“Com base na declaração de Bakthin, pode-se afirmar que ler não é unicamente decodificar os símbolos gráficos, é também interpretar o mundo em que vivemos”. (Patrícia F. Bianchini).



domingo, 9 de julho de 2017

Mantenha distância de pessoas que te deixam triste.


CRÔNICA:

Mantenha distância de pessoas que te deixam triste.
Por Eberth Vêncio.

Eu sou aquele desagradável que torce pelo touro na arena. Fui criado à base de Sangue de Boi, Emulsão de Scott e violeta de genciana. Apesar disso, perante os homens e os germes, não me considero tão imune à tristeza. A minha mente vacila. A vida ficou mais difícil depois que tiraram o álcool da fórmula do Biotônico Fontoura, sabe? Eu sei bem o que os taurinos sentem. Eles bufam de ódio pela espécie humana. Não os recrimino. Rumino com eles alfafas de pensamentos polêmicos. O que se há de fazer senão matá-los, calá-los com o fio de uma espada? Há quem aplauda em pé as carnificinas. Olé! Fazer o quê? Não temo as chifradas. Eu me viro. Tenho medo mesmo é do Ibope, do BOPE, das balas perdidas e do tempo desperdiçado lidando com pessoas que se acham. Aliás, eu prefiro encher a cara tomando sangue fajuto, ou melhor, com vinho fajuto, a ter que gozar a happy hour com gente que só me deixa triste.

Eu sou aquele desagradável que conta as horas para os feriados prolongados terminarem mais depressa. Eu escrevo para me salvar. Mas tem gente dizendo estou imitando Bukowski. Não estou imitando Charles Bukowski. Simplesmente, me deixo levar pelas boas influências. Não possuo saldo positivo para sacar nas contas inativas do FGTS. Saque só, não há nenhum fundo de verdade, nem garantia plena de que seremos felizes para sempre. Alguém, por favor, me explica, afinal, o que é esse tal “Feriado de Corpos Tristes” da Igreja Católica. As bundas não me sorriem já faz tempo. Minha alma já não canta. Vejo um Rio de Janeiro falido e sem Tom, afundado na bandalheira e no caos. A não ser pela soja transgênica e pela alcatra congelada, quase mais ninguém parte do cais. Será o fim dos longos acenos, dos beijos demorados de despedida? O facetime, paixão do momento, matou a saudade. Se não puder fazer um filho comigo, faça, ao menos, uma selfie e publique nas suas redes sociais.

Ando antissocial, eu reconheço. Não curto hipocrisia. Eu sou aquele desagradável que se sente solitário no meio da multidão, um homem com vontade de olhar pro futuro e virar estátua de sal. Contradições. Não me convide para passeios ao sol, passeatas contra o governo, procissões em prol da igreja, convenções da empresa e arrastões sobre os turistas. Minha praia é outra. Você insiste que eu possa estar deprimido. Não adianta insistir, meu bem. Não vou tomar comprimido. No máximo, cervejas de trigo. Não é nada disso que você está pensando. Esqueça a discordância do pronome: Apesar do jeito estranho, eu ainda te amo.

Eu sou aquele desagradável que espera na janela pelo esbarrão do grande cometa. Comenta-se à boca miúda que os meus sonhos se desintegram na atmosfera todo santo dia. Portanto, sou aquela estrela caída que você viu riscando o céu de Sorriso. Que maravilha morar num lugar com um nome assim. Feche bem os seus olhos. Faça um pedido. Sei que pensar é um perigo, mas, corramos juntos o risco. A vida tem altos e baixos, choros e risos. Não dá para ser 100% feliz, tá comprovado. Preciso apenas de 10% de tristeza e outros tantos de melancolia para escrever um bom texto. Isso não é pedir muito, admita. Ninguém será, indefinidamente, alegre ou triste. Nem poeta.

Eu sou aquele desagradável que trocou os poemas da Cecília Meireles pelas planilhas de Excell. Eu sei que isso é triste. Mas, também, não é definitivo.

Texto e imagem reproduzidos do site: revistabula.com

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