“Com base na declaração de Bakthin, pode-se afirmar que ler não é unicamente decodificar os símbolos gráficos, é também interpretar o mundo em que vivemos”. (Patrícia F. Bianchini).



terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Os Corumbas, personagens de três autores.


Publicado originalmente no site Interblogs, em 25 de Dezembro de 2016.

Os Corumbas, personagens de três autores.
Por Homero Fonseca.

A família Corumba é composta dessa espécie muito singular de personagens literários que saltam do livro original para morar em textos de outros autores, como citação ou homenagem.

O romance Os Corumbas, de Amando Fontes[1], foi lançado em 1933, mesmo ano de Cacau, de Jorge Amado. Foram a sensação editorial do ano, esgotando edições rapidamente e merecendo enorme atenção da crítica. No país extremamente polarizado de então, as duas obras foram o foco de um retumbante debate sobre literatura proletária, provocado pelo escritor baiano. É que, na célebre nota introdutória de Cacau, o jovem autor, já então filiado ao Partido Comunista, se coloca como fundador de uma nova vertente, ideológica, da literatura brasileira, disparando: "Tentei contar neste livro, com um mínimo de literatura para um máximo de honestidade, a vida dos trabalhadores das fazendas de cacau do sul da Bahia. Será um romance proletário?” A resposta, com aplausos à esquerda e críticas à direita, foi sim.

Mas vem Amando Fontes, católico, político conservador moderado, e lança, quase simultaneamente a Cacau, a história da família de agricultores pobres do interior sergipano que, tangida pela seca, vai tentar a sobrevivência na capital, Aracaju, no início do século 20. O pai, Geraldo, e os filhos Rosenda, Albertina, Pedro e Bela tornam-se operários; a mãe, Sá Josefa, cuida da casa, e Caçulinha é mandada para a escola pública, para se formar professora, melhorar de condição e ajudar a família. O romance é a narração da degradação econômica, moral e física da família proletária, vitimada por uma engrenagem gigantesca que tritura os corpos e as almas de trabalhadores ferozmente explorados. Todo o drama é uma sucessão de desgraças: três filhas terminam jogadas na prostituição, uma morre tuberculosa, o filho se envolve em agitação sindical, é preso e deportado, e os dois velhos, na última cena do romance, uma das mais tristes da literatura brasileira, estão num trem, derrotados, humilhados e ofendidos, na viagem de volta à terra de onde migraram. Tudo sem adjetivos, sem pieguice, sem idealização, sem proselitismo. Uma narrativa essencialista, onde o narrador não toma partido, não intervém, não dá “avisos ao leitor”.

(Um exemplo emblemático da preocupação de Fontes com a postura essencialmente narrativa, é trazido pelo crítico e historiador literário Luís Bueno: descrevendo a cena em que, numa manhã chuvosa e fria, Sá Josefa deixa-se ficar um pouco mais na cama de tábuas, encolhida, o autor acrescenta “debaixo da sua miserável coberta de retalhos”. Numa revisão posterior, o adjetivo miserável seria substituído por desbotada.)[2]

O livro fez um sucesso retumbante, teve três edições num semestre e venceu o Prêmio Felipe D’Oliveira de Literatura daquele ano. Mas foi engolfado pelo debate um tanto bizantino, atiçado pela provocação de Jorge Amado: seria um romance proletário ou sobre proletários? No auge do sectarismo stalinista e, talvez, cioso de marcar como seu o território, Jorge – que deixara a interrogação estratégica no caso de Cacau – nesse caso responde com um rotundo não. E explica, lançando uma espécie de cartilha programática: “A literatura proletária é uma literatura de luta e revolta. E de movimento de massa. Sem herói nem heróis de primeiro plano. Sem enredo e sem senso de imoralidade. Fixando vidas miseráveis sem piedade, mas com revolta. (...) Ora, acontece que Os Corumbas é o romance de uma família e não o romance de uma fábrica. (...) O romance proletário deve inspirar o sentimento de revolta e de luta. Fazer do leitor um inimigo da outra classe. Comover não basta. É Preciso revoltar.”[3] Saliente-se que, apesar de negar o rótulo de romance proletário a Os Corumbas, Jorge Amado em linhas gerais elogia a obra.

