“Com base na declaração de Bakthin, pode-se afirmar que ler não é unicamente decodificar os símbolos gráficos, é também interpretar o mundo em que vivemos”. (Patrícia F. Bianchini).



quarta-feira, 3 de maio de 2017

Liberdade linguística, miscigenação e construção...




Publicado originalmente no site MultiRio, em 19 de março de 2012.

Liberdade linguística, miscigenação e construção carnavalizada do Brasil
Por Márcia Pimentel

Jorge Amado faz parte de uma geração de escritores que se serviu dos caminhos abertos pelos modernistas da Semana de 1922 e inovou o romance brasileiro com uma prosa marcada pela crítica social e linguagem regionalista. Embora a crítica literária identifique o grupo como a geração que inaugurou o romance social no Brasil – muitas vezes chamado de romance nordestino pelo fato de a maioria dos autores ser natural do Nordeste -, não havia entre os escritores o sentido de unidade estética programática que marcou os grupos modernistas da fase anterior. Mas se os nordestinos despontados na década de 1930, ainda que sem unidade estética, inovaram a Literatura Brasileira com seus romances sociais, teria Jorge Amado alguma contribuição específica para as nossas letras?

Para a presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL), Ana Maria Machado, a principal inovação de Amado foi levar para as páginas literárias a fala popular do brasileiro e as centenas de personagens marginais, como prostitutas e meninos de rua. “Hoje, isso ficou tão comum que nem se nota o tamanho da revolução que representou quando ele o fez”, destacou a escritora em uma entrevista ao jornal Balaio de Notícias. Durante muito tempo, porém, no meio acadêmico e na crítica literária, prevaleceu um enfoque oposto: o de que a obra amadiana apresentava descaso com os padrões da língua, além de ser antiga e atrasada, por ter um tom picaresco que, supostamente, seria mais adequado ao romantismo indianista do século XIX.

Foi assim que, por exemplo, o inglês David Brookshaw, professor de Estudos Luso-brasileiros da Universidade de Bristol, classificou o livro Jubiabá (1935). O negro Antonio Balduíno, personagem principal do romance, seria, segundo ele, o estereótipo do bom escravo dos tempos coloniais, visão com a qual Eduardo de Assis Duarte, professor da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), não concorda. Para este, Balduíno, além de ser o primeiro herói negro de perfil épico do romance brasileiro, só é apresentado com inocência, força física e sensualismo extremado, no início da história, para fazer contraponto ao novo homem que surge, no final, com a greve e a consciência de classe.

Em seu artigo Jorge Amado: uma releitura, Ana Maria Machado credita boa parte da má vontade com a obra do escritor baiano aos “feudos portugueses que fixaram raízes nas instituições culturais lusitanas durante o longo período salazarista”, inclusive nos departamentos de Língua Portuguesa de diversas universidades europeias. Esses “feudos” atacavam a “sintaxe duvidosa” e a “frouxidão linguística” do texto amadiano, nada fiel aos cânones linguísticos da academia lusitana. A presidente da ABL, porém, ironiza a má vontade com o escritor baiano, já que a teoria em prol da liberdade linguística era fortemente aplaudida e elogiada pela academia e pela crítica literária, desde os primórdios do Movimento Modernista. “O que Amado fez foi colocar em prática o que os modernistas buscavam sem conseguir até então”, dispara ela.

 Amizades e favores

Para o antropólogo Roberto Da Matta, a principal contribuição de Jorge Amado às letras brasileiras reside nos “temas não oficiais da sociedade brasileira” que ele colocou em pauta nos seus romances da fase pós-Gabriela. Esses temas seriam assentados na teia de elos pessoais e nas capa_dona_flor_legendarelações de favores que atravessam as relações entre semelhantes e opostos, ricos e pobres. “Não se trata mais de uma luta dualística entre oprimidos e opressores, mas de um drama que, não obstante a inclusão da exploração e do poder mais nu e cru, pretende tratar das relações e manifestações deste poder com ele mesmo. E mais, discutir as formas sociais (ou culturais) que fazem esse poder ser obedecido”, avalia Da Matta em seu livro A casa e a rua.

