“Com base na declaração de Bakthin, pode-se afirmar que ler não é unicamente decodificar os símbolos gráficos, é também interpretar o mundo em que vivemos”. (Patrícia F. Bianchini).



quarta-feira, 3 de maio de 2017

Antes de ‘Gabriela’: o romance proletário



Publicado originalmente no site MultiRio, em 19 Março 2012.

Antes de ‘Gabriela’: o romance proletário
Por Márcia Pimentel

Antes e depois de Gabriela, cravo e canela. É assim que os estudiosos da obra de Jorge Amado costumam dividir a produção literária do escritor baiano. A divisão coincide com o momento em que ele abandona a militância do Partido Comunista Brasileiro (PCB), em 1956, ano em que, no mundo inteiro, há uma debandada geral de intelectuais dos quadros do comunismo, por conta da leitura dos crimes de Josef Stalin no 20º Congresso do Partido Comunista Soviético. O romance Gabriela, publicado no Brasil em 1958, é visto como a obra em que ele rompe com os cânones da estética oficial stalinista: o realismo socialista.

A fase amadiana dos romances proletários se inicia em 1933, um ano após sua filiação ao PCB, com a publicação de seu segundo livro, Cacau, no qual narra a ganância e a brutalidade impiedosa dos coronéis do cacau, que faziam fortuna à custa dos miseráveis. Sergipano, personagem principal do romance, passa por uma longa trajetória de pobreza e revolta contra a exploração até terminar como grande herói comunista. Amado parece, dessa forma, alinhar-se com o realismo socialista antes mesmo de este ter-se tornado a estética oficial do partido soviético.

Em sua tese de doutorado sobre Jorge Amado e militância política, Júlia Monnerat Barbosa atenta para o fato de que alguns protagonistas de outros livros publicados depois de Cacau – como Jubiabá (1935) e Capitães da areia (1937) – traçam o mesmo roteiro épico de Sergipano: “infância pobre, períodos de privações, tentativas de superação de uma realidade dura e miserável de forma individual, fracasso, e, finalmente, a percepção de que apenas a via coletiva de organização da classe trabalhadora pode oferecer a libertação, terminando o protagonista como grande líder proletário”.

Efervescência cultural comunista

A fim de promover uma “cultura proletária” e fazer frente à “cultura burguesa”, os partidos comunistas estruturaram, durante os anos 1930, em diversos países, inclusive o Brasil, redes culturais – com jornais, revistas, editoras e entidades – que atraíam intelectuais, jornalistas, artistas, escritores, músicos e estudantes de todo o mundo. Em seu stalin_4_1_legendalivro Descaminhos da revolução brasileira, Ricardo da Gama Rosa Costa avalia o impacto dessa política cultural do PC em nosso país: “A rede cultural do PCB, complementada no intercâmbio com os aparelhos do movimento comunista internacional, funcionava como um lugar cativante e delineador de carreiras culturais. A dimensão internacional de Jorge Amado parece encontrar aqui uma de suas fontes de energia”.

Os esforços culturais do PC vieram acompanhados de direcionamentos estéticos. O realismo socialista foi anunciado como a estética oficial do Zhdanov_2partido para a literatura e as artes em setembro de 1934, durante o I Congresso de Escritores Soviéticos. O anúncio foi feito por Andrei Zdanov, comissário de Cultura indicado por Stalin. Conforme as teses por ele apresentadas, as artes deveriam fazer uma descrição realista da sociedade e enaltecer os heróis proletários. Ainda segundo o discurso proferido pelo comissário, todo escritor deveria ser um “engenheiro de almas”, capaz de moldar mentes socialistas e mobilizar “os trabalhadores e os oprimidos para a luta e aniquilação definitiva da exploração e do jugo da escravidão assalariada”.

Em meio a essa política cultural do PC – que se torna bem mais rígida após o início da Guerra Fria –, Jorge Amado escreve vários livros sob a égide do realismo socialista até o ano de 1954, quando publica a trilogia Os subterrâneos da liberdade, romance que termina com a personagem Marina, militante comunista disciplinada, gritando apoteoticamente: “Viva Luís Carlos Prestes!”. O líder do PCB já havia, aliás, inspirado as letras de Amado em outras ocasiões, como em 1941/42, quando escreveu O cavaleiro da esperança, livro sobre a vida do dirigente comunista brasileiro, que tinha o objetivo de contribuir com a campanha por sua anistia e que, segundo muitos, lançou o escritor baiano para o mundo das estrelas literárias do comunismo.

Entusiasmo norte-americano

Sobre a divisão de sua produção literária em duas fases, Jorge Amado concordava apenas em parte com a visão de que Gabriela pertencia a uma nova etapa. Certa vez, numa das entrevistas que concedeu a Alice Raillard, tradutora de inúmeros livros seus para o francês, lembrou que o prefácio da edição cubana de Gabriela ironizava as críticas dos militantes comunistas brasileiros, que consideravam o romance o fim de tudo: “Segundo esse prefácio, meu livro era marxista, onde a sociedade era analisada com lucidez e rigor perfeitos”.

Para Amado, Gabriela pertencia a uma nova etapa literária porque era uma história de amor, e não porque havia abandonado a abordagem política. Também não concordava com que esse discurso fosse a única tônica de sua produção anterior: “Ele (o discurso político) está ausente em Terras do sem fim (1943), aparece muito pouco em São Jorge de Ilhéus (1944), e se encontra somente no epílogo de Seara vermelha (1946)”, defendia-se o escritor.

Mesmo que Jorge Amado não tenha deixado de lado o contexto social e a crítica à realidade brasileira, o antropólogo Roberto da Matta, em seu livro A casa e a rua, considera que o escritor baiano abandonou, em Gabriela, a visão do intelectual de esquerda que tinha resposta para todos os dilemas a partir de fórmulas feitas. Considera, ainda, que Amado passou a apresentar, desde então, o gabriela_capa_euamundo como “uma complicada teia de relações pessoais que sustenta a esperança nas boas amizades” e como uma disputa muito mais real e complicada que a divisão esquerda/direita “entre os que estão embaixo e os que estão em cima”.

O fato é que, naqueles tempos de Guerra Fria, a recepção de Gabriela foi entusiástica por parte daqueles que estavam em posição oposta à Rússia. Em 1962, quando o livro foi lançado nos Estados Unidos, o jornal The New York Times registrava, em sua coluna de crítica literária, uma visão oposta à que foi apresentada no prefácio da edição cubana: “Gabriela representa, sem dúvida, a liberação do Sr. Amado de um longo período de compromisso ideológico com a ortodoxia comunista. (...) Está completamente convencido de que doutrinas rígidas extraídas da experiência russa são agora de pouco valor para o Brasil”.

Poucas semanas após a publicação da crítica, Gabriela entra para a lista dos best sellers do jornal e nela permanece por quase um ano. Era o esmorecimento da resistência do sistema literário norte-americano à obra de Jorge Amado.

Texto e imagens reproduzidos do site: multirio.rj.gov.br

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