Todo mundo elogiou, de João Ribeiro, que o considerou “um romance comunista” a Otávio de Faria, para quem Fontes pinta um quadro amplamente desfavorável à burguesia, porém imparcial. Alcântara Machado acolheu-a entusiasticamente. Alguns escritores fizeram algumas ressalvas. Estranharam o estilo enxuto, “sem poesia”, como escreveu José Lins do Rego. Houve até quem sentisse falta de palavrões, como o escritor Dias da Costa, salientando a ausência no texto da “linguagem um tanto escabrosa dos miseráveis” (certamente usando como parâmetro Cacau). (Ora, Os Corumbas é um romance de mulheres: são elas, as operárias, as filhas de seu Geraldo, as protagonistas; submetidas, além da exploração fabril, ao severo poder patriarcal e à repressão moralista da igreja católica, aquelas mulheres do início do século 20 não falavam palavrão.) Quem compreendeu perfeitamente a questão estilística — adequação linguagem-conteúdo e proposta estética — foi Manuel Bandeira, já no primeiro momento, quando enaltece o estilo direto e sem firulas de A.F., ao seu ver um escritor “só atento ao que é essencial no romance, ao movimento do romance, às suas exigências de construção e de verossimilhança psicológica”.[4][4]

Embora um tanto esquecido nos últimos anos, o belo romance de A.F. permanece no coração dos leitores (em 2003 foi lançada, pelo José Olympio, sua 25ª edição) e recebe certa atenção da academia, em dissertações e teses várias. E mereceu duas homenagens de outros escritores, que incluíram como personagens em suas obras ficcionais membros ou descendentes da sofrida família Corumba. Esse fato eleva, ao meu ver, a obra de Amando Fontes à categoria dos clássicos, que é quando nós passamos a encarar e a citar os fatos e pessoas narrados como se fossem reais.

MUDANÇA DE DOMICÍLIO LITERÁRIO.

Curiosamente, partiu do próprio Jorge Amado, tão zeloso do título de romance proletário, a primeira citação de uma criatura de Amando Fontes em obra alheia. E foi apenas dois anos após o lançamento de Os Corumbas, no seu romance Jubiabá, de 1935.

Nos dois terços iniciais, o protagonista, o negro Antonio Balduíno, exerce suas atribuições de boxeador, artista de circo, malandro, perseguido da polícia e amante vigoroso. É a parte mais bem realizada do romance, onde predominam a sensualidade, o colorido, os sons e cheiros da Bahia e do seu povo, características que se tornariam a marca do escritor e seria aprofundada e alargada após seu rompimento com o Partido Comunista. Na seção final desse consagrado romance, como um Deus ex machina, Balduíno se torna um dos líderes das massas operárias nas batalhas campais entre capital e trabalho na ensolarada cidade do Salvador. É quando, para surpresa do leitor que já tenha lido o livro de A.F., entra em cena, numa assembleia sindical, um novo personagem:

Um rapaz pede a palavra. Começaram a bater palmas mal ele aparece na mesa.
– Quem é? – pergunta Antonio Balduíno ao negro Henrique.
– É um operário das oficinas. Se chama Pedro Corumba. Um homem escreveu o ABC da família dele que passou o diabo em Sergipe. Eu já li... Ele é um lutador velho. Grevista velho. Já fez greve em Sergipe, no Rio, em São Paulo. Eu conheço ele. Depois lhe apresento.

E Pedro Corumba faz um discurso candente, desmascara o advogado conciliador, incendeia a plateia.

