“Com base na declaração de Bakthin, pode-se afirmar que ler não é unicamente decodificar os símbolos gráficos, é também interpretar o mundo em que vivemos”. (Patrícia F. Bianchini).



quinta-feira, 31 de março de 2011

"Testamento" de Manuel Bandeira

Um comentário:

  1. Testamento de Manuel Bandeira

    O que não tenho e desejo
    É que melhor me enriquece.
    Tive uns dinheiros — perdi-os...
    Tive amores — esqueci-os.
    Mas no maior desespero
    Rezei: ganhei essa prece.

    Vi terras da minha terra.
    Por outras terras andei.
    Mas o que ficou marcado
    No meu olhar fatigado,
    Foram terras que inventei.

    Gosto muito de crianças:
    Não tive um filho de meu.
    Um filho!... Não foi de jeito...
    Mas trago dentro do peito
    Meu filho que não nasceu.

    Criou-me, desde eu menino
    Para arquiteto meu pai.
    Foi-se-me um dia a saúde...
    Fiz-me arquiteto? Não pude!
    Sou poeta menor, perdoai!

    Não faço versos de guerra.
    Não faço porque não sei.
    Mas num torpedo-suicida
    Darei de bom grado a vida
    Na luta em que não lutei!

    (29 de janeiro de 1943)

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