“Com base na declaração de Bakthin, pode-se afirmar que ler não é unicamente decodificar os símbolos gráficos, é também interpretar o mundo em que vivemos”. (Patrícia F. Bianchini).



sábado, 25 de novembro de 2017

O livreiro que virou autor



Publicado originalmente no site da Livraria Cultura

O livreiro que virou autor.
Por Maurício Duarte.

Pedro Herz é um dos mais importantes empresários do mercado editorial brasileiro. À frente da Livraria Cultura, como presidente do Conselho Administrativo, estão em suas mãos – e nas do filho, Sergio Herz, CEO da empresa – 18 lojas, 1.500 funcionários, cerca de 5 milhões de clientes e um acervo com quase 10 milhões de produtos. Levando em consideração que a rede acaba de adquirir a Fnac Brasil, some-se a isso mais 12 lojas, mais algumas centenas de funcionários e por aí vai. Apesar de todo esse currículo, no entanto, ele se considera, acima de tudo, um livreiro. Não por acaso, O livreiro é o título de seu livro, publicado pela editora Planeta e que chega ao público em meados deste mês, seja em versão impressa ou como e-book.

Segundo o autor, o que o levou à decisão de publicar sua história foi algo bastante trivial: o convite de uma editora. Quando foi procurado para saber se tinha interesse em escrever, o desejo de tantos livreiros – se tornar escritor – aflorou também em Pedro. “Já tinha passado pela minha cabeça fazer alguma coisa, aí veio o estímulo da editora, me senti honrado com o convite e toquei o barco”, conta.

Na obra, o livreiro narra a vinda de sua família – imigrantes judeus fugidos da Alemanha nazista – ao Brasil e como eles estabeleceram seus vínculos no país por meio dos livros. Em 1947, sua mãe, Eva Herz (1911-2001), teve a ideia de adquirir e alugar livros em alemão e inglês para seus colegas expatriados. Esse foi o embrião da Livraria Cultura, que celebra 70 anos de trajetória neste 2017.

Embora não seja uma biografia propriamente dita, o livro mescla saborosas histórias pessoais com os causos da família Herz, que viveu entre os livros desde sempre. A vida do autor caminha lado a lado com o crescimento empresarial da livraria, do qual Pedro foi um agente fundamental. Para Cassiano Elek Machado, diretor editorial da Planeta e que acompanhou de perto a feitura do livro, esse é um dos pontos altos da obra. “Estamos diante de uma grande história: a de uma mulher que resolve alugar dez livros para uma pequena comunidade de imigrantes e que dá início a uma história que envolve milhões de livros. Em segundo lugar, porque não é sempre que temos a oportunidade de acompanhar, no âmbito cultural, uma história tão significativa de expansão empresarial. Em terceiro, porque Pedro é um grande contador de causos, o que já demonstrou, por exemplo, em seu programa de TV”, diz.

A jornalista Laura Greenhalgh, que ajudou Pedro na organização dos relatos, destaca que o livro é um documento importante de uma figura que se tornou referência cultural no país. “Ele é muito implicado em tudo aquilo que faz. Desde um diálogo que ele pode ter com um cliente na livraria até grandes projetos que realiza como empresário. Um traço dele é este: vale a pena se implicar nas coisas que nos dizem respeito”, afirma.

Pedro é um agregador, e isso fica evidente em suas narrativas no livro, que envolvem muitos amigos, alguns deles personagens relevantes da história brasileira. A questão da importância da amizade também é ressaltada no prefácio, escrito pelo psicanalista e escritor Contardo Calligaris.

Há momentos de tensão, como aqueles passados ainda sob o regime ditatorial do Brasil, e outros de ternura, como quando ele lembra com nostalgia a presença do poeta Vinicius de Moraes (1913-1980) em um lançamento da livraria. “Fiquei muito impressionada pela lucidez que ele tem. Sabe da sua importância e da importância da empresa. Ele tem essa noção muito clara de que ele vai passar e que a vida é passar e deixar passar. É um livro bem aberto, que dialoga muito com as pessoas”, completa Laura.

Aos 77 anos, Pedro acredita que, de alguma forma, a realização da obra fecha um ciclo em sua vida. “Descobri, na realidade, uma coisa que ouvia desde sempre: que você tem de plantar uma árvore, ter filhos e escrever um livro. Como já fiz tudo isso, agora sinto minha missão cumprida. Foi uma coisa totalmente espontânea. Mas, se isso é uma missão, sei que cumpri e fico feliz”, pontua.

Texto e imagens reproduzidos do site: livrariacultura.com.br

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