No romance de Amando Fontes, Pedro, jovem operário, é catequizado por um colega mais velho, José Afonso, lê livros que ele lhe passa, participa de uma greve, torna-se um destacado ativista sindical, é preso e deportado para o Rio de Janeiro – em mais um dissabor para os seus que, além do impacto afetivo, sofrem também com a diminuição da renda familiar. Os fatos se dão no primeiro terço da obra e Pedro somente reaparece, já para o final, numa carta aos pais e irmãs enviada do Rio, onde depois de libertado conseguira emprego, vivia em situação precária e continuava participando dos movimentos operários, sem maiores detalhes.

Jorge Amado vai buscá-lo já calejado nas lutas proletárias, para participar e dar uma força na greve dos trabalhadores baianos. “Continuando” a trajetória do personagem, apenas insinuada no romance original. Uma bela homenagem do escritor comunista ao colega católico, inclusive citado indiretamente, pois o “ABC da família dele”, como explica Henrique a Balduíno, se trata exatamente de Os Corumbas, sabendo-se que na literatura de cordel ABC é uma das modalidades dos folhetos ou romances de feira.

A segunda “mudança de domicílio” de um personagem vai ocorrer 63 anos depois e, com o decorrer do tempo, envolverá “descendentes” da família original. Será no último romance do escritor Herberto Sales, A prostituta, de 1996. A protagonista chama-se Maria Corumba e, como a Caçulinha de Amando Fontes, é sergipana, operária, deflorada pelo próprio noivo, igualmente um militar e, por isso, jogada “na vida”.

O romance de Herberto tem um tom e um desfecho completamente diferentes do outro, centrando-se na heroína que, ao contrário de suas “parentas” – e apesar da queda – vai parar no bordel por decisão própria e termina redimida por um casamento meio inverossímil.

Conforme Manuela Cunha de Souza, em trabalho acadêmico, “a família retratada em A prostituta, ou o que restou dela, é uma mescla de elementos que Herberto buscou no romance de Fontes e o que ele imaginou que poderia acontecer com os integrantes daquela família. De certo modo, a criação de A prostituta é a continuação da leitura do romance de Amando Fontes pelo autor. Ele resume quem era aquela família na voz de um dos operários que conversavam no início da obra, afirmando que seus primeiros integrantes trabalharam naquela fábrica e que todas as moças acabaram ‘se perdendo’ e entrando na prostituição. A protagonista vinha a ser ‘prima longe’ dessas jovens que foram dispensadas do ambiente fabril e partiram para os bordéis...”

Herberto explicaria assim sua motivação: “Na impressão sensível que me deixou no espírito essa família [Corumba], criei a fantasia romanesca dela, a jovem sergipana que se tornou a heroína deste meu último romance.” [5]
E assim as criaturas de Amando Fontes sobreviveram e abrigaram-se em obras de Jorge Amado e Herberto Sales.
Vale a pena, pois, ler essa obra-prima do romance social brasileiro. Melhor dizendo, obra-prima do romance brasileiro.
[1] Amando Fontes (1899-1967), de família sergipana, nasceu em Santos e voltou ainda criança para Sergipe. Além de Os Corumbas, publicou Rua do Siriri, em 1937. Deixou inacabado o romance O Deputado Santos Lima, no qual eram retratados os últimos anos da República Velha e o começo do novo regime.
[2] BUENO, Luís - Uma história do romance de 30 – São Paulo: Edusp, 2006.
[3]AMADO, Jorge. "P.S.".ln: Boletim de Ariel. Rio de Janeiro, (li, li) 1933. APUD Bueno, obra citada.
[4] APUD BUENO, na obra citada, acrescentando: “A compreensão de Manuel Bandeira é perfeita”.
[5] SOUZA, Manuela Cunha de. “Entre tantas Marias: nuances da identidade feminina no romance A prostituta, de Herberto Sales”. Dissertação para o Programa de pós-graduação em Estudo de Linguagens, UFBA, 2011. http://www.ppgel.uneb.br/…/uploads/2011/09/souza_manuela.pdf

Texto e imagem reprodizidos do site: interblogs.com.br/homerofonseca

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