Para tratar do universo fundado nas amizades e nas relações pessoais e de favores, fora da moralidade oficial – com coronéis se relacionando com prostitutas e malandros, com recatadas viúvas acatando conscientemente a convivência com dois maridos etc. –, Jorge Amado utilizou, segundo o antropólogo, a estratégia da carnavalização. Para sustentar essa teoria, Da Matta recorre ao filósofo russo Mikhail Bakhtin, que afirma que as manifestações carnavalescas estão assentadas na liberdade de poder inverter os costumes e a moral do status quo, o que torna possível trocar o sacro pelo profano, o velho pelo novo, a morte pela vida etc. “Carnavalizar é relacionar pessoas, categorias e relações sociais que normalmente estariam soterradas sob o peso da moralidade sustentada pelo Estado”, diz o antropólogo.

É a carnavalização que dá aos heróis da fase pós-Gabriela a característica da vida dupla. É ela que também permite que malandros como Vadinho, de Dona Flor e seus dois maridos, se relacionem com as camadas mais altas e estabelecidas da sociedade, da mesma forma que Tiririca, que pertence aos estratos de cima, se relaciona fortemente com os que estão abaixo através de sua famosa festa anual, realizada para pagar dívida com um orixá. Para Da Matta é essa visão carnavalizada que permite que Amado revele a face oculta e a-histórica da sociedade, para além dos diagnósticos socioeconômicos tradicionais.

Ícone do século XX

Para o professor da UFMG Eduardo de Assis Duarte, Jorge Amado “faz parte de um restrito grupo de escritores que se emaranharam intensamente nas pulsões históricas do século XX”. Em sua visão, a obra amadiana é composta por grandes narrativas que se entrelaçam com a trajetória do socialismo e a história do país e contam a vida do povo numa ótica voltada para a construção da identidade nacional – a Bahia transformada em metonímia do Brasil.

Ele lembra que a postura amadiana vinculada à construção da identidade cultural se transforma com o tempo. O paradigma ideológico da luta de classes passa a ceder cada vez mais espaço para as relações entre homens e mulheres, a miscigenação racial, a tolerância étnica e o hibridismo cultural, numa postulação próxima daquela defendida por Gilberto Freyre. As questões étnicas, aliás, estão presentes desde as primeiras obras de Amado, embora a luta de classes ainda fosse, nessa época, o cerne das questões humanas. Numa entrevista que concedeu a sua tradutora francesa Alice Raillard, Jorge Amado disse, certa vez: “Em Jubiabá, (...) Balduíno compreende que o problema de raça não é a causa, mas sim consequência do problema de classe. (...) Eu realmente fico feliz por Jubiabá mostrar isto e não o caminho estreito e fechado da separação de raças, da negação da nossa realidade e da própria experiência humanista, que é a mistura de raças”.

Até o fim de sua vida, Amado defendeu a bandeira da miscigenação e hibridação cultural. Essa postura lhe rendeu inúmeras críticas da esquerda que, aliás, condenou não só os rumos de sua ficção, mas também sua trajetória política, que flutuou entre o culto a Stalin e a amizade com José Sarney e Antônio Carlos Magalhães. Talvez, a visão carnavalizada da sociedade, analisada por Da Matta, explique o fato de Amado ter feito amigos com trajetórias políticas tão distintas daquelas que pregou até meados dos anos 1950.

Em relação a todas as controvérsias que cercam a figura do escritor baiano, Duarte, em um artigo que escreveu em 2001, dizia esperar que a morte de Jorge Amado, ocorrida naquele ano, não mais obscurecesse o trabalho do artista, nem conduzisse mais o julgamento de sua obra por critérios que extrapolassem seu projeto literário. Mais de dez anos depois, resta-nos saber qual será o tom da academia neste ano de comemoração do centenário de nascimento do escritor que encantou milhões de leitores no Brasil e no mundo.

Texto e imagens reproduzidos do site: multirio.rj.gov.br

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