elas tentam reverter a situação para seguirem ladeira abaixo: no último dia 6, o Snel (Sindicato Nacional das Editoras de Livros) convocou uma reunião com a Saraiva para tentar renegociar as dívidas, mas acabou recusando o acordo proposto, de que 45% da dívida fosse convertida em ações e debêntures, que o restante fosse quitado em 120 parcelas e que cada credor recebesse R$ 15 mil.

A tendência, com a recusa do acordo, é de que a Saraiva também acabe entrando em recuperação judicial, tal como a Cultura.

O que explica?

Investimentos que não deram certo, promoções exageradas, a crise econômica e o fortalecimento da Amazon no mercado brasileiro são alguns dos fatores que, juntos,  fizeram com que as empresas chegassem à “beira do abismo”.

A abertura de megastores e a inclusão de eletrônicos no catálogo, que exigiram um grande montante investido, não trouxeram retorno. A estratégia de oferecer grandes descontos, de até 20%, em livros recém-lançados e best-sellers para “enfrentar” a Amazon no mercado, somado ao encolhimento da receita com venda de livros – de 20% entre 2015 e 2017 – impossibilitaram que a contas ficassem no azul.

As empresas são as duas maiores players do mercado editorial brasileiro, mas dizer que existe uma crise no “mercado de livros”, entretanto, é errado: neste ano, ele cresceu 5,7% e teve aumento de 9,3% no faturamento, segundo o Snel. A perspectiva é de que se veja um “bom fechamento de ano”.

Tentativas

No terceiro trimestre, a Saraiva teve queda de 11,7% nos custos operacionais – e deve continuar se esforçando para diminuir ainda mais. Junto com os resultados e fechamento de lojas, ela anunciou um corte de 700 funcionários e que deixará de vender eletrônicos, como smartphones e notebooks. Eles passarão a ser oferecidos em um “marketplace próprio”.

A estratégia da empresa continua sendo de investir e focar na transformação digital da companhia, expandindo seu marketplace próprio, e também na venda omnicanal, integrando as vendas digitais e físicas.

Essa segunda é uma tendência do varejo no geral e, neste ano, já tem dado bons resultados para a Saraiva: o serviço Click & Collect, em que o cliente compra no e-commerce e retira os produtos em uma loja física da Saraiva, já corresponde a 18,4% dos pedidos do site; além disso, dos clientes que o escolhem, 2% realizam uma compra adicional nas lojas ao retira-los.

A Cultura, por sua vez, pretende se transformar em uma “companhia digital”. Em agosto, executivos da empresa comentaram sobre a criação de um centro de inovações que tem trabalhado no desenvolvimento de aplicativos, B.I. e mudanças para o marketplace; a expectativa é de que até 2020 80% da receita venha de canais digitais.

Junto das editoras, as livrarias agora pretendem limitar em 10% o desconto oferecido em lançamentos de livros durante seu primeiro ano de venda, tal como o faz mercado editorial francês. Um pleito das associações já está na Presidência. Dados os números recentes, entretanto, é necessário que os esforços sejam ainda maiores.

Nesta quarta-feira (14), as ações da Saraiva (SLED4) acumulam queda de 0,96%. No acumulado do ano, ela apresenta baixa de 49,13%.

Texto e imagem reproduzidos do site: infomoney.com.br